Que Daniel Oliveira é uma espécie de Cavaco Silva de esquerda - um génio das banalidades, como disse Saramago sobre o nosso papá - já eu tinha reparado. Mas a cada dia que passa, Daniel Oliveira continua a impressionar-me pela negativa com as suas observações epicuristas acerca do quotidiano, em discursos que alternam entre o politicamente correcto da defesa dos oprimidos e do politicamente incorrecto no ataque aos costumes. Como se não bastasse a construção frásica quase monossilábica de tentativa de fácil persuasão argumentativa, ainda temos de contornar essa dupla faceta de cada vez que lemos um texto dele.
Hoje, o Daniel decidiu defender o multiculturalismo, em mais uma das suas incursões habitualmente comezinhas sobre a união dos povos, da aceitação do diferente e do internacionalismo. Desta vez, o alvo foi a Alemanha e a sua selecção em forma de salada genética.
Exceptuando os tiques de anti-nazi que ele gosta de evidenciar gratuitamente sempre que cita um germânico qualquer, não sendo isso novidade nenhuma, o Daniel fala das vantagens da diferença nas selecções como algo positivo, e di-lo no seu sermão evangelical de persuasão moralista. De tudo o que lá despejou, o que mais me custou ler foi a ideia peregrina de que "o nacionalismo não pode excluir", como se fosse obrigação moral de uma nação impôr a diversidade, sob pena de ser apelidada de xenófoba. Note-se como a paranóia anti-nazi está tão enraizada ao ponto de sugerir esta inversão no ónus de aparência: já não somos nazis a partir do momento em que somos racistas; agora somos racistas até negarmos que somos nazis.
Mas concretizemos a importância das diferenças culturais. Eu falo por mim - quando quero conhecer outras realidades diferentes da minha e estou aberto para conhecê-las, não fico sentado à espera que o multiculturalismo venha ter comigo à minha porta. Faço antes como o Daniel Oliveira já fez (1, 2, 3, 4, 5, 6, ...): visto roupa de burguês, sigo para tirar fotos nesses locais e depois faço comentários sociológicos pungentes sobre o estado da Humanidade. Mas ao menos tento ser coerente. Não sou revolucionário anti-capitalista num dia para ser um social-democrata conformista uns dias depois.
Alguém precisa de explicar ao Daniel que a diferença étnica e cultural só existe se for territorialmente visível. Se a diferença se imiscuir nas idiosincrasias instaladas, a única coisa que vai fazer é transformar o Mundo num lugar tendencial e culturalmente igual em todo o lado, sem nada que distinga uma praça espanhola de uma avenida tailandesa. É gente como o Daniel Oliveira que dá mau nome à esquerda, à verdadeira esquerda que tem mais do que se preocupar do que com estas marretices da moda.
Tudo isto com a agravante de negar algo que sempre foi mais do que evidente para muitos grandes pensadores: é perfeitamente normal e expectável que todo e qualquer ser humano lute e preze (e não apenas "goste") pelo território que partilha com os seus próximos e que o defenda das ameaças e influências externas, protegendo-se a si e aos seus. Não é xenofobia, ódio ou aversão preconceituosa; é apenas a natureza humana em acção, tal como a de um leão que segura a sua savana ou a de um crocodilo que salvaguarda o seu pântano, ou a de um Daniel Oliveira que fecha a porta de entrada de cada vez que entra em sua casa.
Hoje, o Daniel decidiu defender o multiculturalismo, em mais uma das suas incursões habitualmente comezinhas sobre a união dos povos, da aceitação do diferente e do internacionalismo. Desta vez, o alvo foi a Alemanha e a sua selecção em forma de salada genética.
Exceptuando os tiques de anti-nazi que ele gosta de evidenciar gratuitamente sempre que cita um germânico qualquer, não sendo isso novidade nenhuma, o Daniel fala das vantagens da diferença nas selecções como algo positivo, e di-lo no seu sermão evangelical de persuasão moralista. De tudo o que lá despejou, o que mais me custou ler foi a ideia peregrina de que "o nacionalismo não pode excluir", como se fosse obrigação moral de uma nação impôr a diversidade, sob pena de ser apelidada de xenófoba. Note-se como a paranóia anti-nazi está tão enraizada ao ponto de sugerir esta inversão no ónus de aparência: já não somos nazis a partir do momento em que somos racistas; agora somos racistas até negarmos que somos nazis.
Mas concretizemos a importância das diferenças culturais. Eu falo por mim - quando quero conhecer outras realidades diferentes da minha e estou aberto para conhecê-las, não fico sentado à espera que o multiculturalismo venha ter comigo à minha porta. Faço antes como o Daniel Oliveira já fez (1, 2, 3, 4, 5, 6, ...): visto roupa de burguês, sigo para tirar fotos nesses locais e depois faço comentários sociológicos pungentes sobre o estado da Humanidade. Mas ao menos tento ser coerente. Não sou revolucionário anti-capitalista num dia para ser um social-democrata conformista uns dias depois.
Alguém precisa de explicar ao Daniel que a diferença étnica e cultural só existe se for territorialmente visível. Se a diferença se imiscuir nas idiosincrasias instaladas, a única coisa que vai fazer é transformar o Mundo num lugar tendencial e culturalmente igual em todo o lado, sem nada que distinga uma praça espanhola de uma avenida tailandesa. É gente como o Daniel Oliveira que dá mau nome à esquerda, à verdadeira esquerda que tem mais do que se preocupar do que com estas marretices da moda.
Tudo isto com a agravante de negar algo que sempre foi mais do que evidente para muitos grandes pensadores: é perfeitamente normal e expectável que todo e qualquer ser humano lute e preze (e não apenas "goste") pelo território que partilha com os seus próximos e que o defenda das ameaças e influências externas, protegendo-se a si e aos seus. Não é xenofobia, ódio ou aversão preconceituosa; é apenas a natureza humana em acção, tal como a de um leão que segura a sua savana ou a de um crocodilo que salvaguarda o seu pântano, ou a de um Daniel Oliveira que fecha a porta de entrada de cada vez que entra em sua casa.
Caro amigo enciclopédico,
ResponderEliminarJá há algum tempo tenho notado no modo como insistes em recorrer ao argumento da "natureza humana" para sustentar a tua concepção fatalista e determinista das injustiças sociais, bem como do espírito onanisticamente picaresco do cidadão português, que diversas vezes se vê ser invocado no decorrer das nossas sempre elevadas conversas de café. De modo bastante lacónico e crude (porque, como de costume, o tempo não cessa de urgir), gostaria de te fazer atentar uma ideia tua que, no meu entender, não se deixou impregnar pelo "Darwinismo" que tantas vezes glorificas e a que incontáveis vezes te reportas.
Ora, se bem me lembro, a originalidade da teoria de Darwin assentou na noção basilar e epistemologicamente assoladora de que a afamada "natureza" das coisas pura e simplesmente não existe. A maquinaria metodológica esculpida pelo autor pressupõe, então, que todas as mutações fenotípicas e sociais que vão moldando os corpos e as linguagens dos seres vivos são inelutavelmente contingentes, já que advêm da adaptação das espécie ao meio, ao invés de essenciais e intrinsecamente pré-estabelecidas.
Dito isto, proponho que passemos para a problematização das dimensões inerentemente bestiais do ser humano que colocaste em cena no teu texto. Que o ser humano é um animal, pouca gente tem dúvidas nos dias de hoje. Que as pulsões violentas de auto-defesa do próprio e da comunidade estão porventura irremediavelmente entranhas na consciência é certo e sabido. Não obstante, o teu argumento escolhe, de modo deliberado, manter na sombra toda uma teia ideológica e religiosa de dimensão intemporal centrada em volta de atitudes de compaixão e compreensão das identidades outras. Que fazer do Cristianismo ou do Budismo, cujos ditames assentam na auto-repressão do ego, esse elemento nuclear do sujeito que tanto serve para proteger, como dizes, como para destruir e subjugar? Ora, é óbvio que o aparecimento destas religiões, por exemplo, é sintomático da existência na linguagem humana de uma capacidade de auto-reflexão que os animais, por razões evolutivas, não adquiriram até ao momento presente. Isto não significa, de modo algum, que possamos encarar espécie humana como algo superior e progressivamente aprimorado. Do ponto de vista evolucionista, não há eixos verticais que ditam aquilo que é bom e mau, melhor ou pior. Tudo é fruto do devir, esse fluxo amoral, impassível e implacável. No final do dia, no entanto, é sempre uma questão de opção e, mais uma vez, aí reside a nossa humanidade. Cabe-nos o papel de escolher entre agir como crocodilos e leões ou como seres pensantes e comiseradores, ainda que esse Daniel Oliveira que fecha a porta e que habita a casa de cada um de nós não possa, claramente, ser despejado com um pontapé no cu.
ResponderEliminarMuito rapidamente: as questões de nacionalismos exacerbados, como tudo no mundo social, devem ser compreendidos na sua interacção com as tensões e com as peculiaridades da sua época, ao invés de serem objecto de demonização e atribuição de opróbios. É perfeitamente aceitável que uma Alemanha dilacerada pela guerra e pela crise económica se deixe facilmente convencer pela retórica da violência e do empolamento identitário. É igualmente compreensível que se reforcem os discursos contra a imigração e contra o Outro num momento de recessão externa e interna em que a Alemanha tem de abrir mão de grandes somas de capital para emprestar a países despesistas e de ambições inverosímeis.
Isto para dizer que as doutrinas sustentadas na compaixão para com o diferente são profícuas e, como sabes, eu alinho por elas parte do meu pensamento. No entanto, as cedências são sempre necessárias quando nos defrontamos com a complexidade e a mutabilidade do real. Não iremos certamente apagar o fogo do vizinho quando temos a casa a arder, caso contrário todos acabamos por ser engolidos e ninguém sai a ganhar. E aqui não se trata de egoísmo, de nacionalismo, nem de patriotismo mas sim de uma mera tentativa de encontrar a opção que a médio ou longo prazo seja melhor para todos.
Um adeus.
"Alguém precisa de explicar ao Daniel que a diferença étnica e cultural só existe se for territorialmente visível."
ResponderEliminar?? Um paquistanes e um alemao entao, numa ilha qualquer em terras de ninguem, e' o mesmo?
As diferencas culturais so existem nos individuos. E impossivel ter duas sociedades com culturas diferentes quando os individuos de ambas pensam e agem da mesma forma.
Cultura e um conceito muito abrangente que nada tem a ver com linhas territoriais visiveis. Que disparate autentico.
"Se a diferença se imiscuir nas idiosincrasias instaladas, a única coisa que vai fazer é transformar o Mundo num lugar tendencial e culturalmente igual em todo o lado, sem nada que distinga uma praça espanhola de uma avenida tailandesa."
E' tudo calhau. E' tudo historia. As sociedades evoluiem na direccao que tem que evoluir. Os nacionalistas e que tentam criar barreiras. Sao A greenpeace da sociedade humana. Tentam preservar culturas como se de animais em vias de extincao se tratassem e nao deixam as coisas tomarem o seu rumo natural. O rumo natural e so um, o da vontade dos individuos. Cada um vai e faz o que lhes apetece. Tendencias acabam por emergir.
Sao todos a mesma cambada, estes planificadores sociais. Quer comunistas ou nacionalistas, sempre a meterem o bedelho onde nao devem.
"Tudo isto com a agravante de negar algo que sempre foi mais do que evidente para muitos grandes pensadores: é perfeitamente normal e expectável que todo e qualquer ser humano lute e preze (e não apenas "goste") pelo território que partilha com os seus próximos e que o defenda das ameaças e influências externas, protegendo-se a si e aos seus. Não é xenofobia, ódio ou aversão preconceituosa; é apenas a natureza humana em acção, tal como a de um leão que segura a sua savana ou a de um crocodilo que salvaguarda o seu pântano, ou a de um Daniel Oliveira que fecha a porta de entrada de cada vez que entra em sua casa."
A nacao nao e nada. Que morra, que ja se faz tarde. Ja e tempo de descentralizarem isso tudo. Devolver o poder a cidade e aos cidadaos, que e onde ele pertence.