quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Para 2010

De um ponto de vista estritamente macroeconómico, 2010 tem todos os ingredientes para ser um ano mau. Não me refiro só a Portugal nem à Europa ou ao disparate que continua a ser a Zona Euro, tampouco me refiro a um certo "estado das coisas" mundial circunscrito numa lógica puramente contabilística do crescimento económico.

Concordamos que tivemos coisas más nos últimos meses, independentemente da ideologia que tenhamos. Com a crise financeira e subsequentemente económica, vi gente a unir-se como ainda não tinha visto. Por muito que sejamos diferentes em ideologias, nenhum de nós terá prazer no colapso que se deu no centro financeiro de Wall Street, na medida em que o desleixo (para não dizer mais) dos seus actores levou a emergências sociais em todo o Mundo. Devia ser esse o princípio que nos deveria unir e repensar algo que está mal, mas cuja discussão está emperrada pela luta partidária.

1. Há um ano, Wall Street beneficiou do TARP (financiamento norte-americano estatal de recuperação) no sentido de recapitalizar os seus rácios e balanços, de modo a conter o efeito-dominó da crise. Na Europa, houve movimentos idênticos.

2. Seria de esperar que fossem devolvendo esse dinheiro aos poucos, mas nunca antes de 2 ou 3 anos, o tempo previsto mínimo de recuperação dos centros financeiros. No entanto, a política de baixo juro não foi acautelada (nem nos EUA nem na Europa) e temos três consequências até agora:
a) passou um ano das ajudas financeiras e os bancos já andam a devolver o dinheiro emprestado, graças às enormes mais-valias conseguidas com a especulação bolsista dos últimos 10 meses;
b) a recuperação económica ainda está lenta e corre sério risco de recaída se levar um choquezinho pequeno (é uma criança a recuperar de uma gripe);
c) bancos conseguem financiamento dos bancos centrais a 0% e vendem o crédito a 3, 4, 5 e 6%, nos casos em que de facto emprestam.

3. Com a especulação bolsista que fez retornar os níveis das acções aos valores pré-crise, temos neste momento um desfasamento enorme entre o valor dos títulos de investimento e o valor real das empresas.

4. A acrescer a esse facto, o crescimento económico dos últimos meses é algo enganador, uma vez que se deve principalmente à reposição dos stocks das empresas, fenómeno que abrandará no próximo trimestre.

5. Estão lá os ingredientes para que tudo dê para o torto outra vez. Sistema financeiro à revelia e com trela larga, bancos ajudados mas pessoas ignoradas. É o resultado da entrega dos destinos do Mundo à finança, à alavancagem excessiva dos centros financeiros e ao poder do grande capital.

Digam o que me disserem, seja qual for a vossa ideologia, não me digam que isto "está bem", que "vai ao sítio" ou que "é uma questão de tempo até ficar resolvido". Manter o status quo será bem pior do que aquilo que já presenciamos. 2010 espera-nos e deverá confirmar estes receios.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Só não fico decepcionado porque já o esperava

Em 1968, o Clube de Roma lançou um livro chamado "Os Limites do Crescimento". Eu já o li. Era uma obra com 2 objectivos claros: o primeiro era realçar e chamar à atenção do facto de que o crescimento económico poderia não ser ilimitado (tal como geralmente se pensa) e o segundo era o de que esses limites, que existem, não permitiriam mais crescimento demográfico nem a subsequente e crescente procura por recursos naturais. O livro caiu um pouco na sombra ao longo de todos estes anos, mas acabou por deixar uma marca.

Porquê, perguntais? É que me lembrei que se fizeram agora 41 anos da publicação do livro e pouco se pensou/fez/problematizou acerca dele desde então. Em 1968, poder-se-ia ter agido e havia informação no sentido de criar uma nova ordem mundial com preocupações verdes. Falou-se e discutiu-se; reuniram-se muitos especialistas; fizeram-se muitos colóquios e conferências. O dinheiro acabou por falar mais alto e a prioridade revelou-se ser outra.

Hoje, em 2009, fazem-se previsões para daqui a outros 41 anos. Querem reduzir x% de emissões até 2050. O valor numérico é arbitrário - o que importa é meter um número que simbolize um qualquer esforço que deveria antes ser natural e espontâneo. Tal como em 1968, também agora há evidências claras e taxativas sobre os problemas ambientais; mas tal como em 1968, prefere-se pensar que ainda falta muito para lá chegar e que a coisa se vai resolvendo.

A geração de 1968-2009 viu a extinção de imensas espécies animais e florestais. Viu o aumento gradual do nível das águas dos mares. Viu degelo das calotas polares. Viu instabilidade e transformações climáticas severas e, com elas, uma nova grande causa de refugiados. Esta nova geração, a de 2009-2050, aquela da qual eu faço parte, vai ver muito pior do que tudo isso graças à inacção.

Nestas duas semanas, não houve compromisso nas emissões-zero, não houve compromisso de ajuda aos países pobres, não houve responsabilização dos países ocidentais pelos 2 séculos de poluição, não houve standards ambientais de foro tecnológico, não houve entendimento protocolar, nem sequer houve uma porcaria de um documento oficial com alguma esperança para os milhões de pessoas de todo o Mundo que se uniram a esta causa. É de lamentar, mas é este o resultado final.

Um mini-acordo silencioso, interesseiro, com segredos e elitista
. Caberá isto num encontro de 193 países que se unem durante 11 dias no sentido de alcançar uma plataforma de entendimento e um protocolo de acção urgente para um problema global, sério, evidente e gravíssimo? Sim, cabe. Basta que haja fé na estupidez do cap-and-trade e que o dinheiro, as oportunidades económicas e os interesses geo-políticos nos indiquem o caminho a seguir quando a causa que nos move deveria ser vista como algo tremendamente superior a tudo isso.



Cartoon de Riber Hansson, «Svenska Dagbladet»
(via aqui)


Há gente que não entende o conceito de irreversibilidade.

domingo, 13 de dezembro de 2009

O inevitável Separatismo

Hoje há referendo na Catalunha. Pergunta-se aos indivíduos com mais de 16 anos se aceitam que a sua região se desprenda do poder centralista e chauvinista de Madrid e se torne uma nação soberana, independente do laço artificial espanhol que muitos dizem ser uma mentira.

É curioso fazer uma transposição do caso catalão para o caso galego, bem como para o caso nortenho-português. Os catalães e os galegos são duas nações não-reconhecidas oficialmente pelo governo Espanhol, e cujas populações se predispõem, em larga proporção, a perseguir a justa independência sob o princípio da auto-determinação dos povos. Inclusivamente, aqui perto de mim, na Galiza-Norte (em Espanha), há imensos movimentos e partidos políticos regionalistas e separatistas, alguns deles com significativa expressão parlamentar (o Bloco Nacionalista Galego, que é uma agremiação de vários partidos separatistas de todo o espectro político, é o terceiro partido e reune imensos apoiantes e militantes).



Cá em Portugal, o sentimento separatista não anda muito fértil, mas já o foi no passado na Madeira e nos Açores (no pós-1974). Ainda assim, a região com mais proximidade cultural, social e linguística para além das fronteiras artificiais é a região Norte, que possui uma afinidade tremenda com a região Galega espanhola, sendo também a região com mais propensão regionalista e separatista. Na verdade, tudo o que vai do Rio Minho até à latitude do Douro, fechando em Trás-os-Montes é, para todos os efeitos, a Galiza. Apesar das mentiras veiculadas sistematicamente nos manuais escolares e da pseudo-nacionalidade lusa que os meios de comunicação ajudam a usar até à exaustão, o Norte de Portugal fez parte do Reino Galaico já desde as alturas do Império Romano e durante muito mais anos do que aqueles que o Estado de Portugal tem; e a nação galaica ainda hoje permanece, embora sem estatuto de independência e/ou soberania.

Não me assusta a separação do Norte do Estado Português. É no Norte que está o tecido produtivo, a população empregue na produção de bens transaccionáveis, a pujante demografia, o hábito e disciplina de exportação, a melhor cultura do respeito pelas afinidades étnicas e culturais próprias, a responsabilidade orçamental, e a verdadeira identidade que une o seu povo. O Norte é mais do que capaz de se governar sozinho e/ou em conjunto com a parte norte-galega, região com a qual certamente sente muito maior afinidade do que com os multiculturais imperialistas chupadores "bronzeados" da parte Sul de Portugal.

É que, para além da roubalheira mais do que evidente que o território Centro-Sul faz ao Norte a cada dia que passa, ainda fazem questão de proibir partidos políticos de índole ou âmbito regional, prendendo os movimentos no sentido da auto-determinação. É um jogo sujo, desleal e ingrato para com a região que fundou, gerou e influenciou aquilo que hoje se convém chamar Portugal.

Não nos equivoquemos: Espanha e Portugal são Estados-Fantasma que nasceram a partir de nações confinadas em regiões que hoje desprezam e espezinham. Aliás, no caso concreto de Portugal (cujo nome descede de Portus-Calle - Porto-Gaia), continua a ser vendida a falsa história do regresso a um esplendor do passado que nunca existiu. Portugal nunca foi grande, mas a sua pequenez mental enquanto país crê religiosamente num passado glorioso que jamais existiu, mas que serve apenas para nacionalismos lusitanos bacocos e sem qualquer propósito.

Esta é uma questão que convém ser abordada quando for feita a regionalização. A meu ver, podemos bradar pela divisão do país em regiões, mas não será isso que nos trará a independência, soberania e auto-determinação que a separação do lado mouro do pseudo-país em que vivemos algum dia nos trará. Daí que um dos passos fundamentais para a nossa afirmação enquanto região tenha de passar, na minha opinião, pelo separatismo do chauvinismo regional e do holocausto linguísto, cultural e social que afecta a região Norte e que tem assolado e prejudicado as suas gentes há muitos e muitos anos. É preciso ser de cá para o perceber e o sentir.

domingo, 6 de dezembro de 2009

E Eu a Pensar Que É Assim Que Se Faz Oposição

PS: investigação ao projecto Magalhães é "radical e extremista"


"O líder parlamentar do PS, Francisco Assis, acusou hoje o PSD de "optar por uma via radical, extremista e irresponsável", ao propor a abertura de uma comissão de inquérito à Fundação das Comunicações Móveis, criada para gerir o financiamento estatal do programa do computador Magalhães." in Público

Claro, estes gajos irresponsáveis do PSD, em vez de deixarem o Governo trabalhar à sua maneira, querem chateá-lo com questões menores como a legalidade de um concurso público de milhões e milhões de euros!
Afinal, segundo Francisco Assis, um grande partido da oposição não tem como função fiscalizar a acção do Governo.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O Socialismo é bom, mas só quando convém...



Neste vídeo é registado um "episodeo" passado durante o PREC, e nele se pode ver um camponês (que por acaso havia tomado de invasão uma herdade alentejana) a contestar a colectivização da sua ferramenta de trabalho ao mesmo tempo que um outro ferveroso revolucionário o tenta convencer a entregar essa mesma ferramenta. Para os cibernautas mais sensíveis atenção, este video tem linguagem revolucionária e homens de barbas grandes estilo Karl Marx. http://www.youtube.com/watch?v=CbxGF7ZhHDM
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