A acreditar em Sócrates, o PSD é um partido com ideologia xenófoba, retrógrada e que pretende reduzir o Estado aos níveis de inícios do séc. XIX.
Há que denunciar a falta de seriedade e de verdade desta ideia que o PS quer fazer passar.
Em primeiro lugar, diz-se Manuela Ferreira Leite é xenófoba e nacionalista por duas declarações suas: que o TGV ia dar emprego essencialmente a cabo-verdianos e ucranianos; e que Portugal não deve construir o TGV apenas por cedência aos interesses espanhóis.
A primeira declaração, como mandam as boas regras, tem de ser contextualizada. É uma resposta à afirmação de que o TGV viria diminuir o desemprego. Ora, Ferreita Leite respondeu, e bem, que isso não é bem assim, porque cria principalmente o tipo de empregos que hoje são ocupados por cabo-verdianos e ucranianos. Convenhamos que não é novidade nenhuma que a grande maioria dos empregos no sector da construção são ocupados por imigrantes, muitas vezes ilegais. A ditadura do "politicamente correcto" é que nos impede de reconhecer esta realidade publicamente. Mas Ferreira Leite nem criticou este facto, aliás natural num país em que os nacionais procuram empregos com qualificações superiores. O que Manuela Ferreira Leite disse, com base no tal facto já expresso, foi que, assim sendo, o TGV não responde ao problema do desemprego no país. O desemprego no nosso país tem a ver em grande parte com recém-licenciados e operários de fábricas de mão-de-obra intensiva que têm falido pelo país fora. A criação de empregos no sector da construção tem como um dos principais efeitos incentivar a imigração ilegal, e não o de resolver concretamente o nosso problema do desemprego.
A segunda declaração também nada tem de xenófobo ou nacionalista. Então agora não se pode dizer que o TGV interessa mais a Espanha do que a Portugal, e que Portugal não deve subjugar os seus próprios interesses aos interesses espanhóis? Dir-se-á que é discutível a questão sobre se o facto referido é verdadeiro, isto é, sobre se o TGV interessa mais a Espanha do que a Portugal, mas não deixa de ser uma opinião perfeitamente válida e eu também a subscrevo. A rede espanhola de alta velocidade destina-se a fazer de Madrid a cidade central da Península Ibérica, tornando as outras cidades tanto mais periféricas quanto mais dela se afastam. Este planeamento é perfeitamente legítimo de ser feito por parte dos espanhóis, mas não quer dizer que nós devamos sujeitar-nos a ele. Com efeito, o que este planeamento promoverá será a concentração dos centros de decisão e distribuição ibéricos em Madrid, deixando de fazer sentido para muitas empresas a manutenção ou criação desses centros em Lisboa, uma vez que a distância-tempo reduz-se substancialmente entre periferia e Madrid, mas não entre cidades da periferia entre si. Isto é nacionalismo? Ou pensamento estratégico? Não quero dizer que o TGV não tenha outras vantagens que porventura pudessem compensar esta desvantagem, mas mais uma vez o "politicamente correcto" impede que se fale publicamente de todos os pontos de vista admissíveis.

Quanto ao facto de o PSD ter um pensamento retrógrado... Baseiam-se em quê? Na questão do casamento entre homossexuais? Na posição face ao divórcio? Na consideração de que um dos motivos essenciais da existência do casamento é a procriação? Nas posições face ao consumo de drogas? Não posso deixar de dizer que a esquerda tem o grande defeito de achar que o caminho que propõe para a sociedade é o correcto e aquele que, inexoravelmente, vai ser seguido; e que portanto a direita é um impecilho que tem o único desígnio de atrasar a evolução natural das coisas. Se não estás de acordo com as nossas modernas ideias no campo dos costumes, és retrógrada! No que diz respeito aos costumes, a esquerda considera-se numa posição superior, a posição de um visionário que tem de ensinar qualquer coisa àqueles ignorantes imobilistas. É certo que Manuela Ferreira Leite tem posições menos libertárias que a esquerda postuguesa, mas isso agora significa que ela está ultrapassada? Que não tem direito a ter uma posição sobre a matéria? Que está desajustada do seu tempo? Parece-me de uma grande presunção esta arrogância de a qualificar de retrógrada. Acrescento, aliás, que tal qualificação tem origem num preconceito; é um preconceito baseado na idade da pessoa, nas roupas que veste, no penteado, no estilo consensual, não-revolucionário.
Por fim, resta denunciar a gravíssima falta de seriedade que é a de acusarem o PSD de querer reduzir o tamanho do Estado a níveis defendidos pelos radicais do neo-liberalismo. Como o texto já vai longo, deixo esta questão para um próximo post.