Na passada quinta-feira foi realizada na faculdade onde estudo uma conferência muito interessante a propósito das intenções de revisão constitucional do PSD. Nela intervieram Pedro Passos Coelho, três constitucionalistas consagrados e houve perguntas do público. Entre as várias questões que a discussão suscitou, há uma em especial que gostaria de partilhar com os leitores do blogue.
Tem a ver com o artigo 51.º n.º 4 da CRP, que impede a constituição de "partidos que, pela sua designação ou pelos seus objectivos programáticos, tenham índole ou âmbito regional". O que me impressionou foi o facto de ver esta disposição tratada por alguns como um anacronismo sem sentido nos dias de hoje, que limita injustificadamente a liberdade de associação. Passou-se a impressão de que é ponto assente que esta disposição constitucional deve ser eliminada na próxima revisão constitucional.
Quanto a mim, não me parece que a questão deva ser arrumada de forma tão simplista. Não se pode olhar para ela apenas do ponto de vista da liberdade de associação, que, reconheço claramente, fica limitada. Há é que perceber a sua finalidade. Diz-se que, em 1975, a ratio legis foi o receio de ideologias separatistas nas regiões autónomas e que hoje não se justifica tal receio.
De facto, também acredito que não se justifica tal receio, pelo menos num futuro próximo.
Mas não limito a finalidade desta norma à intenção de afastamento de tal receio. Mais do que isso, esta disposição constitucional reflecte a importância do carácter unitário do Estado português (art. 6.º CRP). Claro que o Estado não deixa de ser unitário se esta disposição cair; mas abre-se a porta a uma diminuição dessa unidade.
De qualquer modo, não é tanto o ponto de vista da finalidade teórica desta norma que mais me incomoda. O que me incomoda é pensar nas consequências práticas de uma revisão no sentido proposto. A consequência óbvia é a criação de partidos de índole regional.
Se esses partidos se limitarem a concorrer a eleições de âmbito regional e local, não vejo qualquer problema (apesar de também não ver grande utilidade).
Mas fará sentido esses partidos concorrerem à Assembleia da República? Lembre-se que "os deputados representam todo o país e não os círculos por que são eleitos" (art. 152.º n.º2 CRP). Como poderão os deputados da AR eleitos através de um partido regional (na sua designação e ideologia) dizer-se representantes de todo o país?
Claro que a CRP não espera que os deputados se abstraiam sempre das suas origens geográficas. Pelo contrário, a previsão de círculos com base geográfica pretende garantir que haja deputados conhecedores da concretas circunstâncias das mais variadas zonas do país. Também é natural que, conhecedores das dificuldades das suas áreas geográficas, os deputados tenham tendência a defender particularmente os interesses dessas regiões. Mas esta natural tendência quer-se como um meio de se atingir o interesse nacional, uma forma de garantir a justa composição dos interesses das várias regiões do país.
Mas há aqui um claro limite: nessa composição dos interesses, o deputado representa todo o país, é ao serviço de todo o país que ele actua. Ele tem de ter consciência disso. Aliás, note-se, o facto de o deputado, ainda que eleito por um círculo de base geográfica, fazer parte de um grupo parlamentar e ter sido eleito através de um partido político de âmbito nacional coloca um travão a uma eventual exacerbação da defesa de interesses regionais em detrimento do interesse do todo nacional.
Já o deputado eleito por um partido regional recebe dos eleitores um mandato muito concreto de defesa incondicional dos interesses da sua região sobre os do todo nacional, pois, foi com um programa político com esse conteúdo que se apresentou a eleições. Assim, como poderia um habitante do Algarve sentir-se representado por um deputado que fosse eleito por um eventual Partido do Norte? Como poderia um habitante do Norte sentir-se governado por um Governo nomeado após uma vitória de um eventual Partido do Centro nas eleições legislativas? É uma hipótese absurda, claro. Mas o argumento do absurdo por vezes permite perceber estas contradições.
Dito isto, estou convencido que, se esta norma cair e os partidos regionais conseguirem obter algum sucesso em eleições legislativas, o papel da AR no panorama político vai alterar-se significativamente. Deixa de representar todo o país, para se tornar no espaço de concertação entre os povos do Estado Português, tal como vemos o Parlamento Europeu, em que nos sentimos representados apenas pelos deputados portugueses.
Felizmente, parece-me que tais partidos não terão um sucesso que leve a estas consequências, mas há que pensar na coerência do sistema.
Há que pensar se é mesmo isto que nós queremos para o nosso sistema político.
Não é o que eu quero. Compreendendo a falta de voz de algumas regiões na AR, penso contudo que os caminhos correctos são outros. Desde logo, por exemplo, instituir o sistema de voto preferencial, como defende o PSD, para responsabilizar mais os eleitos perante os seus eleitores.
Se isto não for suficiente, a solução típica para se dar voz igual entre várias regiões de um Estado é a criação de uma segunda câmara na AR, onde, ao jeito do federalismo, os deputados eleitos para essa câmara têm precisamente como função representar a região que os elege. Isto teria lugar a par de uma eventual regionalização do país.
Permitir partidos regionais na actual configuração da AR é que não me parece correcto. Não posso deixar de pensar que será a legitimação de negociatas como a do queijo limiano.
"Assim, como poderia um habitante do Algarve sentir-se representado por um deputado que fosse eleito por um eventual Partido do Norte?"
ResponderEliminarProvavelmente tanto quanto tu te sentes representado pelo Ricardo Rodrigues do PS, o Luís Fazenda do BE ou o Bernardino Soares do PCP.
Ideologias, regiões... no fim do dia andam todos à paulada na mesma ;p
Não me sinto minimamente representado pelo Ricardo Rodrigues porque acho que esse senhor não é digno de me representar.
ResponderEliminarQuanto aos outros, obviamente não partilho das suas opiniões, mas estou convencido de que estão tão empenhados no interesse de todo o país como alguns daqueles em quem votei. Não me representam, se achares que a representação implica irem para lá defender as minhas opiniões. Mas representam todos os portugueses, naquele sentido de representação do "povo".
Uma AR constituída por partidos regionais é uma câmara de representação dos "povos", como o Parlamento Europeu o é.
Essa ideia da representação unitária do "Povo" é puramente demagógica. Isso não existe. A Democracia faz-se do confronto de interesses num ambiente propício aos compromissos e à formação de maiorias, que o Estado de Direito trata de moderar consagrando direitos fundamentais a indivíduos e minorias.
ResponderEliminarOu achas que os banqueiros, ricos e capitalistas têm alguma obrigação de se sentirem "representados" por comunas que manifestamente sonham com o dia em que os fecharão a todos no Campo Pequeno para uma banhoca de sangue?
Claro que não têm obrigação nenhuma de se sentirem representados por eles.
ResponderEliminarMas os deputados comunistas representam aquilo que eles consideram ser os interesses do país.
Sou de opinião contrária; não entendo que seja assim um problema tão grande com isso....
ResponderEliminarÉ uma questão que na prática fará todo o sentido se se caminhar no sentido da Regionalização e, nesse caso, não haverá nenhuma razão em especial que legitime a proibição de partidos regionais que visem concorrer a eleições locais ou regionais. Pelo contrário, se a legalização de partidos regionais for apenas uma forma de dar voz a sensibilidades específicas de cada região, sem se proceder à devida Regionalização, será apenas uma forma hábil de a impedir, criando a sensação fantasiosa de uma democracia mais próxima dos cidadãos(dos não residentes na capital do império). Ou seja, a menos que se queira de facto implementar a Regionalização em Portugal, essa questão não tem a mínima importância em qualquer fórum de discussão.
O que tu escreveste não é mais do que uma forma rotunda e circular de tentar arranjar impedimentos argumentativos que justifiquem o status quo. Ou seja, gostavas de ver partidos regionais, mas não os queres na AR; gostavas de ver mais representatividade, mas receias a regionalização dos centros de decisão. Ou seja, é como se alguém quisesse ir para o Céu, mas não quisesse morrer..
ResponderEliminarNão é fácil de ver, independentemente da nossa opinião relativamente à regionalização, que isto assim desta forma não funciona?! Não parece óbvio? Criar partidos regionais não é um fetiche ou uma ideia de duche que um gajo qualquer teve. Não é uma moda, como o casamento gay. É uma necessidade fundamental de representar quem não está representado ano após ano após ano. E é importantíssimo que eles sejam duplamente amparados: quer em órgãos regionais, quer no órgão nacional. Se os relegares apenas para as suas "freguesias", vai continuar o roubo e a capitlidade que tem caracterizado as últimas décadas, com todos os custos e injustiças a isso associados.
Para além de haver diferenças suficientes que justificam, pelo menos, órgãos deliberativos regionais, existem também necessidades de elevação dessa voz ao nível nacional, caso contrário essa falta de peso, acrescida da distância ao centro político nacional, degenerará numa situação semelhante à actual: dependência, submissão, inferioridade. Que, a prazo, se torna auto-inflingido e auto-alimentado.
Aliás, para quem se afirma de "tendência liberalizante", devias saber que o ónus da justificação deve estar naqueles que querem impedir partidos regionais, não naqueles que os querem desenvolver ou apenas permitir. A liberdade de criação de partidos deve ser a norma, não a excepção. Queres modelar a estrutura dos partidos ao sabor dos existentes? Que distingue o âmbito regional de um partido do seu âmbito de orientação económica, p.e.?
Na verdade, isso que escreveste já se insere na conversinha do "mete-nojo" da unidade nacional que tanto prolifera por alguns lados por onde passo. Fala-se também na ameaça separatista - oh!, coisa infame, essa de pessoas se juntarem para serem autónomas ou independentes; agora também questionas o princípio da autodeterminação dos povos? Se há povos que se sentem capazes de enveredar por uma autonomia, que legitimidade tem alguém para reaccionar contra isso, ainda por cima em nome de uma coisa áurea e nebulosa como a "unidade nacional"?
Permitir partidos regionais é mais do que um passo importante no sentido da regionalização, da coesão, da justiça geográfica e da política de proximidade, local e regional. E talvez seja aqui que eu discorde do João. Só pode haver regionalização se primeiro (ou simultaneamente) se permitir partidos regionais. A existência legal dos partidos tem de ser prévia ao processo de regionalização para lhe conferir estrutura e ordenamento. Não se pode é usar o argumento da "não-representatividade nacional" para não querer deixar criar partidos regionais que representem os cidadãos na AR. Já mete dó tanto paternalismo nacionalista.
Ah, é verdade, feliz aniversário!
Ora bem, convém dizer algo que admito não ter ficado claro no meu post. Parece que fui mal interpretado na minha senda contra um unanimismo por mim indesejado.
ResponderEliminarNão sou fundamentalmente contra uma revisão constitucional neste sentido. Sou é contra a forma simplista como vi a questão ser colocada. Foi colocada somente na perspectiva da limitação da liberdade, que eu reconheço existir, e o argumento histórico utilizado para explicar a ratio legis parece-me claramente insuficiente.
Portanto, eu venho apelar a que se pense melhor, e se pense nas consequências.
E é precisamente no campo das consequências que abordo a possibilidade de partidos regionais na AR. Admito que uma tal proibição não tenha dignidade constitucional e que desapareça na próxima revisão constitucional.
Mas não acho que seja coerente, nos actuais moldes da AR, a existência destes partidos lá dentro. E aponto um caminho ainda mais regionalista: regionalização com criação de segunda câmara no parlamento.
Portanto, não venham acusar-me de paternalismo nacionalista.
Obrigado pelos parabéns!
Não, eu percebi à primeira o que escreveste. Aliás, até li duas vezes para não me enganar a mandar o bitaite.
ResponderEliminarAcho que tens muito mérito em levantar objecções e pensar nas consequências de uma decisão leviana. E não vou discutir detalhes em matérias cujo âmbito percebes bem mais do que eu. Mas de uma coisa não te conseguiste escapar no meio desta teoria toda que expuseste: tu és céptico em todo este processo regionalista. Tens dúvidas, receias todo o processo pois achas que de alguma forma pode correr mal. Parece-me normal que o sintas, mas questiono-te se (1) assembleias regionais chegam ou se (2) uma segunda câmara no parlamento resolve o assunto.
Sejamos frontais: uma segunda câmara no parlamento serve apenas para lavar as mãos, para ficar de consciência tranquila ao transmitir publicamente uma ideia falsa de regionalização. Não resolve nada; sozinho é puramente insuficiente. Na prática, até pode elevar as vozes regionais, mas acabariam sempre manietadas pelos deputados nacionais. Além do mais, que dimensão temos nós para duas câmaras numa mesma AR? Isso não é ser regionalista, isso é dar um rebuçado aos regionalistas, é calar a multidão com manipulações jurídicas. Cria a sensação de dever feito, mas na prática nada faz.
Deixem-se os partidos terem o âmbito que quiserem. Regionais, xenófobos, separatistas, etc. Deixem-se esses mesmos partidos ter um lugar na AR se o ganharem com votos. Deixe-se a expressão popular revelar-se sem qualquer medo. É isso que caracteriza a democracia e é aí que se vê quem é paternalista e quem não é. Se algum partido regional ganhar meritoriamente um assento no parlamento nacional e aí fizer ouvir a voz do seu eleitorado (que é uma região, como bem podia ser uma ideologia ou um credo religioso), então estamos na presença de verdadeira justiça democrática. Tudo o resto é paternalismo nacionalista.
Checka este movimento, se quiseres:
ResponderEliminarhttp://pelonorte.blogspot.com/
O que acaba por acontecer a este tipo de proibições constitucionais históricamente localizadas é que acabam por não produzir efeitos.
ResponderEliminarDa mesma forma que são proibidos os partidos de indole fascita e temos aí o Partido Nacional Renovador, apesar da proibição dos partidos regionalistas temos também o partido democrático do atlântico.
Eu partilho das mesma preocupações que tu relativamente á unidade nacional e ás tendências separatistas. Mas a avaliar pelos resultados do PDA acho que não temos grandes motivos para preocupações...
Olha outro negacionista...
ResponderEliminarÉ por coisas destas que me vai dar um prazer acrescido esfregar na cara de certas pessoas o resultado dos movimentos regionalistas e autonomistas daqui a 20 anos.