sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Desmistificar o Bloco


Como se sabe o Bloco de Esquerda nasce da fusão de três partidos da esquerda radical portuguesa, a União Democrática Portuguesa, o Partido Socialista Revolucionário e o Política XXI. Três movimentos ou partidos, iguais a tantos outros, que foram surgindo no momento pós revolucionário. Eram sobretudo agremiações de jovens recentemente politizados, que foram lendo as cartilhas dos pensadores revolucionários, diferenciando diversas experiências de socialismos e assumindo a facção dos socialismos com que, porventura, mais se identificavam. Era uma tendência de época que encontra fundamento na necessidade de oposição ás convicções do regime que fora recentemente extinto. Mas de facto, na maioria dos casos, não passou disso, uma tendência de época, uma moda, que foi esmorecendo com o tempo. Conhecemos entre nós hoje em dia, inúmeras pessoas que passaram por estes partidos, mas assumem hoje em dia uma posição mais moderada e atrevo-me a dizer em alguns casos, uma tendência mais amadurecida, que os próprios reconhecem. Durão Barroso, Pacheco Pereira, Maria José Morgado, Jorge Sampaio, Pina Moura e assim como muitos outros cidadãos anónimos, são alguns dos nomes que integraram muitos destes partidos radicais da esquerda no imediato após 25 de Abril, e que com o passar do tempo, foram amadurecendo e moderando as suas posições. Por isso mesmo muitos desses partidos se extinguiram, outros fundiram-se e outros ainda foram permanecendo com uma importância residual.

No caso do Bloco, tratou-se de uma fusão destes retalhos aos quais se foram acrescentando faseadamente alguns outros.

È o caso dos comunistas descontentes com a rigidez de forma e conteúdo que persistia no PCP. A organização interna obscura bem presente no órgão comité central, as incongruências entre o voto não secreto no seio dos órgãos do partido com os valores da democracia e a tendência de cristalização de ideias, fez afastar a juventude. Tudo isto significou para o Bloco uma conquista nas fronteiras do PCP.

O Bloco foi também crescendo, graças a um marketing bem esculpido, uma imagem moderna, uma linguagem simples, o soundbyte dos temas fracturantes que construíam uma imagem de tolerância sem limites. Mais do que um partido, o bloco era agora um produto do Marketing vendido como o partido Light que lhe valeu conquistas no eleitorado volátil mas sobretudo no eleitorado jovem. A imagem vanguardista e tolerante era atraente o suficiente para também as pessoas do mundo da arte e espectáculo se quererem colar a ela.

Era também o partido com uma função facilitada na oposição. Era apenas partido de contra-poder, á partida, não alcançaria o governo e por isso mesmo podia usar e abusar da demagogia e do discurso fácil e colher frutos do voto de descontentamento.

A sua pose moralista personificada em Francisco Louça, o seu discurso provocador sem qualquer pudor, a imagem imaculada de quem nunca pisou o poder, constituem mais alguns dos ingredientes de atracção.
A sua ultima grande oportunidade foi a cisão da ala esquerda do PS que deixou de se rever nas políticas do governo Sócrates e migrou, um pouco pela mão de Alegre, acabando por encontrar no bloco a sua nova casa política.

Desta história e deste percurso resulta o partido de hoje ao qual as sondagens atribuem a posição de terceiro maior partido português.
Quanto a mim o Bloco nunca deixou de ser um partido da esquerda radical com propostas mirabolantes mas é sem duvida um partido com um marketing bem construído e um líder hábil e instruído.
Mas não chega, porque não passa disto. Continua a ser programaticamente uma convergência de trotskismo, marxismo e maoísmo, uma “salada russa” de extremismo esquerdista absolutamente ultrapassado. Uma esquerda irresponsável, confusa e duvidosa. Espero sinceramente que o eleitorado português não se perca em insensatez e sobretudo que a juventude não se deixe enganar pelas bandeiras de facilitismo.

6 comentários:

  1. Não fiquei de todo convencido.

    E contesto, em especial, a ideia de "esquerda radical". Não sei o que leva a opinião pública a traçar os limites, mas se o Bloco e a CDU são radicais, pergunto-me o que seriam estes partidos (ou as suas facções) no pós-25 de Abril. Essa ideia enferma de uma lógica de delimitação do radicalismo que não corresponde à total verdade.

    Quando eu vejo uma coligação como a CDU (principalmente pela mão do PCP) a colocar como prioridades a valorização salarial, a reforma laboral e a aposta no mercado interno, então eu sei que é aí que talvez o meu voto seja mais necessário. E não entendo como podem estas propostas ser consideradas radicais, ultrapassadas e irresponsáveis quando, na realidade, são a resolução mais próxima dos reais problemas do país. Valorizar o trabalho como o factor principal da riqueza criada é mirabolante? Combater fortemente a pobreza e a desigualdade é confuso? Achar que é necessário exigir mais contribuição das empresas e empresários com mais dinheiro é aquilo a que classificas de duvidoso?

    Podes-lhe chamar marketing, podes-lhe chamar o que quiseres. Mas um partido com este crescimento e esta pujança recente não emerge só porque sim ou porque o líder tem carisma. Cresce e reforça-se porque percebe as pulsões dos eleitores e sabe responder-lhes da melhor forma.

    Às vezes custa assumir certas coisas, mas o primeiro passo, neste caso, é perceber que o neoliberalismo se começa a desmoronar e que uma nova ordem mundial começa a emergir. A esquerda de que falas não é ultrapassada, é emergente. Daqui a 10 anos falaremos de novo.

    ResponderEliminar
  2. Ora então, no pós 25 de Abril eram AINDA mais radicais, como é natural em períodos revolucionários :)

    Sobre as prioridades do programa do PCP:

    - ruptura com o domínio do capital monopolista;
    - ruptura com o processo de integração capitalista europeia;
    - defesa do papel determinante do Estado nos sectores estratégicos, designadamente energia, telecomunicações e transportes e nacionalização da banca e seguros;
    - subordinação do poder económico ao poder político;
    - Política Orçamental liberta das restrições do Pacto de Estabilidade;
    - imposto sobre todas as Transacções na Bolsa de Valores;
    - fim das parcerias público-privadas e reintegração dos Hospitais EPE no Serviço Público Administrativo;
    - "Gratuitidade" de todo o Ensino;
    - Deavinculação da NATO.

    Depois a este caldo é juntar as práticas "democráticas" do PCP, vulgo o modo como concebem a democracia interna (vd Carlos Brito e João Amaral); ver quais os países que apresentam como modelos de sociedade nos seus congressos: Laos, Cuba, China, Vietname e R.D. Coreia; e as "pérloas" que vão aparecendo no Avante, em particular sobre o que acham os comunistas portugueses do Estalinismo e o grande peíodo de conquistas do socialismo nos anos 30 (por acaso precisamente os anos das execuções em massa e construção dos gulags). Sim, lá porque já não vêm prás ruas dizer que vão enfiar toda a gente no Campo Pequeno ou num Campo de Reeducação para uma divertida chacina, não quer dizer que se tenham reformado e tornado uns "anjinhos".

    Sobre partidos com crescimento e pujança que muito percebem de pulsões eleitorais, é conversa que me faz lembrar um belo partido que até aos idos dias de Março de 1933 foi sempre reforçando a sua votação em urna, até atingir os 44%, naquela saudosa República de Weimar, levando um simpático Adolf ao poder. Sim, o radicalismo e o carisma em clima de crise colhem votos. E sim é dever de todos os moderados denunciar as tendências totalitaristas onde quer que estas se encontrem.

    ResponderEliminar
  3. Não falei do Bloco no post anterior porque esse partido socialista, mas burguês, de esquerda intelectual e democrática, mas anti-capitalista, elaborou um programa mediante sugestões pluripartidas, pelo que saiu dali um caldo em que cabe separar o trigo do joio e distinguir várias coisas:

    O que são absurdos de esquerda radical europeia:
    - Pôr termo à cedência da Base das Lajes aos EUA (é que nem com o Obama eles suportam os "imperialistas ianques");
    - Saída de Portugal da NATO;
    - Recusa da deslocalização de empresas com resultados positivos;
    - Nacionalização da Galp e EDP;
    - proibição dos despedimentos a empresas com lucros;
    ...

    O que sendo defensável no plano abstracto, leva à pergunta "QUEM PAGA?" no plano concreto:
    - Rescisão dos contratos PPP na gestão hospitalar;
    - Gratuitidade da frequência do ensino superior;
    - Salário mínimo nacional de 600€;
    - reforma sem penalização de quem já cumpriu 40 anos de descontos;
    - redução do IVA;
    - feitura do TGV, presume-se, sem a intervenção dos "capitalistas";
    - 1% do Orçamento de Estado para a Cultura;
    ...

    Os puros disparates:
    - cidadania eleitoral para jovens com mais de 16 anos e para estrangeiros a viver há mais de 3 anos em Portugal;
    ...

    O que até me merece concordância ;):
    - complemento social nas pensões mínimas;
    - extensão dos critérios de atribuição do rendimento social de inserção;
    - aumento da pensão social de invalidez;
    - aprovação do estatuto do Doente Crónico;
    - regulamentação de medicinas não convencionais;
    - legalização da morte assistida;
    - legalização das drogas leves;
    - limitação do número de alunos por turma;
    - Bolsa de Arrendamento em casas desocupadas onde houve intervenção pública;
    - tributação dos pagamentos em espécie;
    - reforço dos quadros do MP e da PJ;
    - criação de mais julgados de paz;
    - levantamento do sigilo bancário para combater a evasão fiscal;
    - substituição até 2011 de todas as lâmpadas incandescentes;
    - alargamento dos perímetros urbanos sem circulação automóvel;
    - fim dos PINs;
    - cancelamento das barragens do Sabor e do Tua;
    - fim do uso de animais de circo;
    - fim de touradas à morte ou à vara;
    - fim da produção de ovos por galinhas de bateria;
    - proibição da criação de chinchilas, martas, raposas ou coelhos para extracção de pêlo;
    - aumento do apoio à agricultura biológica;
    - plano de emergência no apoio ao património cultural;
    - revisão do Código da Estrada dando mais direitos a peões e ciclistas;
    - casamento civil e adopção sem discriminação de orientações sexuais;
    - alargamento do direito à inseminação artificial;
    - política humanitária face a imigrantes clandestinos;
    ...

    ResponderEliminar
  4. Olha, do PCP tenho apenas a dizer isto: sigo grande parte das suas ideias programáticas com extrema atenção e concordo com muitas delas. Das que citaste em lista, não há UMA da qual discorde. Se isto chega para demarcar o limite entre o meu pensamento e o teu, não preciso de dizer mais nada.

    Das políticas internas deles, só a eles diz respeito. Se achas que a bajulação de regimes não democráticos é negativa, não podes fazer a associação imediata entre tal e a atitude face ao poder. Eu até levo mais em conta partidos assumidamente comunistas do que partidos com máscara democrática e que, na realidade, são uns opressores tremendos da liberdade.



    Sobre o Bloco, pa.. sinceramente, nem tenho vontade em te responder. Já tou farto de te ver com a palavra "burguês" na boca sempre que falas do Bloco, como se isso fosse um insulto.
    Mas não te preocupes. Em breve, quando tiver mais vontade, responder-te-ei com um post com dedicatória especial.

    ResponderEliminar
  5. Se o Bloco não é um partido esquerda radical em Portugal, do teu ponto de vista, nenhuma esquerda deve ser radical...
    Neste mesmo blog o João Correia já tratou de publicar as propostas mirabolantes do Bloco e de resto, a partir dessas propostas que são copy past do programa do Bloco, assim como dos constantes declarações do Líder Francisco Louça, nomeadamente na apologia da saída da NATO, "desprivatização" do sector energético, a legislação proposta sobre uso de drogas... São uma dúzia de medidas que, estou convencido, tornariam a situação do país irrecuperável. Acho que é o tipo de coisas que dificilmente se discute, o voto no bloco é mero voto de protesto e nunca aposta de governação. O próprio bloco tem consciência disso...

    ResponderEliminar
  6. Oh Zé, vais-me desculpar mas isso serve para os dois lados. Se o voto do BE é protesto e não de governação, então o mesmo se pode dizer do CDS-PP. E, no entanto, nunca me viste a apontar o CDS-PP como direita radical.

    Esquerda radical é o POUS ou o MRPP (este já não é tão radical como já foi, tal como o PCP). Isso é radical. O BE não é radical.

    O que explica o BE ser um partido de protesto que nunca poderia governar em condições normais é a teoria do votante mediano - a distribuição de eleitores segue aquilo a que, estatisticamente, se designa por distribuição normal, mesmo que o seja de forma aproximada. No pós-25 de Abril, a mediana estava à esquerda; agora está mais ao centro (de um ponto de vista comparativamente europeu). Ou seja, o BE é apelidado de radical não pelas suas propostas, mas pelo seu posicionamento no espectro, dada a distribuição de pensamento dos eleitores.

    Radical é romper com todo o modelo social, económico e relacional e construir tudo de novo. Quanto muito, o BE pode ser considerado "menos moderado"; radical não. Pode ter uma ou outra ideia radical lá pelo meio, mas não baseia nisso a sua existência de base.

    ResponderEliminar

Share |