Nos últimos anos assistiu-se a um crescimento inegável da actividade das agências de comunicação. Elas são cada vez mais, maiores e a sua acção é mais visível. É visível folheando um jornal, principalmente os económicos, em que há notícias (ou "notícias") cujo material foi notoriamente preparado por profissionais ao serviço de interessados na notícia. Mas também é visível, de uma forma mais geral, na evolução das estratégias e tácticas de comunicação, de políticos e de empresas.
Pacheco Pereira, apontando certeiramente os efeitos negativos que a actividade destas agências tem, acaba por repudiá-las, criticando a sua existência. Compreende-se tal posição. Afinal, em muitos casos, a gestão da informação feita pelas agências de comunicação entra no campo da manipulação dos factos. Também manipulam pessoas. E criam factos, causados artificialmente com vista à produção de certo efeito na estratégia de comunicação. Nesta perspectiva, as agências de comunicação são os maus da fita.
Mas, se concordo com a esmagadora maioria daquilo que Pacheco Pereira diz acerca de comunicação social, a minha perspectiva aqui não é a mesma que a dele. Desde logo porque encaro o recurso a uma agência de comunicação como um exercício da liberdade de expressão. Ora, o que significa a liberdade de expressão? Que cada um diz o que quer, quando quer, como quer e a quem quer. Há limites, claro, mas esta pode ser tomada como a definição genérica. O recurso a uma agência de comunicação significa que o seu cliente entrega a um grupo de profissionais a gestão do seu exercício da liberdade de expressão. A agência vai aconselhar o que ele deve dizer, quando dizer, como dizer e a quem dizer; e provavelmente vai também a própria agência divulgar o que o cliente diz, da forma que considerar adequada. É inconcebível uma proibição de se procurar aconselhamento acerca do exercício da liberdade de expressão.
Assim, parece-me perfeitamente legítimo que uma empresa recorra a uma agência de comunicação para procurar divulgar as qualidades dos seus produtos, mesmo que essa divulgação não seja assumida como publicidade da marca, como é o que acontece muitas vezes nos jornais económicos. Parece-me legítimo que uma pessoa individual, que por alguma razão é uma personalidade pública, recorra aos serviços de uma agência de comunicação. Parece-me legítimo que as agências de comunicação preparem dossiers que contêm todo o conteúdo de uma notícia de jornal. Parece-me legítimo que as agências de comunicação procurem ter boas relações com o meio jornalístico.
E também na política me parece legítimo o recurso a agências de comunicação. Lembro, no entanto, que na política a especificidade dos temas tratados e a importância do voto esclarecido exigem que os limites da ética na actuação destas agências sejam muito mais apertados.
Onde está então o problema das agências de comunicação? Não está na sua actuação, mas sim na dos jornalistas. Ou, se quisermos ser mais rigorosos, não propriamente na actuação dos jornalístas, mas na de quem manda neles.
O problema é que o jornalismo, o bom jornalismo, é caro e nenhuma empresa dos media que queira obter lucro está disposta a pagar esse preço, salvo raríssimas excepções. Com a venda de cada vez menos jornais, com a divulgação de notícias pela internet gratuitamente e com os jornais impressos gratuitos as receitas descem e os custos também têm de descer. O que acontece? As redacções são muito pequenas para a quantidade de trabalho a realizar, o essencial do trabalho do jornalista faz-se dentro das quatro paredes da redacção e, consequentemente, o jornalista perde o contacto com o real, com o material. O que o jornalista conhece é o que lhe chega ao e-mail, ao telemóvel, à sua secretária. O jornalista já não vai à procura dos factos, fica na redacção à espera que os factos cheguem a si, ou então, no mundo da televisão, cai de pára-quedas num directo só para fazer umas perguntas a A ou a B sobre um facto que lhe foi contado.
O jornalismo de hoje é essencialmente um "diz que disse", não se faz investigação dos factos. E os jornalistas, alimentando esta sua forma de trabalhar, acabam eles próprios por dar mais valor ao que C disse sobre D, e o que E disse sobre o que C disse, em vez de dar valor à descoberta de verdadeiros factos. Não digo que opiniões proferidas por pessoas importantes não são relevantes, mas assiste-se hoje a uma sobrevalorização, que é tipo bola de neve, porque depois há os ecos dos que comentam o comentário.
Por outro lado, como se costuma dizer, o trabalho enbrutece. A sobrecarga de trabalho sobre as redacções leva o jornalista a deixar de lado o seu espírito crítico. Ele é pago para escrever, não para pensar. Não questiona as informações que lhe chegam à secretária, apenas as passa de mão em mão.
Ora, junte-se este estado a que chegaram as redacções dos nossos meios de comunicação ao trabalho profissional e eficaz das agências de comunicação, e o resultado é uma fácil manipulação dos temas discutidos na sociedade, uma facil manipulação da opinião pública.
Resumindo, uma sociedade livre e esclarecida não se deve sentir ameaçada pelas agências de comunicação, mas por outro lado deve saber questionar a informação que lhe é dada e exigir qualidade no trabalho de quem informa.

Sem comentários:
Enviar um comentário