quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Mitos (2)

Alguns não perceberam o alcance completo daquilo que eu quis dizer aquando da minha colagem do programa e intenções do PSD ao dogmatismo ideológico. Por isso, vou colocar aqui um exemplo recente de como a ideologia se sobrepõe facilmente à ciência. Não preciso de ir muito longe; na verdade, vou usar um cavalo de batalha forte da direita: a ideia de que o investimento público previsto vai secar o crédito às empresas (e, mais especificamente, às PME) e que tal provocará um aumento das taxas de juro.

Ora, isso é uma mentira pegada. É preciso notar que, até há bem pouco tempo, grande parte do Mundo Ocidental esteve à beira de entrar numa situação que a Economia apelida de “armadilha de liquidez”. É uma situação que ocorre em crises financeiras profundas e que se caracteriza, entre outras coisas, pela coisa estranha de as pessoas serem indiferentes entre manter liquidez no bolso ou investir em títulos. Os factos não enganavam: a crise foi profunda, as taxas de juro eram baixíssimas e o consumo e o investimento estavam em queda abrupta. Pior do que tudo, os preços ameaçavam entrar em descida incontrolada.

Numa armadilha de liquidez, de nada vale às autoridades monetárias injectar moeda para relançar o consumo, na medida em que este é sucessivamente adiado (por força das expectativas deflaccionárias) e porque é uma situação de forte sensibilidade após um choque tremendo, o que causa repulsa a gastos não-correntes das famílias e a investimentos empresariais. Ou seja, é aquela situação anómala de haver tanta liquidez na economia mas sem que ninguém faça uso dela de modo produtivo. Foi uma situação que caracterizou o Japão nos últimos 17 anos (e ainda não está totalmente resolvida), mas que podemos evitar se tomarmos as medidas correctas.

Há bocado vagueava pelo site do Banco Central Europeu e constatei que tinham lançado hoje mesmo dados novos sobre as taxas de juro e os depósitos e empréstimos bancários (PDF). O que constatei foi o óbvio e o esperado – o que não falta nos bancos hoje é dinheiro:
- a poupança das famílias e das empresas tem vindo a aumentar significativamente desde há um ano, apesar do desemprego;
- as operações de mercado aberto (no caso, injecção massiva de liquidez) do BCE, da Fed e dos BC’s do Reino Unido e da Suíça acrescentaram ainda mais dinheiro ao sistema financeiro;
- o Estado Português, à semelhança de outros, deu um aval bancário que garante a sustentabilidade do sistema em período de crise.

Ou seja, os países ocidentais já andam a lançar projectos de despesa dita megalómana e de recuperação económica à custa do crédito há vários meses e as taxas de juro nem pestanejaram – na realidade, as taxas têm vindo a descer cada vez mais, atingindo níveis mínimos históricos aqui e ali, e a poupança está anomalamente elevada. Há tanta liquidez no sistema que vai ser preciso dois ou três anos para que os investimentos do Estado tenham efeito significativo sobre as taxas de juro.

Resumindo: a injecção monetária nada resolve, pois o que esta faz é apenas provocar maior pressão para a baixa das taxas de juro. E com a inutilidade de desvalorizar moedas (porque a recessão é global e aumentar competitividade neste momento não dá em muito), a única política eficaz nesta situação é (e sempre foi) a política orçamental expansionista. Não significa gastar "só porque sim"; significa apenas que se deve aproveitar a oportunidade para reestruturar a economia e para fazer o investimento público necessário agora que as taxas de juro estão baixas. Chamo a isto "política contra-cíclica com duplo dividendo". E o melhor de tudo é que nem é preciso ser-se keynesiano para perceber isto. É a Economia, estúpido!


(Para informações mais técnicas e detalhadas sobre a armadilha de liquidez, ver estes posts do Krugman e este magnífico do Brad DeLong)

Sem comentários:

Enviar um comentário

Share |