sábado, 19 de setembro de 2009

A Demonização

A acreditar em Sócrates, o PSD é um partido com ideologia xenófoba, retrógrada e que pretende reduzir o Estado aos níveis de inícios do séc. XIX.
Há que denunciar a falta de seriedade e de verdade desta ideia que o PS quer fazer passar.
Em primeiro lugar, diz-se Manuela Ferreira Leite é xenófoba e nacionalista por duas declarações suas: que o TGV ia dar emprego essencialmente a cabo-verdianos e ucranianos; e que Portugal não deve construir o TGV apenas por cedência aos interesses espanhóis.
A primeira declaração, como mandam as boas regras, tem de ser contextualizada. É uma resposta à afirmação de que o TGV viria diminuir o desemprego. Ora, Ferreita Leite respondeu, e bem, que isso não é bem assim, porque cria principalmente o tipo de empregos que hoje são ocupados por cabo-verdianos e ucranianos. Convenhamos que não é novidade nenhuma que a grande maioria dos empregos no sector da construção são ocupados por imigrantes, muitas vezes ilegais. A ditadura do "politicamente correcto" é que nos impede de reconhecer esta realidade publicamente. Mas Ferreira Leite nem criticou este facto, aliás natural num país em que os nacionais procuram empregos com qualificações superiores. O que Manuela Ferreira Leite disse, com base no tal facto já expresso, foi que, assim sendo, o TGV não responde ao problema do desemprego no país. O desemprego no nosso país tem a ver em grande parte com recém-licenciados e operários de fábricas de mão-de-obra intensiva que têm falido pelo país fora. A criação de empregos no sector da construção tem como um dos principais efeitos incentivar a imigração ilegal, e não o de resolver concretamente o nosso problema do desemprego.
A segunda declaração também nada tem de xenófobo ou nacionalista. Então agora não se pode dizer que o TGV interessa mais a Espanha do que a Portugal, e que Portugal não deve subjugar os seus próprios interesses aos interesses espanhóis? Dir-se-á que é discutível a questão sobre se o facto referido é verdadeiro, isto é, sobre se o TGV interessa mais a Espanha do que a Portugal, mas não deixa de ser uma opinião perfeitamente válida e eu também a subscrevo. A rede espanhola de alta velocidade destina-se a fazer de Madrid a cidade central da Península Ibérica, tornando as outras cidades tanto mais periféricas quanto mais dela se afastam. Este planeamento é perfeitamente legítimo de ser feito por parte dos espanhóis, mas não quer dizer que nós devamos sujeitar-nos a ele. Com efeito, o que este planeamento promoverá será a concentração dos centros de decisão e distribuição ibéricos em Madrid, deixando de fazer sentido para muitas empresas a manutenção ou criação desses centros em Lisboa, uma vez que a distância-tempo reduz-se substancialmente entre periferia e Madrid, mas não entre cidades da periferia entre si. Isto é nacionalismo? Ou pensamento estratégico? Não quero dizer que o TGV não tenha outras vantagens que porventura pudessem compensar esta desvantagem, mas mais uma vez o "politicamente correcto" impede que se fale publicamente de todos os pontos de vista admissíveis.
Quanto ao facto de o PSD ter um pensamento retrógrado... Baseiam-se em quê? Na questão do casamento entre homossexuais? Na posição face ao divórcio? Na consideração de que um dos motivos essenciais da existência do casamento é a procriação? Nas posições face ao consumo de drogas? Não posso deixar de dizer que a esquerda tem o grande defeito de achar que o caminho que propõe para a sociedade é o correcto e aquele que, inexoravelmente, vai ser seguido; e que portanto a direita é um impecilho que tem o único desígnio de atrasar a evolução natural das coisas. Se não estás de acordo com as nossas modernas ideias no campo dos costumes, és retrógrada! No que diz respeito aos costumes, a esquerda considera-se numa posição superior, a posição de um visionário que tem de ensinar qualquer coisa àqueles ignorantes imobilistas. É certo que Manuela Ferreira Leite tem posições menos libertárias que a esquerda postuguesa, mas isso agora significa que ela está ultrapassada? Que não tem direito a ter uma posição sobre a matéria? Que está desajustada do seu tempo? Parece-me de uma grande presunção esta arrogância de a qualificar de retrógrada. Acrescento, aliás, que tal qualificação tem origem num preconceito; é um preconceito baseado na idade da pessoa, nas roupas que veste, no penteado, no estilo consensual, não-revolucionário.
Por fim, resta denunciar a gravíssima falta de seriedade que é a de acusarem o PSD de querer reduzir o tamanho do Estado a níveis defendidos pelos radicais do neo-liberalismo. Como o texto já vai longo, deixo esta questão para um próximo post.

9 comentários:

  1. Isto, de facto, já se torna autêntica comédia.

    1) Primeiro, em 2004, o projecto era altamente viável e recomendável - no próprio Conselho de Ministros e no Diário da República, escreveu-se que "era positivo para o crescimento, competitividade e mais não sei o quê"

    2) Saíram, foram para a oposição e nunca mais disseram nada

    3) Quando voltam como candidatos às eleições, revelam-se contra, muito embora a situação de endividamento não seja tão grave quanto eles afirmam e estejamos em período recessivo

    E quando chega a altura dos argumentos, então é bestial: começam por atirar o primeiro (não há dinheiro da UE), mas logo vêm que é falso; como não serviu, usam o argumento de que o país está endividado, mas obviamente não têm razão; de seguida, já falam de que só emprega cabo-verdianos e ucranianos, mas uma lição sobre procura agregada mata logo o argumento; depois já dizem que não são contra o TGV, são sim contra fazê-lo agora (o timing); a seguir a isso, já são definitivamente contra e usam o argumento de que não somos província de Espanha; como nenhum destes tem colado, já arranjaram outro argumento: os centros de decisão vão sair de Lisboa.

    Genial! É a lógica de atirar barro à parede para ver se cola. Como estão em vias de ficar em segundo, não têm nada a perder e argumentam tudo, mesmo que seja absurdo. Só alguém profundamente incoerente diz uma coisa agora que não disse há 4 anos atrás, para além de ser obviamente estúpido preferir não fazer nada do que fazer com medo de realocação de recursos e centros de decisão...

    Tadinhos. Há uns dias, acusavam o Sócrates porque ele se queixava da maledicência e dos ataques pessoais. Agora que, da outra margem, se começa a desmascarar as coisas do PSD, nota-se que, afinal, são uns sensíveis. Coitado, o PSD é todo anjinhos.



    E em relação ao conservadorismo, pensei que isso fosse um orgulho. Se mesmo vocês acham que chamar "retrógrada" é um insulto, então façam uma reflexão interior. É que alguém "retrógrado" é um indivíduo que se opõe ao progresso e/ou que avança no tempo a um ritmo mais lento que a mediana da sociedade. Acho que se aplica, não sei onde está a aflição. Mais uma vez, é a vitimização. Olhem mais para os vossos umbigos: vão ver que são mais iguais aos que acusam do que aquilo que à partida pensam.

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  2. No meu post não me dediquei a elencar os argumentos contra o TGV. Simplesmente respondi aos que dizem que alguns argumentos apresentados pelo PSD são nacionalistas ou xenófobos. Ora, penso que esclareci que são argumentos legítimos, racionais.

    Acresce que tais argumentos não são novidade nenhuma. Vêm sendo ditos por várias pessoas há já uns bons anos. Relativamente à fuga dos centros de decisão, posso afirmar que o ouvi há 4 anos. Apenas nunca um líder partidário os disse por causa da restrição do "politicamente correcto" e por causa da grande susceptibilidade de o discurso ser manipulado da maneira que foi.

    Não é revelador de nenhuma atitude de desespero. Lá porque deles discordas, não quer dizer que sejam um completo absurdo. Mas pronto, se pensas assim, força nisso. Sei que há outros leitores que, apesar de eventualmente discordarem do que digo, farão uma análise bem mais sensata. Ou o TGV também é só vantagens?! Tem vantagens e tem inconvenientes... Ponderá-los faz parte de uma visão estratégica. Acontece que neste momento vejo mais inconvenientes do que vantagens.

    Mas para sintetizar de uma vez por todas a questão, digo a posição do PSD, ou pelo menos digo como a interpreto: O TGV tem inegáveis vantagens, e por isso em 2004 se planeou construí-lo. No entanto, não é o momento certo para o construir, porque (1) virá agravar o problema de endividamento crescente que temos, quer pelos custos de construção, quer depois com os custos de manutenção, porque não será uma linha rentável; (2) não resolve os problemas do país que requerem resolução mais urgente, como desemprego, fraco crescimento, etc; e (3) não devemos construí-lo numa atitude de cedência a Espanha que quer o TGV já, mas sim apenas quando for oportuno para Portugal.

    Sei que com isto não te convenço de nada, dado o preconceito com que abordas os meus argumentos, mas para quem eventualmente não tenha ficado absolutamente esclarecido com o que disse inicialmente, aqui fica o esclarecimento.

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  3. Ah! Esqueci-me de responder a outras coisas que disseste...

    1º Dizes: "Tadinhos. Há uns dias, acusavam o Sócrates porque ele se queixava da maledicência e dos ataques pessoais. Agora que, da outra margem, se começa a desmascarar as coisas do PSD, nota-se que, afinal, são uns sensíveis. Coitado, o PSD é todo anjinhos." Mas eu por acaso vim dizer que andam a fazer ataques pessoais à MFL e que o PSD se sente ofendido no seu âmago?! Sejamos moderados nos comentários, sim? Vim apenas denunciar a falsidade e falta de seriedade dos argumentos. É disto que se faz a discussão política, sabes? Apresentam-se argumentos de parte a parte, e quando algum argumento é considerado falso ou desonesto por uma parte, reage-se. Não há aqui nenhuma ofensa, há apenas uma tentativa de mostrar às pessoas que determinados argumentos não devem ser considerados como verdadeiros e sérios.

    Depois, quanto ao teu último parágrafo. Acho que não há muito dizer. Lá está a visão de que a evolução da sociedade será inevitavelmente feita pelo caminho proposto à esquerda e que, sendo MFL discordante desse caminho, é uma pessoa "que que se opõe ao progresso e/ou que avança no tempo a um ritmo mais lento que a mediana da sociedade".

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  4. Eu sei que não elencaste os argumentos. O que fizeste foi aderir ao novo argumento, ao novo cavalo de batalha que o PSD arranjou contra o TGV.

    Ninguém, no seu perfeito estado de juízo mental, considera que o TGV tem só vantagens. Caso contrário, já tinha sido feito há muito. Isso que dizes não é novidade nenhuma. Mas se, por um lado, já se pesaram tanto os prós e contras, por outro lado já se ouviu dezenas de argumentos desse lado e nenhum tem colado, por uma simples razão: independentemente do argumento que gostem mais, não há nenhuma razão para crer que não fazer o TGV seja melhor do que fazê-lo. E mesmo que a ideia seja fazê-lo mas não agora, já se está a incorrer num custo enorme potencial: a oportunidade de fazer algo de importante, estratégico e estruturante num momento frágil como este actual. O PSD tem divergido as atenções. Ao dizer que não se deve fazer agora, está a adiar algo que terá custos maiores à medida que o tempo passa.

    E ainda não percebi qual o teu problema acerca do conservadorismo. Podes procurar nos dicionários a palavra "conservador" ou "retrógrado" que vais sempre encontrar a ideia de que é aquele indivíduo da sociedade que não acompanha o ritmo de progresso da franja mais progressista. Não estou a dizer que a esquerda é o caminho e tem a verdade da razão; digo apenas que o conservador anda mais devagar, opõe-se a esse ritmo, mesmo que queira outro caminho, outro rumo que não esse. Tem a marca do reaccionarismo. Estou a dizer algo de inovador? É como eu te disse: se isso te incomoda assim tanto, então talvez seja melhor uma reflexão.

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  5. Para começar, vai uma grande distância entre "conservador" e "retrógrado". As cargas emocionais das duas palavras distinguem-se. Além de que, na minha perspectiva, conservador é aquele que quer manter as coisas como estão, e retrógrado é o que quer fazer regredir a evolução que se processou desde determinado momento até agora.

    A reflexão, já a fiz. Não tenho essa visão da sociedade segundo a qual o caminho a seguir é o indicado por aqueles que se dizem mais progressistas. Não me ofende a palavra "conservador", posso até utilizá-la para efeitos práticos, mas em rigor, bem pensadas as coisas, não faz sentido. A não ser para quem diga "sou conservador". Nesse caso, sim, essa pessoa está a assumir que, face ao rumo que, na sua perspectiva, a sociedade toma e vai tomar, está contra e quer parar ou atrasar esse processo.

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  6. Passou-me outro comentário...

    Dizes: "por outro lado já se ouviu dezenas de argumentos desse lado e nenhum tem colado".
    Respondo: Não tem colado, para ti... Na minha opinião, são argumentos que, não decidindo definitivamente a questão contra o TGV, no entanto fazem com que a sua importância e urgência não sejam assim tão grandes como alguns querem fazer crer. Resumindo, fazem com que, hoje, eu não encare o TGV como uma prioridade.

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  7. Agora sou eu quem vai elencar.

    Não é retrógrado alguém que acha que o casamento deva estar apenas consignado aos caisas heteressexuais apenas por defesa de uma instituição que, por sinal, é bastante mutável? Não é retrógrado alguém que considera que a família está apenas orientada para a procriação? Alguém que acha que as mulheres se devem "ajustar" à situação de estarem grávidas em vez de abortarem? Alguém que acha que os aumentos de salário mínimo que o PS trouxe nos últimos anos "roçam o limite da irresponsabilidade"? Alguém que achava, em 2006, que o Complemento Solidário para Idosos era uma medida inexequível e que nada ajudaria em termos sociais? Alguém que acha que a descentralização não passa pela afirmação das regiões e da sua capacidade administrativa? Alguém que acha que não pode ser a comunicação social a seleccionar o que transmite? Alguém que tem obsessão tremenda pelo défice?

    Por amor de Deus! Este é o tipo de coisas que os conservadores defendiam há décadas atrás. Se têm outro rumo e querem renunciar ao rumo da esquerda que dizem ser progressista, ao menos construam e mostrem esse rumo; não se limitem a imobilizar-se no tempo, à espera que tudo se manterá igual para sempre. Se isto não é próprio de alguém retrógrado, então não estamos a falar da mesma coisa.

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  8. Ora bem, levantas muitos temas. Sem intenção de os aprofundar até à exaustão, aqui ficam algumas considerações.

    O casamento não é uma instituição bastante mutável. Pelo contrário, quer-se estável. E a posição contra o casamento homossexual não se baseia num simples fundamento formal de conservação de uma instituição. Há razões materiais para se opor ao casamento homossexual. Que tu discordas desses fundamentos, já nós sabemos.

    MFL nunca disse que a família está APENAS orientada para a procriação.

    Também discordo que o aborto se justifique com a simples afirmação de que a mulher é livre. Se defendo a despenalização do aborto, é a pensar na futura criança, que pode não ter condições de nascer e crescer nas condições desejáveis. Sou retrógrado por rejeitar o argumento de que uma mulher pode abortar só porque é livre de fazer o que quer com o seu corpo?

    Conheces perfeitamente os fundamentos da afirmação de que, na situação em que estávamos, era irresponsável subir o salário mínimo. Não é uma questão de retrocesso ou progressismo; tem a ver com a análise que se faz da situação. Ou achas que, quaisquer que sejam as circuntâncias, é retrógrado defender-se, numa ou outra altura, a manutenção dos níveis de salário mínimo?

    Quanto ao complemento solidário para idosos, não vejo o que é que isso tem a ver com alguém ser retrógrado. E aliás o mesmo se aplica ao resto que dizes...

    Mas ainda quero dizer que isso de MFL ter dito que a comunicação social não pode escolher o que transmite é uma afirmação completamente descontextualizada. Foi uma reacção, porventura mal expressa, face à comunicação social que hoje temos, que por exemplo num dia de campanha não passa um único fragmento de nenhum discurso formal da líder do PSD e diz que nesse dia a campanha do partido foi dominada pelo caso das escutas, quando a única afirmação face ao caso foi a líder a dizer que não comenta. É a comunicação social que passa apenas as politiquices que alimenta e a seguir, com fraca ironia, critica os políticos por se centrarem em politiquices. Nunca se quis impor uma censura à comunicação social, mas é um facto que não deve agir assim.

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