terça-feira, 29 de setembro de 2009

É a armadilha de liquidez, estúpido!


Ainda acham que não? See for yourself.

Onde andam agora os paranóicos que previam o crowding-out e a seca de crédito às empresas, e que não concordaram com o que eu havia dito mais do que uma vez há algum tempo? E ainda dizem que não é dogma!

Nem de propósito, vale a pena ler o post do Krugman de hoje. Pode ser pedagogicamente importante, se se derem ao trabalho. É rápido e intuitivo.

13 comentários:

  1. Como sempre, tenho de começar por dizer que não sou especialista em economia.

    Mas na minha opinião de não especialista, permite-me que lembre que a situação em que Krugman assenta não é bem igual à portuguesa.
    É que, em Portugal, o défice é estrutural. Não é um efeito da crise nem da resposta à crise.
    O fraco crescimento da nossa economia é estrutural, não meramente resultado desta crise internacional.
    A elevada carga fiscal tornou-se com este Governo estrutural e não convém que seja agravada.
    E o endividamento também é estrutural. Já antes da crise internacional se podia prever um aumento do endividamento a partir de 2010, graças à forma como o Governo se habituou a comprometer o futuro nos contratos para realização de obras públicas.

    O raciocínio de Krugman aplica-se, parece-me, a economias que estavam bem antes da crise internacional, sofreram um forte abalo com a dita crise (maior que nós sofremos), o Estado teve de abrir os cordões à bolsa para responder à crise e em que se prevê que, quando a crise passar, essas economias vão voltar a crescer como antes. Nestas condições, tudo o que ele diz faz muito sentido.

    Mas, se nada de estrutural for feito em Portugal, a economia não vai crescer como deveria depois desta crise internacional e, assim, o endividamento não terá um custo tão baixo como aquele que Krugman prevê.
    Não digo que estas alterações estruturais, normalmente penosas, têm de ser feitas já em tempo de crise acentuada, mas há que começar já a pensar nisso para quando a retoma se iniciar.

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  2. Luís, com este post eu quis provar duas coisas.

    Em primeiro lugar, a armadilha de liquidez evidente e a falácia do crowding-out (=Estado seca crédito às empresas).

    Em segundo lugar, a inevitabilidade do aumento da despesa pública. Não defendo despesa só porque me apetece ou porque preciso de um pretexto para justificar o meu apoio a programas de obras públicas. Eu apoio mais despesa pública porque não o defender agora é um disparate.

    Outra questão é a comparação de Portugal com o Estados Unidos. E aqui convém ter em noção que as semelhanças são mais do que as diferenças.

    Dizes que o nosso défice é estrutural; e o dos EUA não é? Convido-te a ires ao site governamental deles e a veres os dados dos últimos 15 anos. Vê se encontras algum saldo superavitário depois de Clinton.

    Endividamento? Podes dar graças por estar num país que, em termos comparativos, até apresenta um rácio de endividamento externo razoável. O endividamento externo americano é bastante próximo ao do Português e tem-se revelado crónico (estrutural) devido à China nos últimos 10/20 anos.

    E em relação ao crescimento, uma coisa te posso garantir: se se agir, o crescimento até pode voltar a ser baixo, mas se não se agir, o crescimento é certamente negativo e durará precisamente mais tempo a recuperar. Para além de que parte do investimento público é imeditamente recuperado pelas receitas públicas adicionais.

    Por isso, Luís, o raciocínio de Krugman é extensível a todos os países em crise. Ele tem escrito precisamente isso. É que parar de gastar agora equivale a assumir um novo desastre. Não há retoma até daqui a 2 anos, disso podes ter a certeza. Em qualquer parte do mundo.

    Agora, eu não sei ao certo o que queres dizer com "reformas estruturais". Se isso quer dizer fazer mudanças que são necessárias, não deverá haver incompatibilidade entre fazer isso agora e o gastar mais agora. Se quer dizer voltar ao [tendencial] liberalismo, então nem agora nem depois - simplesmente não é necessário.

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  3. Oh Luís, vamos lá ser razoáveis: não podes usar o desconhecimento dos demais contribuidores do blog em matérias económicas para vir aqui dar como dogma aquilo que não é: o conceito keynesiano de armadilha de liquidez, tão querido ao senhor Krugman, não é nem nunca foi algo cuja existência real reunisse o consenso entre os economistas.

    Basta ver a opinião do Paul sobre a década perdida do Japão, analisar os dados concretos daquela evolução e as políticas seguidas e efeitos que foram produzindo para reconhecer, como o fazem muitos autores, que a ideia em si e as soluções por ela apontadas podem ser sujeitas a fortes dúvidas.

    Vê o seguinte: há uma série de investimentos públicos de monta previstos para os próximos anos em Portugal com o regime socialista. Ou seja, ainda não foram feitos os investimentos, pelo que os seus efeitos na economia ainda não se fizeram sentir. À luz da teoria da armadilha de liquidez, então isso significaria que nesta altura ainda estaríamos a assistir apenas a dados desse tipo que aí indicas: baixam as taxas, mas aumenta a poupança (pk anda tudo a amealhar o guito).

    Mas lol nem todas as estatísticas vão nesse sentido: os dados do Banco de Portugal divulgados em Setembro demonstram que em julho aumentaram os empréstimos às empresas em 23,79% e às famílias em 17,8%. E as mais recentes previsões do BdP evidenciam uma situação económica fraca, mas a recuperar, com uma atecipada melhoria nos volumes de empréstimos nos próximos meses e previsões mais animadoras para 2010.

    Então os banqueiros nesta armadilha de liquidez não deveriam estar agarrados e agrilhoados à porta fechada do cofre lol?

    O que pessoas como o Luís Araújo indagam é a real necessidade de investimento público na ordem dos 3, 4, 7, 8 mil MILHÕES de euros em TGVs e aeroportos neste contexto, usando para tal a desculpa da crise (há outros argumentos que podemos discutir mas neste caso é dessa desculpa que falamos). Pessoalmente acho que são projectos em si contraditórios e que devem ser reanalizados. Até porque há outros investimentos que devem ser prioritarizados atendendo às reais debilidades competitivas da economia portuguesa: renovação do parque escolar e hospitalar, energias, água e ambiente, infra-estrutura tecnológica, recuperação do património cultural, transporte ferroviário de mercadorias, reabilitação urbana, transportes públicos urbanos e suburbanos etc.

    Aproveito para te sugerir que releias o que o Krugman tem dito sobre défice e dívida pública nos EUA: ele não nega a sua importância. simplesmente diz que os seus valores não são ainda preocupantes quando medidos em percentagem do PIB americano e atendendo às previsões que ele faz dos valores do crescimento no pós crise. Peço-te que compares o valor dívida/PIB com o português e que honestamente me digas se achas que Portugal no pós crise vai MESMO ter taxas de crescimento daquelas graças a tgv & companhia antes de defender para nós as soluções que o Krugman aponta lá...

    Finalmente e agora por pura curiosidade: como analisas a decisão do Riksbank de instituir taxas de juro de valor negativo e as implicações que isso tem na premissa da teoria keynesiana de que o decréscimo pára no zero? Para não falar nos efeitos que isso tem em toda a utilidade (e nesse caso a falta dela) da poupança :)

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  4. Manel,

    Na armadilha de liquidez, não é suposto os bancos estarem agarrados e agrilhoados à porta fechada do cofre. Pelo contrário, arrisco. Numa situação dessas, há dinheiro a abarrotar nos seus saldos. E um banco só faz lucro (só funciona, só justifica a sua existência no quadro do capitalismo) se emprestar os fundos que em si estão depositados e os aplicar em investimentos cuja taxa de rentabilidade seja superior à taxa de remuneração desses depósitos. Ou seja, com tanta liquidez, é desejável, recomendável e preferível para os bancos emprestarem o máximo possível, de preferência de forma indexada à Euribor, e fazer algum lucro num quadro recessivo. Os bancos só estão agarrados ao cofre quando a liquidez é escassa, em momentos de prosperidade em que eles pensam duas vezes antes de emprestar, pois têm a possibilidade de emprestar fundos uns aos outros a taxas mais altas do que o normal.

    Quanto à questão dos investimentos públicos, reitero a minha posição: acho que é imprescindível gastar agora; se se vai gastar em TGV's e em aeroportos em vez de o fazer noutro tipo de destinos é outra questão que pode e deve ser discutida. Ninguém duvida que se tem de gastar; a questão é onde. O que eu adiciono à discussão é o seguinte: dada a dimensão da crise, gastar na reestruturação da economia pode nem ser suficiente, de modo que seja também necessário investir em obras públicas para recuperar a actividade real.

    Em relação à curiosidade, confesso que li à pressa essa ideia do Riksbank; mas, de forma muito rápida e sem analisá-la muito, discordo da opção. É arriscado e imprevisível, para além de subverter totalmente a lógica do mercado de capitais e de não ser necessário injectar ainda mais moeda no mercado. Se é para propósitos de relançamento, prefiria o oposto: criar expectativas inflaccionárias nos agentes económicos com vista a relançar a actividade. É algo parecido com ilusão, engano, fantasia. Induzir expectativas extrapoladas artificialmente. Os Bancos Centrais não gostam muito desta opção (compreende-se), mas, apesar de também ser de carácter inovador, parece-me ser bem mais adequada e segura do que instituir taxas de juro negativas.

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  5. Au contraire mon ami :) a concepção à la Keynes do conceito de armadilha de liquidez assenta também neste pressuposto: que mesmo com mais liquidez, os bancos dada a situação de crise, receando perdas de capital e que os devedores se vejam depois impossibilitados de pagar, vão recusar empréstimos a não ser aos clientes mais fiáveis. De tal maneira é que a partir daqui o Milton Friedman ergueu a sua teoria do "helicopter money": os Bancos Centrais deviam passar por cima dos Bancos (já que eles iriam fechar o dinheiro às sete chaves) e entregá-lo directamente às empresas como forma de repor a marcha da circulação de dinheiro na economia.

    Para um keynesiano, numa situação de armadilha de liquidez, injectar mais dinheiro na economia de nada serve e então lá vem a necessidade de "choques fiscais" e grandes projectos de infra-estrutura promovidos pelo Estado. Mas os dados recentes da economia mundial demonstram que em muitos lados se está a ultrapassar (devagar atenção) a crise sem recorrer a esses métodos tão perniciosos para as contas públicas.

    Quanto à política de investimentos, acho que deve assentar em juízos de utilidade casuística de cada projecto para a competitividade da economia e afastar-se de justificações do tipo "é pra combater a criseeeee" sob pena de andarmos feitos Krugman a dizer "TRILIÕES?!? OH OBAMA NÃO BASTA!!! GASTEM MAIS! MAIS! MAIS!" de uma forma que no mínimo se dirá pouco ponderada.

    Quanto à experiência nórdica, acho que será interessante ver o que sai dali. Sem dúvida as conclusões que se tirarão na altura de avaliar o mecanismo terão grandes implicações da manutenção ou alteração dos actuais paradigmas económicos.

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  6. Manuel, não entendo onde queres chegar. Na armadilha de liquidez, os bancos têm muita liquidez. Nesta situação, o desejável não coincide com o observável. Observa-se que, sem acção intervencionista, não há recurso ao crédito; mas o desejável para a banca é precisamente alavancar a liquidez que têm. É por isso que se defende a acção governativa. Para estimular a aproximação entre o desejável e o observável.

    Na verdade, estamos a falar do mesmo. Só com a acção governativa do tipo fiscal ou orçamental se consegue ultrapassar a letargia monetária. Sem essa acção, os bancos ficam agarrados ao cofre, obviamente.

    Quanto ao que dizes que alguns países já estão a ultrapassar a crise, mesmo que devagar, eu respondo-te com a minha intuição: nenhum país vai recuperar antes do próximo ano. E sim, tem havido acção governamental. Então não tens visto os planos de recuperação económica? São muitos e elevados por todo o lado (excepto na Alemanha). Não parece muito porque se decidiu repartir a acção de expansão fiscal entre este ano e o próximo (devido ao receio de recaída). Mas é falso que se pense que a tímida recuperação dos últimos meses não passou pela acção governativa.

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  7. O que quero dizer é simples: se isto fosse uma liquidity trap, os bancos não estariam a emprestar mais, APESAR de todas as medidas já tomadas no sentido de lhes introduzir mais liquidez. O que justificaria, numa visão keynesiana, as tais políticas de grandes investimentos.

    Mas os dados que referi demonstram que tal não corresponde à realidade: os bancos receberam a liquidez E! estão agora, ainda que lentamente, a recuperar os níveis normais de empréstimos.

    Então daqui resulta que: (1)a realidade não corresponde ao modelo-tipo de armadilha de liquidez; (2) se o diagnóstico não está correcto então como podes com base nele justificar a "cura" (grandes investimentos)?

    Dizes que tem sido importante a acção governativa. Vamos supor que é verdade: Ainda assim a acção que tem produzido efeitos é a que tem introduzido liquidez e confiança (não deixar falir as empresas chave no pós Lehman Bros) nos Mercados. A recuperação acontece MESMO sem que tenha ainda havido obra pública (ainda está tudo nas fases de concurso etc). Ou justificas o relativamente bom resultado português nesta conjuntura com o TGV que ainda nem saiu do papel lol?

    A realidade é esta: o Mundo está a recuperar mesmo ainda antes da fase dos Elefantes Brancos, sorvedores de fundos. Então como se pode usar a crise para justificá-los? Porventura um doente pode dizer que foi salvo por um medicamento antes de o tomar lol?

    Sobre a Alemanha, cuidado na apreciação que fazes do país. É uma economia excessivamente dependente de exportações, uma mau modelo para se ter quando as economias importadoras se preparam para alimentar a poupança. Basta ver que o Bundesbank não prevê a recuperação do país até 2013. O Krugman, e aqui reconheço-lhe razão, tem alertado para os riscos do cocktail explosivo que é a economia alemã, se não tomar passos decisivos no sentido de incentivar a procura e consumo interno.

    E sim nenhum país vai recuperar antes do próximo ano. É também um problema do tempo que demora a recuperação de QUALQUER crise desta dimensão. Até te digo mais: mesmo quando já toda a gente estiver a dizer que "saímos da crise" o desemprego apresentará altos valores. Mas isso é o NORMAL nestas circunstâncias. Pelo que se torna necessário dar até mais atenção à necessidade de salvaguardar políticas sociais de efeito amortecedor.

    Já há demasiados problemas actualmente para que nos apressemos a gastar o dinheiro desta e das vindouras gerações em projectos de duvidosa necessidade. O dinheiro não cresce em árvores. Temos de ter prioridades. As áreas de investimento que referi são a meu ver as que deveríamos prioritarizar em termos de infra-estrutura. O TGV e o aeroporto carecem de melhor demonstração da sua viabilidade e de comparação custo/benefício relativo.

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  8. Estás a confundir conceitos. E pior, não leste bem aquilo que eu escrevi.

    Recapitulando:

    Ponto 1 - É uma armadilha de liquidez?
    Obviamente que é discutível, mas a resposta mais aproximada é "sim". Porquê? Porque as duas pré-condições se verificam: existe imensa liquidez nos saldos bancários, e, apesar de haver confiança do sistema financeiro (restabeleceu-se parte da anterior), a política monetária convencional já nada pode fazer (uma vez que a zero-bound interest rate é evidente).

    Ponto 2: numa armadilha de liquidez, os bancos emprestam mais ou retraem-se nos empréstimos? Depende.
    Porquê? Numa situação de armadilha de liquidez, e refiro-me ao início da mesma, os bancos não emprestam, de facto. Por duas razões: primeiro, devido à incerteza; segundo, devido à desconfiança. Mas aqui nós tomamos acções eficazes para ultrapassar essas contrariedades: para a primeira, os Governos criaram o compromisso de almofada social e de acção positiva no âmbito da recuperação económica (assumiram-se como activos, não como passivos); para a segunda, foram assegurados avais bancários, estratégias credíveis de política monetária e acordos mundiais coordenados (repito: mundiais) de forma a tornar credível a promessa da recuperação. É por isso que numa situação de armadilha de liquidez, em forma bruta e sem qualquer acção, os bancos não emprestem (de facto); mas a partir do momento em que os Governos se apercebem dessa armadilha de liquidez e agem sobre ela antes que seja tarde de mais, comprometendo-se seriamente em combatê-la, as expectativas formam-se no sentido da recuperação.

    O que me leva ao ponto 3: tem havido acção governativa ou ainda não saiu nada do papel?
    Aqui convém separar as coisas em duas categorias. Até agora, houve trabalho invisível: como referi, os avais bancários, as restrições de movimentos de capitais, o combate às offshores, a promessa de limitação dos salários e bónus dos gestores bem como a reformulação do sistema financeiro mundial, etc... Isto é trabalho e, obviamente, custa. Mas o efeito disto não é o efeito directo na procura agregada. São sobretudo reformas, medidas estruturais que injectam confiança e mais grau de certeza na economia.
    O segundo tipo de acção, essa nitidamente fiscal expansionista, tem sido o investimento público. Eu sei que é difícil de acreditar, mas há um lag entre uma política desse género e o seu efeito. Às vezes, demora meses. É assim mesmo. (foi por isso, aliás, que se defendeu que se deveria agir o mais cedo possível) Há dois lags, na verdade - o inside lag (o tempo decorrido entre a medida e a sua implementação) e o outside lag (o tempo entre a implementação e o seu efeito observável).

    Por isso tem cuidado na forma como concluis da não-implementação de despesa pública adicional. Não só de obras públicas vive o país. Há muito consumo estatal que tem sido majorado nos últimos meses e que tem passado um pouco ao lado, mas caramba!, se fores ver os arquivos de jornal nos recônditos, até te espantas com a quantidade de acção governativa adicional que tem havido.

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  9. Acho que não percebeste bem o meu ponto: claro que houve acção governamental. E como dizes, restabeleceu-se parte da confiança perdida, não só do sistema bancário, como dos empresários e até dos consumidores. O Mundo está hoje mais optimista. E as previsões de retoma são boas.

    Ora quanto à armadilha de liquidez: falaste nos avais bancários etc. Que introduziram liquidez no sistema. E o sistema por isso recuperou. Se fosse armadilha de liquidez isto não teria acontecido. Porque para esse conceito ser aplicável todos os avais e demais medidas que se limitassem a introduzir liquidez nos bancos seriam INÚTEIS. Os bancos teriam mais dinheiro mas mantê-lo-iam guardado. A armadilha de liquidez não pressupõe a inércia dos Estados perante o problema! Ela pressupõe isso sim que ainda que se tomem medidas, se estas forem de cariz monetário, NÃO conseguem resolver o problema. É por isso que lhe dão o nome de "armadilha". E reclamam os keynesianos a partir daí por obra pública. Precisamente com a justificação de as anteriores medidas não funcionarem. Porque se tivessem funcionado (e funcionaram) já não haveria desculpa para com base na armadilha de liquidez exigir avultados gastos em infra-estruturas. Percebes?

    O investimento público, como bem referes demora meses a ser implementado. No caso do TGV e do aeroporto ainda nem começou a sê-lo. Não saiu do papel! Mas MESMO SEM ESSE INVESTIMENTO o país está a caminhar no sentido da retoma.

    Então repito: como justificas a necessidade desses mega investimentos? O país parece ser capaz de passar muito bem sem eles para sair da crise...

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  10. Caramba, afinal és mesmo tu quem não percebe.

    Um aval bancário não é uma injecção de liquidez. É uma garantia (neste caso do Estado) que se compromete a pagar com o seu dinheiro no caso de um ou mais bancos falharem / falirem. É tipo um fiador. Percebes?

    A liquidez injectada foi antes(!) disso. Da parte dos Bancos Centrais, era imperioso que a liquidez fosse reposta, porque de um momento para o outro muitos títulos passaram a valer 10% do que valiam. Houve uma quebra séria no valor dos títulos e ninguém os comprava. Foi isso que despoletou a crise! Independentemente de ser ou não um governo intervencionista, a acção de injectar liquidez no sistema financeiro tinha de acontecer. Isto não é discutível nem ter a ver com política normativa. É científico. É lógico. É automático. Acontece de imediato. Entendes? Porque, se a liquidez não fosse reposta, o sistema descontrolava-se para baixo. Não tem nada a ver com keynesianismo nem com intervencionismo; os próprios monetaristas (da escola de Friedman) advogavam essa necessidade. É como defender ajuda humanitária num país africano afectado por chuvas torrenciais: todos defendem que se ajude. Ninguém ganha com o contrário nem tem sentido lógico.

    A armadilha de liquidez veio depois. E veio depois porque esta crise é uma crise especial. Acho que as pessoas ainda não absorveram o tamanhão desta crise. É mesmo gigante. Se fosse uma crise nacional ou regional e se fosse de menor amplitude, a coisa ia ao sítio e não estávamos aqui com tretas de defesas de políticas orçamentais expansionistas. Mas esta crise não é normal; é tão especial que acabou por se tornar numa armadilha de liquidez. Não me peças para explicar o mecanismo (senão nunca mais sairia daqui), mas fica com a ideia de que foram as características específicas desta crise que levaram à armadilha de liquidez.

    Por favor, não confundas alhos com bugalhos. A injecção de liquidez no momento da crise é prévia à armadilha de liquidez. Obviamente que teve efeito nela, mas aconteceu antes, não depois.

    E quanto ao investimento público, epá.. Tem-se investido em reestruturação de equipamentos e edifícios de escolas (programa antecipado), em formação de desempregados como nunca houve, apoios fortes de subsídios ao empreendedorismo, bolsas para formação, linhas de crédito às PME, .... só é cego quem não quer ver. Caramba!, foram tudo coisas implementadas há quase um ano e começaram a entrar em vigor no início deste ano. Os seus efeitos já se notam. Ou achas que a tímida recuperação foi por obra e graça de Nosso Senhor Jesus Cristo? É que da nossa solidez macroeconómica não foi de certeza...

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  11. Não tentes agarrar em preciosismos e desviar o assunto ;p o aval do Estado não é em si uma injecção de capital, mas como garantia de pagamento de dívida, assegura a possibilidade de os bancos portugueses se financiarem no estrangeiro, resolvendo problemas de falta de liquidez que alguns bancos acusavam na altura.

    Os avais visavam levar os bancos a sentirem-se suficientemente seguros para concederem empréstimos e manterem a capacidade de fianciamento das empresas. Nesse sentido foram sim medidas de apoio à liquidez.

    Acho que ainda não percebeste o que quero atingir com isto: eu não estou a criticar a política de cariz monetarista. Sei que era automática, sei que era necessária. Fez-se e fez-se bem. Os efeitos são os que referi em termos de evolução na concessão de créditos.

    O problema surge DEPOIS. Eu sei muito bem o que é o mecanismo de uma armadilha de liquidez. E tu também o sabes. Poranto não podes fingir não perceber isto: se houvesse armadilha de liquidez, essas medidas monetaristas não teriam sido suficientes, os bancos terem conseguido mais liquidez não chegaria para os levar a conceder crédito! E é a partir desse diagnóstico que os keynesianos defendem políticas de grandes investimentos.

    Numa formulação simples:

    - em condições normais, se os bancos têm mais liquidez, têm tendência para emprestar mais;
    - numa armadilha de liquidez os bancos mesmo com mais liquidez NÃO emprestam, pelo que alguns economistas defendem aí obras públicas como modo alternativo de dinamização da actividade económica;
    - mas o que estamos a ver é bancos com mais liquidez a emprestar mais;
    - Logo NÃO estão preechidos os pressupostos desse mecanismo.

    É TÃO SÓ E APENAS essa opção política que estou a criticar. A necessidade de investimentos defendida com base numa alegada armadilha de liquidez. Cuja existência ainda não conseguiste demonstrar!

    E por favor lê bem o que eu disse até agora. Intervenção no parque escolar é algo cuja utilidade eu não neguei. O resto dos exemplos que referiste NÃO são investimento público em infraestruturas, que é o que estamos a discutir.

    Se queres falar de formação de desempregados, empreendorismo ou linhas de crédito a PMEs também podemos falar. Mas repito: os meus comentários restringem-se a este âmbito:

    - GRANDES OBRAS PÚBLICAS. Vulgo aeroporto e TGV. Chamar aqui as PMEs e o parque escolar, desculpa, mas é tentar atirar areia para os olhos e desviar o assunto.

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  12. Essas medidas não são aqui chamadas? Essas medidas fazem parte do pacote de relançamento. Mas se queres falar estritamente do investimento público infra-estrutural e da razão que me leva a defendê-lo, eu posso resumir a minha posição em poucas linhas:

    O que se fez em matéria de investimento não-infra-estrutural não chega para relançar a economia. É necessário algo mais, algo em maior escala. Pode ser TGV, pode não ser. Obviamente que podes achar que não. Podes dizer-me que, afinal, a economia até está a recuperar antes do investimento em infra-estrutura sair do papel; mas isso não só nega o investimento não-infra-estrutural que tem sido essencial, como sofre de uma perigosa assunção: é que, para mim, a economia não está a recuperar.

    O aumento do crédito existiu porque a confiança aumentou; no caso das empresas, porque foram abertas linhas de crédito; no caso das habitações, porque com tanto crédito malparado e com tanto incumprimento, as casas que os bancos detêm devido a empréstimos falhados estão a ser vendidas ao desbarato. Eu conheço situações dessas próximas de mim. As casas e os apartamentos na posse dos bancos estão uma pechincha e os juros são baixíssimos. É natural que o crédito aumente, ainda por cima com a injecção de confiança. Mas quer num caso quer no outro, isso ainda não se reflectiu na actividade real, e ainda vai demorar meses até se reflectir.

    Por que é que mesmo assim eu defendo mais investimento público? Porque esta recuperação é tímida e não me cheira que continue neste trimestre. Quando saírem os dados relativos ao 3º trimestre, todos se vão admirar com o decréscimo. E todos se vão perguntar porquê. A razão é simples. É que os valores positivos até agora são migalhas. Quando se corrigir da sazonalidade, vais ver como essa ideia da recuperação sem necessidade de investimento público é falsa.


    Agora, claro que acho que quanto mais tempo se demorar a investir em obras públicas, pior é. Se só se avançar daqui a um ano, a minha argumentação já não vale a pena. Teria de ser já.

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