Nunca acharam estranho o nosso Estado ter uma dívida pública inferior à média da Zona Euro e abaixo dos restantes países do Sul da Europa e ainda assim ser um dos mais afectados pelos ratings, pelos especuladores e pelo catastrofismo Medina-Carreira? Não haverá, como em tudo na vida, uma razão de ser por esta evidência? Se calhar há. Mas parece que o meu último post caiu em saco roto. Não se percebeu ou não se quis perceber. Quando somos uma esponja de outros blogs e comentadores televisivos, a cegueira é muita.
O Banco de Portugal diz que, em fim de 2009, a dívida externa se acumulava em 380 mil milhões de Euros, sendo que a composição era a seguinte: Governo - 21%; Banco Portugal - 6%; Instituições Financeiras (OIM) - 49%; Outros Sectores - 15%; Investimento Directo - 5%.
Há muita gente que se esquece que a dívida externa não é mais do que a soma da dívida pública com a dívida privada. E se a dívida pública é relativamente alta (cerca de 120 mil milhões de Euros), algo mais tem de existir para justificar os restantes 260 mil milhões. Se há motivo para que estejamos a ser tão pressionados e criticados pela nossa competência orçamental, tal não se deve (somente) à incompetência governamental neste domínio, mas também (e principalmente) ao estilo de vida dos nossos conterrâneos. A razão pela qual os investidores estão preocupados com Portugal não é a dívida pública, mas a dívida externa - com o facto de não produzirmos o suficiente para compensar o que compramos. Se a questão se limitasse ao rácio de dívida pública no produto, teríamos 10 países a serem "atacados" no mercado bem antes de nós.
O Luís Araújo é um dos que não percebe isso, não percebe o que eu quis dizer quando afirmei que os estilos de vida acima da média causam problemas como os que temos actualmente. Não percebe que erigir um casarão enorme, comprar um carro caríssimo ou vestir roupa importada são coisas que secam o financiamento e não são reprodutivas, são apenas consumo final e o pior de tudo - são, regra geral, importados. Prefere acusar-me de ser contra aqueles que usam o seu dinheiro da forma como lhes apetece, como se eu alguma vez tivesse feito juízos morais sobre como cada pessoa gasta o seu salário. Aposto que as únicas coisas que o Luís Araújo deva ter em casa dele que sejam de produção nacional são os telhados de vidro.
As coisas têm de ser vistas como dois pratos numa mesma balança. Se queremos participar no comércio mundial, temos de dar algo em troca para comprar "o que nos apetece". Se nós queremos carros alemães, televisões japonesas e frigoríficos americanos (como aqueles que o Luís Araújo tem em casa dele), temos de produzir coisas ou contribuir para a produção de algo para ser exportado. A aquisição de bens ao exterior (há quem lhe chame "importação") não pode ser sistematicamente superior à venda ao exterior (que se chama "exportação"), pois é precisamente isso que contribui para o aumento recorrente da dívida externa. É isso que faz com que haja uma saída de fundos que, a prazo, é uma insustentável bola-de-neve.
Os dois grandes problemas deste país são os Créditos do tipo "Cofidis" e os exibicionistas opulentos que importam luxos porque têm demasiada riqueza e não sabem o que fazer com ela. Curiosamente, ambos são o resultado da enorme desigualdade social. A única coisa que consegue reverter o défice comercial e equilibrar a balança externa deficitária é a poupança elevada dos privados, mas isso é algo que tem sido impedido graças à luxuosidade dos ricos, à política de salários baixos e ao incentivo ao consumo-imediato "que ajuda a economia". Como é que "alguém do povo" consegue poupar alguma coisa quando o seu salário é praticamente todo gasto em bens essenciais e a riqueza do país está demasiado concentrada?
O Banco de Portugal diz que, em fim de 2009, a dívida externa se acumulava em 380 mil milhões de Euros, sendo que a composição era a seguinte: Governo - 21%; Banco Portugal - 6%; Instituições Financeiras (OIM) - 49%; Outros Sectores - 15%; Investimento Directo - 5%.
Há muita gente que se esquece que a dívida externa não é mais do que a soma da dívida pública com a dívida privada. E se a dívida pública é relativamente alta (cerca de 120 mil milhões de Euros), algo mais tem de existir para justificar os restantes 260 mil milhões. Se há motivo para que estejamos a ser tão pressionados e criticados pela nossa competência orçamental, tal não se deve (somente) à incompetência governamental neste domínio, mas também (e principalmente) ao estilo de vida dos nossos conterrâneos. A razão pela qual os investidores estão preocupados com Portugal não é a dívida pública, mas a dívida externa - com o facto de não produzirmos o suficiente para compensar o que compramos. Se a questão se limitasse ao rácio de dívida pública no produto, teríamos 10 países a serem "atacados" no mercado bem antes de nós.
O Luís Araújo é um dos que não percebe isso, não percebe o que eu quis dizer quando afirmei que os estilos de vida acima da média causam problemas como os que temos actualmente. Não percebe que erigir um casarão enorme, comprar um carro caríssimo ou vestir roupa importada são coisas que secam o financiamento e não são reprodutivas, são apenas consumo final e o pior de tudo - são, regra geral, importados. Prefere acusar-me de ser contra aqueles que usam o seu dinheiro da forma como lhes apetece, como se eu alguma vez tivesse feito juízos morais sobre como cada pessoa gasta o seu salário. Aposto que as únicas coisas que o Luís Araújo deva ter em casa dele que sejam de produção nacional são os telhados de vidro.
As coisas têm de ser vistas como dois pratos numa mesma balança. Se queremos participar no comércio mundial, temos de dar algo em troca para comprar "o que nos apetece". Se nós queremos carros alemães, televisões japonesas e frigoríficos americanos (como aqueles que o Luís Araújo tem em casa dele), temos de produzir coisas ou contribuir para a produção de algo para ser exportado. A aquisição de bens ao exterior (há quem lhe chame "importação") não pode ser sistematicamente superior à venda ao exterior (que se chama "exportação"), pois é precisamente isso que contribui para o aumento recorrente da dívida externa. É isso que faz com que haja uma saída de fundos que, a prazo, é uma insustentável bola-de-neve.
Os dois grandes problemas deste país são os Créditos do tipo "Cofidis" e os exibicionistas opulentos que importam luxos porque têm demasiada riqueza e não sabem o que fazer com ela. Curiosamente, ambos são o resultado da enorme desigualdade social. A única coisa que consegue reverter o défice comercial e equilibrar a balança externa deficitária é a poupança elevada dos privados, mas isso é algo que tem sido impedido graças à luxuosidade dos ricos, à política de salários baixos e ao incentivo ao consumo-imediato "que ajuda a economia". Como é que "alguém do povo" consegue poupar alguma coisa quando o seu salário é praticamente todo gasto em bens essenciais e a riqueza do país está demasiado concentrada?
Eh pah, não é coisa que me agrade estar a falar da minha vida pessoal num blogue de acesso público...
ResponderEliminarMas lá vou dizer umas coisas.
Tens toda a razão quando identificas os dois problemas do país. São problemas que se começaram a verificar desde o governo Guterres e considero que o facto de provirem do sector privado não isenta o Estado de controlar esta tendência.
No que não tens razão é em quereres colar-me a esses problemas. Não tens nada a ver com a minha situação patrimonial (e muito menos os restantes leitores deste blogue), mas posso afiançar-te que estás com uma ideia muito errada acerca daquilo que eu tenho em casa, ou na minha garagem. Desde logo, em minha casa não há nenhum carro alemão nem de luxo, só há um carro com menos de 12 anos (os restantes têm mais), há apenas uma televisão japonesa (com quase 8 anos), e não há frigoríficos americanos. Os últimos electrodomésticos comprados são de marca portuguesa.
Convidar-te-ei a ires lá a casa para o confirmares, e verificares que muito mais do que as telhas de vidro é produção nacional.
É pá, foi dito no sentido genérico da coisa. Disse "Luís Araújo" como podia ter dito outro qualquer gajo que só sabe falar da dívida do Estado para resolver os problemas do país, sem olhar antes para os seus gastos. Se tivesse sido um qualquer Joaquim a dizer isso, eu meteria o nome dele. Não foi ataque pessoal, foi ironia. Desculpa lá se me fiz entender mal. Por isso, está descansado, não sei nem quero saber nem me quero imiscuir nos teus gastos e propriedades. Não sou ninguém para esses juízos.
ResponderEliminarEste blog é mesmo muito à frente! Já fiscaliza os sinais exteriores de riqueza dos autores e, inclusive, cataloga os bens como importados ou nacionais. Qualquer dia o tragédia vai mesmo intimar o meu Banco a levantar o sigilo bancário, relativo à minha conta pessoal... :0
ResponderEliminar