quarta-feira, 1 de julho de 2009

O Contra-ataque

Um dos pilares da atitude política do PS de Sócrates assenta no contra-ataque. E esse contra-ataque tem vindo a intensificar-se através de uma argumentação desde já há algum tempo cada vez mais usada por Sócrates na Assembleia da República, nos seus debates quinzenais.
Desde há uns tempos que, sempre que o PSD ou o CDS têm uma crítica a fazer a Sócrates, este lá tem sempre um papelinho para acenar com uma qualquer medida tomada pelo governo PSD/CDS.
Desta forma, Sócrates escusa-se de pronunciar-se sobre o fundo da questão que lhe é submetida e fica pela espuma da polémica política, contexto no qual ele se move muito bem graças à sua reconhecida habilidade para o debate verbal.
Isto como se os debates quinzenais servissem para fiscalizar a actividade da oposição!! É óbvio que a oposição pode ser criticada, mas o debate quinzenal é um momento que se supõe de fiscalização ao Governo. É o Governo que tem de dar explicações, responder às perguntas, esclarecer as dúvidas e defender as suas medidas. Não é para, sempre que é criticado por uma medida, contra-atacar criticando uma medida anterior de outro Governo. Mas Sócrates fá-lo sistematicamente, e cada vez mais!

Ora, hoje, este tipo de contra-ataque teve a sua inauguração em grande fora da Assembleia da República. O PS ficou incomodado com a questão do negócio PT/TVI e então, não tendo obviamente razão no fundo da questão, partiu para o contra-ataque, mantendo a discussão na superfície, no espaço da espuma mediática, no ping-pong de "argumentos" curtos e rápidos (e pouco elaborados) de que a comunicação social tanto gosta.

Veio então dizer que, em 2002, Manuela Ferreira Leite decidiu a venda da rede fixa de telecomunicações à PT por um preço abaixo do valor de mercado. E apresenta este facto com a pompa e circunstância de uma novidade absoluta, um facto relevantíssimo no contexto actual, um facto que retira a Ferreira Leite toda a legitimidade para criticar o negócio PT/TVI.

Cabe apontar aqui dois pontos que revelam a deslealdade desta forma de actuação política, desta política do marketing.

Em primeiro lugar, Ferreira Leite está agora na oposição e não é este negócio que ela autorizou que lhe retira legitimidade para criticar uma actuação muito mais grave como foi a do Governo ao querer permitir que a PT fosse comprar a Media Capital. Esta "novidade" é apresentada pelo novo porta-voz do PS como um autêntico escândalo, quando a única coisa que o negócio "noticiado" tem de discutível é o mérito político da estratégia que esteve por trás de tal negócio, que aliás é bem transparente.

Em segundo lugar, ainda que isto não seja dito expressamente, pretende-se claramente estabelecer um paralelo entre o negócio PT/TVI e o tal de 2002 que Ferreira Leite aprovou. Dizendo algo do género: "criticas isto? Mas em 2002 fizeste igual!!! Ora toma lá, que a tua política de verdade já foi por água abaixo!". Uma breve análise dos factos revela que não há paralelismo nenhum entre os dois negócios, a não ser os factos de envolverem a PT e de haver uma discrepância entre valores de mercado e valores negociados. Facto esses, aliás, que são laterais nas críticas ao negócio PT/TVI.
Tanto quanto se sabe, Ferreira Leite nunca disse que não sabia de tal negócio.
E esse negócio não acarretava nenhuma concentração dos meios de comunicação social sob a influência do Estado. E muito menos envolvia a aquisição indirecta pelo Estado de alguma estação televisiva incómoda para o Governo. Nisto essencialmente residiu a crítica ao negócio PT/TVI. Críticas que não podem ser apontadas ao negócio de 2002.

Com isto se demonstra a falta de seriedade deste jogo político e, consequentemente, com isto ainda mais se justifica um apelo a uma política de verdade e não a uma política comandada pelo marketing, que aprecia as "polémicas" mediáticas em desfavor da discussão séria dos argumentos.

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