Autores do mito: Ministros das Finanças e da Economia ingénuos e tendencialmente populistas
Desmistificação:
Há uns tempos citei aqui um trabalho de Kenneth Rogoff e de Cármen Reinhart, dois especialistas em medição e análise de crises financeiras severas e do seu impacto ao nível da esfera macroeconómica dos países por elas afectados. Nesse relatório, os dois autores partem em busca de uma previsão da dimensão desta crise com base na grandeza e paridade das crises financeiras análogas que se verificaram no passado. Os resultados são intimidatórios.
O que os autores fazem é um apanhado das mais severas crises financeiras da História – Espanha 1977, Noruega 1987, Finlândia 1991, Suécia 1991 e Japão 1992 acrescidas da crise de 1929 e da crise asiática de 1997 – e analisam as suas amplitudes. Três factos estilizados emergem:
1 – Há uma queda profunda do preço dos activos (em especial os imobiliários)
2 – Há uma queda generalizada do preço das acções das empresas cotadas
3 – Verifica-se um aumento abrupto e elevado da dívida pública
Até aqui, nada de revolucionário. Tudo isto é intuitivo. O que vem a seguir preocupa mais, contudo: nesta crise, e até ao final de 2008, o preço dos activos desceu muito mas o preço das acções apresentou uma queda quase inigualável em relação a crises anteriores. No que diz respeito ao desemprego, o caso não parece ser tão grave como a de 1929, mas tal deve-se à almofada social do Estado e ao facto de este estudo ser analisar apenas até ao final de 2008, repito. Finalmente, em relação à dívida pública, o aumento médio histórico ronda os 86% (!), não só devido aos custos de bail out mas também devido à queda das receitas fiscais (os tais estabilizadores automáticos).

Apesar de Portugal não ser o epicentro da actual crise, a amplitude e a profundidade da mesma bem como a nossa debilidade enquanto pequena economia aberta não podem ser escamoteadas. Em termos históricos, este trabalho indica que o aumento do desemprego e do mercado imobiliário dura 5 e 6 anos respectivamente, (!) e até o produto, a variável mais estável de todas, só recupera ao fim de 2 anos. Nunca menos.

Estes dados sugerem que esta crise é, por qualquer métrica, um fenómeno que ultrapassa quase todas as suas parentes anteriores, e só pode ser directamente comparável à de 1929 e à Crise Asiática de há dez anos. Por outro lado, o facto de esta não ser uma crise regional mas sim global, torna a saída mais difícil para os países por ela mais afectados – a saída da mesma não é o consumo (há menos poder de compra), nem o investimento (não há procura que o sustente) nem as exportações (a crise é mundial) – a única saída são os gastos públicos. E até aumentarmos a dívida em 86%, estaremos sempre dentro da média. Não poderemos lidar com a armadilha de liquidez de outra forma.
Referências: Reinhart, Cármen e Rogoff, Kenneth (2008); “The Aftermath of Financial Crises”
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