quinta-feira, 30 de julho de 2009

Política Demográfica

Não concordo com a proposta do PS respeitante ao apoio de 200 euros para “fazer bebés”. E a questão que levanto até nem é eminentemente operacional ou de carácter crítico em relação ao montante ou destinatário do apoio. Nisso, deixo aos outros a crítica, já que o têm feito relativamente bem.

O que eu critico é a falta de percepção do poder político em relação ao contexto de “longuíssimo prazo”. O curto prazo é o predilecto da acção política; o médio prazo ainda vai acontecendo, ainda que de modo “intra-mandato”; o longo prazo é raro, mas quando acontece não costuma servir para mais do que 20 anos. O “longuíssimo prazo” é, por norma, posto de lado por três razões: em primeiro lugar, devido à incerteza do largo período de tempo considerado; em segundo lugar, devido às sensíveis questões de equidade intergeracional, bem como de poder político e correspondente legitimidade intergeracional; por fim, devido às difíceis questões de sustentabilidade que estão por detrás das decisões deste género e que levantam problemas sérios de “path-dependency”.

É precisamente uma questão de “longuíssimo prazo” que eu julgo estar subjacente sempre que se fala de política demográfica e que raramente é discutida. Trata-se precisamente da dimensão populacional de Portugal, em particular, e do Mundo, em geral. A quantidade de pessoas no planeta é assustadoramente grande e não aparenta sinais de diminuição. Se nos países ocidentais ou ocidentalizados a coisa já amainou um pouco, o mesmo não se pode dizer da situação no Terceiro Mundo, onde está mais de metade da população mundial. Mesmo assim, até o nosso país tem nitidamente gente a mais.

Isto parece conversa de miúdos e uma discussão paralela ao essencial; mas se atentarmos nas questões levantadas pela sustentabilidade (ambiental e social), cedo nos apercebemos que, se a Europa apresenta uma tendência de descida da natalidade, tal deve-se a um estabilizador que age no sentido de um maior equilíbrio demográfico-social no continente.

A questão não é nova (basta recordar Malthus) nem é isenta de discussão actual (confrontar o blog de Krugman em posts recentes). Na verdade, a crescente dinâmica populacional não permite alimentar a relação entre a evolução tecnológica e a correspondente melhoria dos níveis de vida, para além de levantar sérios problemas ao nível da sustentabilidade ambiental. Num continente, como o europeu, em que sérios ataques directos têm sido levados a cabo contra o meio ambiente e os recursos naturais, urge uma consciência de maior harmonia entre o antropocentrismo e a biologia.

Mas a questão não se resume apenas a isto. Muitos falam da sustentabilidade da segurança social como o fim que justifica o meio – o apoio à natalidade. Isto também carece de solidez, a meu ver. Ora, a menor dimensão populacional teria efeitos directos ao nível do trabalho em dois sentidos: maior especialização controlada (ou seja, menor estupidificação da especialização, que é a especialização excessiva em campos inúteis); e no nível salarial – menos pessoas induzem menor concorrência pelo valor trabalho, que, actualmente, é a causa maior de tanto desemprego e de tanto conflito intra-classe. E, curiosamente, em ambos estes sentidos a contribuição para a SS seria maior e mais eficaz – mais contribuições relativas e menos dependência dos subsídios e dos apoios sociais. Apesar de o primeiro (efeito especialização) ser a priori um argumento incontestável, o segundo aspecto (questão salarial) que frisei tende a gerar confusão entre as pessoas a quem digo isto, pois menos indivíduos numa economia também induzem menos procura e, por isso, diminuem as possibilidades de emprego.

Contudo, não é, na realidade, esse o problema que quero frisar. O problema de “longuíssimo prazo” é precisamente o efeito que o progresso tecnológico tem na qualidade de vida das pessoas, e esse progresso sai majorado com menos população. O crescimento das economias e o desenvolvimento dos Estados não pode centrar-se na medida simples de crescimento absoluto repousado no aumento da população, que tem sido o principal causador do crescimento até hoje – caso contrário, estaremos permanentemente na armadilha malthusiana (malthusian trap). O que falta é uma verdadeira e corajosa medida de progresso sem recurso ao aumento da população. Isso sim, seria de louvar.

2 comentários:

  1. Muito interessante.
    Mas não fiquei totalmente convencido quanto ao problema da sustentabilidade da segurança social, nos moldes em que ela existe hoje.
    Também não concordo com o argumento da escassez dos recursos naturais. A alimentação nunca foi tão barata, o que significa que a escassez não é assim tanta.
    E a sustentabilidade ambiental, ameaçada essencialmente por outros tipos de bens que não a alimentação, pode vir a ser conseguida com o desenvolvimento tecnológico. Aliás, se a tecnologia se mantiver no estado em que está, a sustentabilidade ambiental nunca será conseguida através da diminuição da população. A não ser que a redução seja drástica.
    Sei que não refuto tudo o que dizes, nem tenho tal pretensão, por não ter analisado o tema tão aprofundadamente; mas tendo a discordar do sentido que defendes. Concordo que a população mundial não deve crescer desmesuradamente, mas uma diminuição não é caminho. Penso que tal diminuição não traría significativos efeitos positivos e, pelo contrário, o envelhecimento da população acarreta graves efeitos negativos.

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  2. Por partes.

    Em relação ao problema da sustentabilidade ambiental, nada há a discutir. É facto incontornável que estamos longe, muito longe, do ponto de sustentabilidade e, por isso, pensar sequer que o desenvolvimento tecnológico comum, per se, pode resolver o problema, é ingénuo. Não pode. O cenário é muito mais grave do que o comum dos indivíduos pensa.
    Por outro lado, se a população diminuir, tal contribui com um efeito positivo e complementar ao desenvolvimento tecnológico.

    No que diz respeito à SS, o caso português é complicado de ser analisado, dado que as alterações recentes foram várias e confusas para o público. É possível, porém, concluir que as reformas introduzidas são um mero remendo, adiando o ponto de sustentabilidade do sistema de 2005 para 2025 (ou 2030, em cenários mais optimistas). A partir daí, outro modelo terá de ser equacionado, e se tivermos menos população, a coisa é mais simples.

    De um ponto de vista dos factores de crescimento, reitero que o crescimento económico não pode, não pode mesmo, ser atingido com base no crescimento da população. É insustentável e mentiroso. Basta analisar o crescimento per capita para perceber isso.

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