quinta-feira, 25 de junho de 2009

O Conteúdo

A nova moda no contra-ataque à oposição é a afirmação de falta de conteúdo em tudo o que diz.
Se Ferreira Leite diz que o TGV deve ficar suspenso por enquanto, é falta de conteúdo!
Se diz que o aeroporto não tem de ser necessariamente suspenso porque pode ser feito por módulos e, portanto, não acarreta obrigatoriamente um dispêndio exagerado de uma só vez, é falta de conteúdo!
Se diz que não se deve avançar para a construção de tantas auto-estradas por enquanto, é falta de conteúdo!
Se diz que o Governo não está a ceder a informação necessária para se pronunciar caso a caso quanto às autoestradas, mas abrindo a possibilidade de umas deverem seguir em frente e outras não, é falta de conteúdo!
Se diz que o concurso para a recuperação das escolas devia ter sido aberto de outra forma, para permitir a adjudicação de obras a PME's, é falta de conteúdo!
Se ainda especifica que, se fosse ela a estar no Governo, preteria as linhas de crédito em favor de pequenas, mas muitas, obras de reabilitação urbana e recuperação de património do Estado, é falta de conteúdo!
Se diz concordar com o investimento em energias renováveis que tem sido feito pelo Governo, é falta de conteúdo!
Se diz que a sua grande preocupação na área da economia é o endividamento, há falta de conteúdo!
Se diz que não concorda com o casamento homossexual, é falta de conteúdo!
Se propõe que o IVA seja cobrado às empresas no momento da emissão do recibo e não da factura, mas que falta de conteúdo!!
Se diz que não é altura para subir impostos, falta de conteúdo!
Se afirma que, por ter como accionistas o Estado, em golden share, e a Caixa Geral de Depósitos, a PT não deve adquirir 30% da Media Capital, é falta de conteúdo!

Que eu me lembre assim de repente, há pelo menos este conteúdo que foi afirmado pela própria Ferreira Leite. Acresce que um partido também não se pronuncia apenas através do líder e o conteúdo da sua política não se revela apenas em afirmações categóricas e detalhadas.

É imperativo lembrar as pessoas que a forma como um partido da oposição expressa a sua política não pode ser medida pela mesma bitola com que se mede a expressão da política do partido do Governo. As ideias de um partido da oposição revelam-se também ao longo do tempo através das tomadas de posição face às medidas do Governo. Sempre foi assim e sempre será.

Quando, a cada momento em que se coloca um problema perante o país, o partido da oposição afirma a sua posição face a esse problema, está a exprimir as suas ideias. Está a concretizar a sua ideia de governação.

Com esta nova moda trazida pelo argumentário do PS pretende-se relegar toda a crítica que é feita ao Governo para o campo da demagogia política. Demagogia é uma coisa, crítica é outra. A crítica, mesmo que não acompanhada de uma contra-proposta bem definida, não deixa de ter conteúdo.

O Governo tem gabinetes e gabinetes de consultores a trabalharem para si para fazerem propostas e tomarem decisões. E têm a máxima informação sobre o que quiserem. É esta a sua natureza.

Um partido de oposição é um conjunto de pessoas, políticos, que olhando para os problemas do país, exprimem as suas ideias, apresentam as suas propostas. Mas não se pode pedir o mesmo nível de detalhe e concretização que se pede ao Governo.

Sim, o PSD afirma-se como um partido de poder e as pessoas estão habituadas a vê-lo como um partido que faz coisas. Mas, neste momento, não está no poder, não pode fazer coisas, e tem de se afirmar, em parte, também por comparação com o partido do Governo, fazendo a crítica que lhe compete, que é legítima e saudável à democracia.

5 comentários:

  1. À excepção do casamento homossexual (cujo argumento dela é... ridículo), tudo o que dizes é Economia. E, para a Ferreira Leite, Economia resume-se ao endividamento público. Esta é a falta de conteúdo.

    Na entrevista de ontem, ela disse três (!) vezes que o principal problema do país era o endividamento. Não sei a que país ela se refere. Achas seriamente que o principal problema do país neste momento é o endividamento?

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  2. Não me parece que seja uma moda, muito menos fruto de um argumentário do PS, dado que as críticas têm vindo dos mais diversos quadrantes, inclusivamente do PP. E não posso deixar de referir que me parece que o teu post é abusivo, no sentido em que a falta de conteúdo tem sido contextualizada e agora fizeste um aproveitamento desse argumento descontextualizando-o.
    Quanto às auto-estradas, TGV e outras obras públicas, a posição tem sido de criticar sem explicar o que pretende fazer. Não me parece que, ao contrário do que dizes, um partido que quer ser governo possa criticar sem contra-proposta. Ou o discurso eleitoral vai ser "vocês fazem tudo mal. Nós não sabemos o que queremos fazer, mas depois vê-se isso. Não há muita preocupação"? E esse argumento de que um governo de oposição não pode apresentar propostas detalhadas é falacioso. Ou todos os governos vindo da oposição chegaram ao poder sem saber o que fazer? É tua intenção passar um atestado de incompetência a todos os eleitores em anteriores legislativas? Votaram todos em alguém que não tinha propostas concretas? E não me digas que o PSD não tem consultores em quem se apoiar.
    A indisponibilidade dos dados é falsa. São públicos e se tiver algum problema em os obter, o PSD pode solicitá-los. Não me parece que alguém os vá esconder. E se isso acontecer, só tem motivos para retirar daí uma vitória política. Mas até aqui, esse não é o caso.
    A recuperação do parque escolar pode ser feita com recurso a PME's, concordo. Mas de resto, os apoios pretendidos pelo PSD para essas empresas não respondem à questão fundamental: de que forma, concretamente, é que o PSD pretende estimular o desenvolvimento das PME's? De que forma pretende aplicar esses apoios? Ou vamos simplesmente injectar dinheiro nas PME's sem qualquer controlo ou fiscalização ou plano de negócios viável?

    Já me pronunciei sobre a questão da Media Capital. Mas reforço que, sendo o negócio proveitoso ou não, não se pode querer a sua não realização por motivos políticos. Só para os fãs de teorias da conspiração é que pode fazer sentido que Sócrates obrigue a PT a gastar 150 milhões de euros para afastar Manuela Moura Guedes. Acho que é altura de sermos sérios quanto a isto.
    E, tal como já disse o Luís André, o endividamento não é, de todo, o principal problema. Numa altura em que se tem que aumentar a despesa pública, é ridículo termos essa preocupação obsessiva. Algo que a Ana Lourenço fez questão de lembrar e Manuela Ferreira Leite reagiu assustadamente, como quem diz "Já me apanharam! Já sabem que não mudei desde que fui Ministra!".

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  3. É verdade, MFL mantém as suas procupações com o endividamento público, não quer obras públicas faraónicas, quer apoiar as PMEs o decorre de uma linha de pensamento com coerência lógica. O estado tem de deixar de estrangular a economia e a sociedade, logo a solução não é aumentar o seu peso onde mais a prejudica - a dívida pública.Para baixar a dívida pública não pode querer que se fa~çam maus investimentos, como é do consenso da maioria dos economistas que a Ota teria sido e o tgv lisboa porto ainda é. Só as PMEs podem resolver o problema do desemprego porque as grandes empresas não consomem muita mão-de-obra, em proporção. Para sobreviverem as PMEs precisam acima de tudo, que os estado pague as dívidas que contraiu junto delas, e precisa de reformar o sistema fiscal de forma que lhes seja mais favorável. Não faz sentido que uma empresa pague IVA de uma receita que ainda não recebeu. Á aqui uma grande injustiça que tem que ser resolvida, as empresas são alvo de coerção para pagar as dívidas ao estado e o estado é o seu maior devedor. Também aqui, government is the problment!

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  4. Descupem os erros de ortografia foi escrito um pouco depressa

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  5. É óbvio que discordo no funda da questão quanto a alguns comentários, e não vou repetir argumentos para não estar a eternizar a questão.
    Mas gostaria de dizer ainda duas coisas.
    Primeira, que o mais importante no projecto de um partido é a política que defende, as orientações de define, a partir das quais decorrerão as decisões na governação. O que no fundo queria dizer é que não se pode dizer que um partido não diz nada, por não apresentar propostas concretas, quando apresenta claramente uma política. Aliás, as propostas podem ser olhadas de uma dupla perspectiva. Quando convem, chamam-se-lhe propostas. Quando convém outra coisa, chamam-se-lhe promessas.
    Segundo, não é verdade que o PSD não tenha apresentado propostas concretas em algumas áreas. Nomeadamente foi aqui afirmado que não especificou como ajudar as PME's. Isso não corresponde à verdade: http://www.psd.pt/?idc=307&idi=1463 Num parágrafo deste link aparecem enumeradas várias propostas que foram apresentadas, a mais relevante das quais, na minha opinião, eu até referi, que é aquela medida relacionada com o IVA.

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