sábado, 20 de junho de 2009

Sondagens

Agora que já passou algum tempo sobre o dia em que Portugal se indignou contra as sondagens, apetece-me fazer algumas observações. E faço-o com o privilégio de gozar de alguma autoridade (pouca!), uma vez que esporadicamente desempenho funções de inquiridor numa empresa de sondagens. Portanto, julgo que tenho algum conhecimento da situação, principalmente na perspectiva de quem trabalha "no terreno". Não sou eu que faço as contas, eu interrogo pessoas.
Em primeiro lugar, uma observação objectiva: de facto, as sondagens falharam sistematicamente, sempre no mesmo sentido e independentemente da empresa responsável e dos métodos utilizados. Isto é grave.
Em segundo lugar, a minha opinião quanto às causas: há uma causa principal, a abstenção. Havia uma pergunta nos inquéritos que interrogava precisamente sobre a intenção de ir votar no dia das eleições. Da minha experiência, relato que pouca gente afirma que não vai votar, alguns ainda não sabem, e a maior parte diz que vai votar. Aqui claramente as pessoas mentem, e isso influencia os resultados finais. E imagino que, depois, quando os meus superiores vão fazer as estatísticas, ainda se deparam com o problema de saber o que hão-de fazer a quem disse que não sabe se vai votar.
Noto ainda que há muitas pessoas que dizem que vão votar num determinado partido, mas na verdade sinto que estão indecisas. Outros estão como que a jogar ao totoloto - "deixe cá ver... Olhe, ponha aí o PS!", como quem diz para pôr o PSD. E como não posso interpretar subjectivamente os dados, mas apenas colocar a cruz onde as pessoas indicam, lá vai um voto possivelmente errado, porque no dia das eleições podem resolver tentar outra chave. Há lá um quadradinho para os indecisos, mas se não nos dizem que estão indecisos, não sou eu que o vou dizer, nem posso.
Uma terceira observação vai para a importância das sondagens. A comunicação social habituou-se a alimentar-se de sondagens. Uma sondagem pode dar notícias, análises do editor de política, tema de debate durante a próxima semana e ainda permite aos jornalistas "sentir o pulso" das campanhas, o que na minha opinião explica a cobertura muito crítica que foi feita à campanha do PSD, por exemplo. O homem andava sempre sozinho, não conseguia mobilizar as pessoas, não fazia arruadas porque ninguém gostava dele...
Ora, daqui decorre uma última observação, quanto às consequências. Em primeiro lugar, as empresas de sondagens vão ter de analisar muito bem os erros que cometeram, vão ter de elaborar inquéritos que permitam uma melhor transmissão da realidade e vão ter de estudar melhores métodos para o tratamento estatístico dos dados. É notório que as sondagens não estão a medir devidamente a capacidade de mobilização do eleitorado por parte de cada partido.
Em segundo lugar, a comunicação social tem de voltar à política real e dar menos importância à política virtual, parafraseando Pacheco Pereira.
Em terceiro lugar, felizmente todos tomaram consciência de que as sondagens são falíveis e a sua importância deverá voltar ao devido lugar. Têm o seu interesse, mas não substituem o conhecimento real e directo sobre a situação.
Por último, uma palavrinha quanto à ideia peregrina de proibir sondagens em período de campanha. É uma reacção radical e insensata. Viola a liberdade de imprensa sem haver um motivo suficientemente forte para isso. E além disso, parece-me que, pelo menos por uns tempos, já ninguém se vai atrever a declarar a morte de um partido baseando-se em meras sondagens.

4 comentários:

  1. Para o lado do PP a margem de erro foi absurda. Permitam-me arriscar dois possiveis motivos: as empresas de sondagens não sabem qual é o eleitorado do PP; em portugal as pessoas ainda se coibem de afirmar que votam á direta pelos traumas que persistem do PREC.
    As sondagens não serão a minha especialidade, mas deixo aqui um humilde testemunho. Bem vindo Luís Araújo!

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  2. Pois claro que não conhecem o eleitorado do PP, nem o de nenhum outro partido. As sondagens são o resultado de uma avaliação objectiva de números. Para garantir a seriedade de uma sondagem, não podem ser introduzidos critérios subjectivos.
    Percebo o que dizes, porque acho que um factor muito importante é a concepção que o eleitorado típico do PP tem do direito de voto: vê-o também como um dever cívico. E portanto não é um partido que perca muito para a abstenção. Dito de outra forma, as pessoas que dizem que vão votar PP, vão mesmo votar PP. Ao passo que as pessoas que dizem que vão votar PS ou PSD, talvez se deixem ficar em casa se estiver a dar um filme ao seu gosto na TV.
    A grande questão é como fazer reflectir estes factores numa análise objectiva dos números. Não se pode passar a dar mais pontos ao PP só porque se acha que os seus eleitores vão mesmo votar. Parece-me que a solução tem de passar pela invenção de uma nova pergunta que meça a motivação do inquirido. Mas convenhamos que também não é fácil formular uma pergunta que tenha este objectivo.
    Cumprimentos, caro co-blogger José Santos!

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  3. As sondagens sendo realizações humanas, naturalmente que serão passíveis de erro. O problema é quando as sondagens ultrapassam a margem de erro e se enganam na intenção directa do voto. Não sou daqueles que vai em teorias da conspiração, quem me conhece sabe que não é o meu estilo, mas acredito que esta discrepância de resultados que tanto deu que falar terá que ter como efeito natural o repensar da metodologia na realização das mesmas.
    P.S. Os comuns de direita já deram o “ar da sua graça”. Que é feito dos nossos pares esquerdalhos?

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  4. Quando eu falava no desconhecimento das empresas de sondagens em relação ao eleitorado do PP, falava sobretudo na selecção das amostras. Acho que estas empresas ainda não descobriram ao certo onde se localiza este eleitorado geograficamente o que faz com que as amostras não sejam representativas.Provavelmente este eleitorado e demasiado localizado?Uma questão a estudar...

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