segunda-feira, 22 de junho de 2009

Autoeuropa - Uma Questão Complicada

Não gosto quando não sei de que lado está a razão.
Não está do lado da administração da Autoeuropa, com certeza. Ultrapassa os limites da ética empresarial esta constante ameaça de deslocalização. Sempre que querem mudar qualquer coisa, lá vêm com esta ameaça. Começo a deixar de acreditar que essa hipótese seja mesmo colocada em cima da mesa; parece-me cada vez mais uma utilização abusiva do medo do desemprego e da importância mediática que a Autoeuropa tem no tecido empresarial português. Eles sabem que a sua presença em Portugal convence os portugueses de que temos uma indústria hi-tech, e sabem que os portugueses vêem uma eventual deslocalização da Autoeuropa como um regresso à indústria de mão-de-obra intensiva. Na minha opinião, a Autoeuropa tem um significado muito mais simbólico do que real, e eles abusam do significado simbólico. Fazem uma espécie de chantagem.
Por outro lado, considero que uma empresa que esteja de boa saúde, como é o caso, desrespeita a ética também quando pretende fazer reflectir nos trabalhadores os efeitos negativos de uma crise conjuntural. Obviamente não defendo a proibição de despedimentos por parte de empresas lucrativas! Mas nem 8 nem 80. E é verdade que esta crise trouxe mudanças estruturais, mas no sector automóvel, e particularmente na VW, o abrandamento na procura é essencialmente conjuntural. A empresa tem de saber arcar com os riscos da actividade económica, e suas inevitáveis flutuações, não podendo querer sempre que sejam os trabalhadores a absorver os efeitos negativos dessas flutuações.
Também não concordo com a postura do Governo. Ciente da importância simbólica/mediática da Autoeuropa em Portugal, está claramente do lado da administração, ajudando a pressionar os trabalhadores. O que acaba até por prejudicar os objectivos da Autoeuropa, porque isto transforma-se também numa luta partidária, em que os partidos da esquerda pressionam os trabalhadores a recusar as propostas da administração.
Por fim, também me custa encontrar a razão do lado dos trabalhadores. Desde logo, porque recusam um acordo que os prejudicaria em valores pouco significativos, mas cuja recusa pode levar à perda de muitos empregos. Em segundo lugar, porque podem considerar-se uns trabalhadores privilegiados, tendo em conta o panorama nacional. Com efeito, auferem bons salários, têm boas condições de trabalho e a administração da Autoeuropa, apesar da postura errada, não deixa de os querer ouvir e mostrou-se disposta a negociar. E também se lhes pode aplicar o mesmo raciocínio que apliquei acima: não podem pretender passar por esta crise profunda sem ter de fazer um ou outro sacrifício.
A parte difícil disto tudo está em encontrar o equilíbrio, quer na repartição dos riscos da actividade económica, quer na utilização de posições negociais mais fortes.

2 comentários:

  1. Quanto a mim acabamos por concluir que ninguém tem razão que é, de facto, o que eu acabo por pensar em relação à questão da autoeuropa. Juntaria mais um elemento a esse grupo - os sindicatos. Claro que são quase indissociáveis dos trabalhadores, mas são a causa por detrás da intransigência destes. De facto, os sindicatos já não servem para defender os interesses dos trabalhores representando-os nas negociações com o governo e a administração, já não servem de mediadores ou negociadores.Hoje são meros instrumentos políticos na mão da esquerda radical e servem unicamente o interesse dos partidos políticos que se lhes estão associados. "Espicaçam" os trabalhadores para exigirem direitos intermináveis e não têm qualquer preocupação em perceber se tais direitos são praticáveis ou minimamente possiveis nas condições duras de hoje.
    Nesta questão das deslocalizações quanto a mim não adianta os governos continuarem com "panos quentes" a convenserem com pequenos e avulsos agrados as admnistrações a ficarem. Não podemos continuar a competir desta maneira contra mão de obra qualificada e a baixos custos. O caminho será certamente outro que não nesta acção tão discricionária do governo em se preocupa tanto em que esta empresa fique, a qualquer custo, mesmo que saia caro aos bolsos dos contribuintes. Isto tudo, só para que o ministro Manuel Pinho possa aparecer mais uma vez como salvador do dia sempre que consegue convencer pela énesima vez a admninistração a ficar em troca de mais um "jeitinho" do governo aqui e ali. Como Ronald Reagen diria, também aqui "government is not the soluction, government is the problem". Ainda que me solidarize com todos os trabalhadores que ficariam sem emprego, sei que a longo prazo não podemos continuar a alimentar este problema e a unica solução definitiva é permitir a deslocalização e tratar de criar outras condições, que nos permitam competir com argumentos fortes na atracção de investimento.

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