Prometi ao João Araújo um texto meu acerca da situação actual em termos de economia mundial, de modo a confrontar o que discutimos nos últimos meses. Fa-lo-ei num destes dias, mas antes lanço apenas uma pequena nota sobre o que mais se discute actualmente.
Gosto de ler verdades destas, por estarem tão bem apetrechadas:
Não me interpretem mal; acho que é uma excelente notícia termos muito por onde cortar em termos de despesa corrente - acho ainda melhor que, depois de se anunciarem tantos cortes públicos correntes, haja alguém que consiga ter a imaginação e a criatividade para apontar ainda mais cortes. É sinal que ainda há esperança em resolver a coisa do lado da despesa em vez de ir pela via fácil e recessiva da taxação adicional.
Mas, por favor, absorva-se esta ideia: não é a austeridade pública sozinha que nos vai livrar dos juros externos elevados e da crise económica. Se eu me chamar Fátima Campos Ferreira, é compreensível que viva nessa ilusão constante da solução fácil, caso contrário devo optar pela sensatez. Sócrates pode cortar até ao ponto de conseguir um superavit orçamental em 2011, que isso não impedirá que os juros fiquem acima dos 5% durante vários anos. Acho fantástico que haja vontade em cortar despesa, mas não se pense que é isso que vai aliviar a pressão dos juros, porque não é! Quem acredita que há uma varinha mágica que se accionará se o Governo for "bem comportado", está terrivelmente enganado. Por detrás do problema público, há um problema maior e mais escondido que se chama défice comercial. Enquanto a nossa Balança Comercial exibir um padrão deficitário ano após ano, não há corte público que resolva o problema externo. Em vez de pensarmos que é o Instituto da Banana que nos está a causar todo este mal, temos também de voltar as nossas atenções para a balança comercial, nem que tenhamos de produzir e exportar batatas para voltar ao equilíbrio.
As causas do desequilíbrio são conhecidas: (1) baixa competitividade empresarial relativamente ao exterior (que tem muito mais a ver com padrão de especialização e boa gestão do que de níveis salariais); (2) desvio de recursos dos sectores transaccionáveis para os sectores não-transaccionáveis (Norte vs. Sul?); (3) status quo da arquitectura monetária em que estamos inseridos (convergência nominal?); (4) elevada desigualdade na distribuição da riqueza (que provoca baixos hábitos de poupança e estimula importação de luxos). E os factores auto-agravantes também se conhecem: corrupção, baixa qualificação, clientelismo/nepotismo, imagem de marca "Portugal" no estrangeiro, má Justiça, fraudes estatísticas na educação, etc...
É muito mais difícil falar sobre isto do que de falar de eliminação cega de despesa, mas talvez essa mesma dificuldade nos eduque a pensar mais e gritar menos e assim ganhar pela razão e não pelo populismo.
Gosto de ler verdades destas, por estarem tão bem apetrechadas:
"Political journalists can’t or won’t understand anything more than a soundbite, so giving them a lengthy lecture about economics makes as much sense as reciting poetry to a pig. As someone once said, in politics, if you have to explain you’ve lost the debate."Eu sei, eu sei o que vão dizer. Todas as ciências padecem do mesmo mal sempre que um jornalista se põe a dissertar sobre o que não sabe. O meu medo é que se esteja a chegar a um ponto de ilusão perigoso. A quantidade de notícias sobre o défice e a avalanche de soundbites nos meios de comunicação são tais que um estrangeiro que olhe para o nosso país não saberá se a opinião do taxista sobre a crise é derivada da sua literacia financeira desenvolvida nas aulas de Economia Doméstica da escola (que não temos, mas que podíamos ter) ou se se deve à crença em tudo aquilo que os jornais escrevem.
Não me interpretem mal; acho que é uma excelente notícia termos muito por onde cortar em termos de despesa corrente - acho ainda melhor que, depois de se anunciarem tantos cortes públicos correntes, haja alguém que consiga ter a imaginação e a criatividade para apontar ainda mais cortes. É sinal que ainda há esperança em resolver a coisa do lado da despesa em vez de ir pela via fácil e recessiva da taxação adicional.
Mas, por favor, absorva-se esta ideia: não é a austeridade pública sozinha que nos vai livrar dos juros externos elevados e da crise económica. Se eu me chamar Fátima Campos Ferreira, é compreensível que viva nessa ilusão constante da solução fácil, caso contrário devo optar pela sensatez. Sócrates pode cortar até ao ponto de conseguir um superavit orçamental em 2011, que isso não impedirá que os juros fiquem acima dos 5% durante vários anos. Acho fantástico que haja vontade em cortar despesa, mas não se pense que é isso que vai aliviar a pressão dos juros, porque não é! Quem acredita que há uma varinha mágica que se accionará se o Governo for "bem comportado", está terrivelmente enganado. Por detrás do problema público, há um problema maior e mais escondido que se chama défice comercial. Enquanto a nossa Balança Comercial exibir um padrão deficitário ano após ano, não há corte público que resolva o problema externo. Em vez de pensarmos que é o Instituto da Banana que nos está a causar todo este mal, temos também de voltar as nossas atenções para a balança comercial, nem que tenhamos de produzir e exportar batatas para voltar ao equilíbrio.
As causas do desequilíbrio são conhecidas: (1) baixa competitividade empresarial relativamente ao exterior (que tem muito mais a ver com padrão de especialização e boa gestão do que de níveis salariais); (2) desvio de recursos dos sectores transaccionáveis para os sectores não-transaccionáveis (Norte vs. Sul?); (3) status quo da arquitectura monetária em que estamos inseridos (convergência nominal?); (4) elevada desigualdade na distribuição da riqueza (que provoca baixos hábitos de poupança e estimula importação de luxos). E os factores auto-agravantes também se conhecem: corrupção, baixa qualificação, clientelismo/nepotismo, imagem de marca "Portugal" no estrangeiro, má Justiça, fraudes estatísticas na educação, etc...
É muito mais difícil falar sobre isto do que de falar de eliminação cega de despesa, mas talvez essa mesma dificuldade nos eduque a pensar mais e gritar menos e assim ganhar pela razão e não pelo populismo.
Concordo. Em especial com as causas (1) a (3).
ResponderEliminarAcho incrível como uma geração inteira foi criada no mundo ocidental pensando que esta situação de contínuo desequilíbrio na balança comercial não traria consequências negativas.