domingo, 10 de outubro de 2010

O Jogador


Desenganem-se aqueles que pelo título deste post pensaram que iria fazer um comentário ou crítica literária, ao célebre romance de Dostoiévsky. Não é o caso. Refiro-me a esse grande jogador de roleta russa que é José Sócrates.
O Jornal i noticia hoje que, na iminência do Partido Social Democrata chumbar o Orçamento do Estado no próximo dia 29 de Outubro, o Primeiro-Ministro irá prontamente a Belém pedir a demissão e aconselhar que Cavaco Silva promova a formação de um novo governo, mas, desta feita, a cargo do PSD. Confesso que me faltam as palavras… Como é possível fazer-se este tipo de chantagem, numa altura tão periclitante para o País, em que o “sentido de Estado” e a procura de um diálogo profundo com o povo, seriam exigências mínimas para qualquer governante com um pingo de seriedade? Ainda para mais, sem maioria parlamentar?
Quem tem por hábito de, de vez em quando, assistir aos debates em que José Sócrates vai à Assembleia da República, percepciona que este não deverá, certamente, ter em muita estima o hemiciclo. Durante todo o período do debate parlamentar em que a actividade do PM é submetida à fiscalização dos deputados nacionais, José Sócrates esquiva-se consecutivamente e sem remorsos ou problemas de consciência, a qualquer pergunta formulada ou a quaisquer pedidos de clarificação das diversas medidas adoptadas pelo Governo em exercício de funções. Comporta-se como se de uma brincadeira se tratasse, recusando-se terminantemente a responder e, com um sorriso indisfarçável e um olhar astuto, lá vai “malhando” na oposição recorrendo, não raras vezes, ao argumento “ad hominem” e ao insulto barato: “Eu sei que o Sr. Deputado gosta da lavoura… Eu, sei.”; ou “Não se excite… O Sr. Deputado está muito excitado!”; ou ainda “Você e o seu partido são uns pessimistas e nunca apresentam ideias!”. A somar a isto, a Comunicação Social dá cobro total ao comportamento de Sócrates no Parlamento, pois, nos resumos dos debates, apenas se importa em passar as banalidades, como as piadas ou os sarcasmos de parte a parte. Não cumpre, portanto, o seu dever informativo e, por isso, não é de admirar que Sócrates vá ao parlamento dizer apenas o que bem entende sem se preocupar em prestar contas à nação.
Há pouco tempo, quando José Sócrates foi aos Estados Unidos – recebido então pelo ex-ministro Pinho, agora, professor convidado da Universidade de Columbia com o patrocínio da “amiga” EDP – demonstrou que a sua actuação é regida por princípios dotados de alguma plasticidade. Uns meses antes sentira-se ofendido por Passos Coelho, em Espanha, ter ousado falar da “Golden Share” da Portugal Telecom. Pois, afinal, não se deve falar em território estrangeiro sobre assuntos que possam prejudicar os interesses do Estado português. O que, no limite, constituiria uma atitude anti-patriótica. Contudo, o mesmo homem que disse isto, passados alguns meses, e em pleno centro financeiro mundial tem o despudor de dizer que se demite, na eventualidade do orçamento ser chumbado!
Neste momento, vivemos uma autêntica situação de crispação política. Mas não seria isto natural em qualquer cenário de crise económica? Provavelmente. Contudo, ao contrário do que seria de esperar, não foi a oposição que ficou crispada e reivindicativa! Foi antes o Governo! Antes mesmo de conhecermos os dados de execução do tão famigerado PEC II – só sabemos que a despesa do semestre passado aumentou! -o Governo e o Partido Socialista apresentaram, sem apelo nem agravo, um conjunto de medidas, um “pacote”, considerado pelos próprios, imprescindível e indiscutível! Isto, depois de Passos Coelho ter recusado assinar o “contrato de adesão” apresentado por José Sócrates que consistia num conjunto de pré-requisitos, sem os quais seria impossível prosseguir as negociações. A reacção do Governo, na conferência realizada pelo Ministro Silva Pereira, foi de autêntica crispação mas com um intuito muito claro: sair por cima, depois do falhanço das negociações mesmo que - e isto é importante -  isso significasse o fim irremediável de qualquer possível nova tentativa de diálogo.
Ao fazer este tipo de chantagens e vitimizações José Sócrates visa unicamente ganhar uma batalha política. Pouco se interessa se as suas declarações e acções têm impacto negativo nos mercados, nem está preocupado se o Orçamento passa ou não passa. O Orçamento já não é problema dele, não se responsabiliza… É agora problema da oposição, eles é que podem gerar impacto negativo nos mercados. Estes malabarismos serviram apenas para transferir a responsabilidade para o maior partido da oposição, são agora estes que têm que gerir o risco de “default”. Como acima referi, José Sócrates é um jogador, isso de ser estadista já não se usa. Joga no risco, para ganhar uma grande soma. Neste momento, nas sondagens, pouco atrás está de Passos Coelho e é este agora que tem na sua posse, a “batata quente”.
Se o orçamento for chumbado é José Sócrates que ganha. Voltará daqui a seis meses, mais forte e ávido de poder.
Se fosse monarca teria, certamente, o cognome de “O Jogador”.

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