sábado, 24 de abril de 2010

O King vai nu

Fui questionado por um amigo se me estava a converter ao PSD. Os comentários do post anterior também o fizeram. Permitam-me responder num pequeno texto. Sobre isto, 3 pontos breves.

1 - Não costumo concordar com observações baseadas em realidades uni- ou, no máximo, bi-dimensionais do espectro político, como se a única categorização que se pudesse fazer de alguém tivesse de vir obrigatoriamente da distribuição dos Partidos na AR, da ponta "esquerda" à ponta "direita". A realidade é bastante mais complexa do que isso e urge compreender a visão multifacetada que as ideologias devem tomar.

2 - Nunca fui comunista (lamento se enganei alguém) nem nunca virei para aquilo que se costuma convencionar como "a Direita" (lamento se desapontei alguém).

3 - A razão pela qual eu tendo a odiar tanto o Bloco de Esquerda é a mesma pela qual eu odeio a juventude urbana burguesa e revolucionária de hoje em dia (que basicamente é o mesmo que o BE). É que, para eu simpatizar com um partido, preciso de respeitá-lo; e para respeitar um partido, eu preciso de ver nele alguns princípios.
Eu simpatizo com o PCP e com o CDS porque ambos têm princípios. O PSD também os tem, mas é demasiado plural para ser apenas um partido generalista. O BE não os tem, e o PS para lá caminha. Mas de que princípios falo eu? De que precisa o BE para ter o meu respeito?

Sem dúvida que precisa de muita coisa, mas não era má ideia começar por saber o que defendem. O eleitorado-tipo do BE é aquele que não precisa de pensar nem de ponderar as coisas; tudo lhes cai em cima da cabeça de forma puramente gratuita, de tal modo que podem aceitar acriticamente tudo o que a vanguarda progressista lhes disser que é bom. É esta tendência de passividade confortável que permite aos eleitores do BE se transformarem em esponjas da Bíblia bloquista, sob o guarda-chuva das palavras de ordem da "liberdade" e da "democracia", e replicando gratuitamente aquilo que carece de meditação.

O ridículo vê-se em certos exemplos. Defendem-se subsídios para as artes, casas para imigrantes e tertúlias sobre integração étnica multicultural em discussões que estão ao nível de um jogo de futebol da III Divisão e como se houvesse dinheiro de sobra para satisfazer todos os desejos e caprichos das gentes politicamente correctas que vêem em cada discriminação uma luta pela revolução. Talvez seja isto mesmo: o BE será aquele típico partido composto por gente que viu a Revolução dos Cravos há demasiado tempo e que precisa de coisas novas por que lutar. Depois das lutas pelo voto, pela expressão, pelas férias e pelo descanso, à sociedade ocidental restaram apenas as lutas contínuas: a da exploração capitalista, a das desigualdades sociais e as das corrupções políticas. Mas essas lutas são chatas porque são ingratas: implicam tempo, paciência e perservança, algo que os meninos do BE não estão dispostos a fazer porque suja as mãos e cansa a vista. Preferem antes as lutas do circo mediático, as das questões fracturantes e aquelas que "rompem por romper". É a sociedade do espectáculo convertida à escala política: a busca pelo imediatismo e pela fama em nome e por intermédio de instrumentos sociais.

As celebrações do 25 de Abril são disso um perfeito exemplo. Observem amanhã as manifestações, paradas e declarações públicas e notarão o padrão. O que certa gente do BE não compreende nestas celebrações é que a liberdade, enquanto conceito, é diferente dos valores da liberdade. Eu defendo a liberdade quando actuo na estrutura e luto para que consagrem plenitudes de direitos onde eles se ajustam e justificam - é uma luta contínua de sangue e suor em nome de princípios reais - é uma conquista e tem mérito por isso mesmo; já o BE luta por fetichismos de ocasião, caprichos marginais e coisas menores, próprias da juventude urbana burguesa, e em nome do "valor liberdade", essa coisa amorfa, esse saco do Pingo Doce onde cabe tudo, desde um detergente até aos cereais Chocapic.

8 comentários:

  1. Estás mais crítico do BE do que eu!
    Tens razão em quase tudo o que dizes. Só não concordo com a excessiva generalização que fazes. Nem todos os apoiantes do BE são esses jovens burgueses pseudo-revolucionários. Aliás, pensar assim acarreta o perigo de subestimar o poder da demagogia do Louçã.

    ResponderEliminar
  2. Qual é o partido de Luís Oliveira?
    Ora ai está uma pergunta deveras interessante :D

    ResponderEliminar
  3. Por incrivel que pareça estou tentado a concordar em boa parte.

    ResponderEliminar
  4. Ousarei, mais uma vez, discordar da tua opinião, a meu ver informada, ironicamente, pelos mesmos lugares-comuns que tens vindo a associar com o eleitorado do Bloco de Esquerda. Começarei, no entanto, por reportar-me aos pontos onde a minha perspectiva parece alinhar-se com as ideias que aqui expuseste.

    O Bloco de Esquerda não é, de todo, o partido da populaça. É uma estrutura política que assenta na exploração de modelos sociológicos de cariz Marxista (notarás a incessante preocupação em catalogar bases e superestruturas económicas e culturais) que conheceram um surto no ocidente democrático do pós-guerra graças ao descrédito do Colonialismo e que acompanharam, com algum cepticismo, a progressiva capacitação económica e educacional das várias minorias que, nos dias de hoje, adornam o mosaico Euro-Americano pretensamente pós-racial e pan-sexual. Falo, claro está, de modelos sociológicos provenientes dos píncaros da Academia, nos paladinos quixotescos da Filosofia Continental e nas utopias projectadas pelo hibridismo Pós-Colonial.

    O Bloco de Esquerda pode bem ser a Pangeia política dos ventríloquos esquerdistas de classe média e dos anarquistas automatizados que vociferam as palavras vãs que apontas, mas, antes de tudo isso, é o partido das elites intelectuais de esquerda.

    Ora, a meu ver, o problema deste partido não reside tanto no facto de se fazer valer de um exército de macaquinhos de imitação (algo que, convirás, se aplica a qualquer um dos partidos), mas sim no modo como os seus mais ilustres apoiantes pretendem fazer vingar, na prática, os cenários paradisíacos que enformam o seu pensamento. Não concordo, como tal, com a manobra simplista de redução do eleitorado do BE ao tropo do intelectualoide. Uma boa parte dos militantes e simpatizantes do partido tem as leituras em dia e sabe muito bem do que está a falar. Contudo, quando chega a altura de debater as suas ideias de base com os apoiantes dos restantes partidos, o zumbido que muitas vezes se faz ouvir é o da demagogia.

    ResponderEliminar
  5. É aqui que estamos mais uma vez de acordo. Embora eu me mantenha em sintonia em relação a grande parte da teia ideológica do partido, reconheço que, muitas das vezes, tais pensamentos não possam ser colocados em cena uma vez que, em primeiro lugar, devemos atender às especificidades do presente e aos entraves económicos e epistemológicos que este coloca a quem ousa profetizar paisagens onde a luta de classes, de sexos ou de raças não constituem a ordem do dia.

    Atacar o grande capital e a sua simbiótica mecânica mercenarista é uma ideia que muito me apraz. Mas os empresários têm mais sítios para onde ir criar negócio. E com eles vai o emprego.

    A saída da NATO e subsequente desmilitarização viria poupar rios de dinheiro que podia ser canalizado para o apoio às empresas ou para uma segurança social mais forte. Mas o país sairia inelutavelmente fragilizado em termos de credibilidade externa.

    Não penso, de todo, que as causas do Bloco sejam descabidas, que estejam vampiricamente a garimpar aquele que é, de facto, um filão estratégico - o dos "coitadinhos" - ou que as suas ideologias sustentem a mera masturbação política. É, a meu ver, um partido hiperónimo de protesto e, como tal, admito que possa abraçar pessoas que gostam de mandar umas bocas de café sobre os pobres e as ganzas. Aliás, em termos estratégicos, tais militantes são bem-vindos, como o seriam em qualquer partido que se quisesse fazer ouvir.

    No momento presente, contudo, penso que a sua função e o seu crescimento é fulcral não como bloco de sublimação de frustrações e enquanto instrumento incrementador de empolamentos e modas juvenis, mas como repositório de ideias que, a meu ver, poderiam vir a desembocar, mediante cedências de parte a parte e sem rupturas abruptas, num país progressivamente mais desenvolvido em termos de ética e justiça social, conceitos que não são, obviamente, neutros e objectivos e que, por isso mesmo, pressupõem uma inevitável tomada de posição no domínio do particular.

    E com isto coloco-me a favor de grande parte das ideias do bloco ao mesmo tempo que me posiciono como um céptico mirone relativamente a perspectivas que se me apresentem sob a máscara da altivez revolucionária ou da névoa generalizadora e oblíqua que, no seu interesseiro silêncio, oculte o carácter intricado da economia e da política portuguesas num âmbito internacional, nacional e local.

    ResponderEliminar
  6. Ó João, isso é tudo muito bonito, não haja dúvida que escreves muito bem, mas o ponto de base é o de que Portugal não sentiria nunca a falta de um Bloco de Esquerda. Pensa lá bem nessa hipótese: o que seria de Portugal sem qualquer um dos partidos na AR? Pensa no caso concreto do BE e chega a conclusões. É neste tipo de análise que por vezes se vê a importância que as coisas têm.

    Repara que quase todos os assalariados acham que não são remunerados ao nível que merecem e consideram que os patrões ganham demasiado. Mas essa gente não vota toda no BE por alguma razão. Essas pessoas são anti-desigualdade, anti-corrupção e anti-apropriação de mais-valias do trabalho pelo capital; não são anti-ricos como o BE quer promover, pois se todos o fossemos, nada havia para nos queixarmos. As pessoas do BE estão-se a cagar para os operários fabris, para os agricultores e para os assalariados. Só abraçam mesmo os recibos verdes para dizerem que estão atentos e porque ... enfim, é uma nova modalidade de trabalho que tem de ser criticada, apenas por ser nova. É totalmente acrítica a posição sobre essa matéria. Falam de precariedade como se soubessem o que isso é, do alto dos seus confortos.

    E nas questões ditas fracturantes, desde o casamento dos larilas até às drogas leves, não lhes importa se faz muito sentido ou não, desde que levante poeira.

    Ser-se de esquerda, seja lá o que isso for, não é brincar às experiências sociais à procura de protagonismo ou de escrever o seu nome na História como um mártir defensor dos oprimidos; ser-se de Esquerda é ler a sociedade e perceber o que nela há de tão revoltante que conta com o apoio de grande parte da sociedade para organizar a mudança nesse sentido, correndo e forçando contra quem não quer respeitar a vontade suprema da população. O BE é diferente: é mudar, romper, transformar a que custo for, mesmo que a sociedade não o queira.

    Diz-me lá, honestamente, se achas que o BE tem carácter de partido nacional. O BE só faz sentido como movimento social sulista, em particular lisboeta, nunca mais do que isso. Em Portugal, só num antro sujo, decadente e yuppie como Lisboa é que pode ter um partido destes adequado à sua realidade.

    ResponderEliminar

Share |