Neste país, e neste blog em particular, parece que se precisa de ver e ouvir notícias externas sobre a situação económica de Portugal para os pseudo-liberais saírem do armário e reivindicarem o óbvio, o copiado, a lenga-lenga do costume sobre e para os mercados financeiros. De opiniões copiadas, já estou eu farto de ler e ouvir. O prémio "state the obvious" ("dizer o óbvio") para o dia de hoje poderia ir para muita gente. São muitos os nomeados.
Parece que as pessoas reivindicam um prémio qualquer, não necessariamente patrimonial, de cada vez que as suas profecias apocalípticas sobre as finanças públicas se materializam. São pessoas que vivem numa constante indefinição angustiante: por um lado, querem ver as suas profecias validadas e confirmadas pelo tempo; por outro lado, não querem sofrer na pele os efeitos negativos que as suas previsões descabidas querem fazer crer.
Já toda a gente sabe que as finanças portuguesas estão degradadas; já toda a gente sabe que o Estado gere mal o dinheiro; já toda a gente sabe que há muita corrupção e desvios de dinheiros públicos e privados; mas também já toda a gente sabe que estamos em transição de modelo de especialização económica; que estamos em plena crise global. E não faria mal toda a gente ter noção de que ter casas grandes, carros ostentosos e estilos de vida luxuosos e acima da média (consigo lembrar-me de, pelo menos, uma pessoa com telhados de vidro que escusa de ser nomeada e que pode enfiar a carapuça) são muito mais prejudiciais para a dívida externa portuguesa do que aceitar que o Estado apoie os desempregados que não conseguem arranjar trabalho porque ... ele simplesmente não existe neste momento. E lá vai o patriotismo enfiado na gaveta.
A responsabilidade orçamental é como a palermice da profecia liberal: não basta clamar por ela e implementá-la nos moldes em que mais gostamos que vai fazer com que o simples estalar de dedos coloque as coisas em planos ideais. É preciso muito mais do que isso.
Já o disse e volto a dizer o mesmo: "os problemas de Portugal em competitividade, défice público e necessidade de financiamento externo de que [se] tanto fala resultam maioritariamente de um único factor: da paridade forte do Euro, que só beneficia os países grandes."
Quem defende o Euro, quem acha que temos de nos submeter ao BCE, quem pensa que temos de nos ajoelhar perante as agências de rating e os especuladores, quem julga que a Alemanha é que tem razão - em suma, quem sempre defendeu esta arquitectura monetária e quer mantê-la a todo o custo é que tem o ónus de mostrar a forma de ela funcionar correctamente. Não é possível coexistir num mesmo espaço monetário realidades tão distintas, mercados tão assimétricos, taxas de desemprego e mobilidades laborais tão afastadas e especializações produtivas tão desconectadas.
Metam isto na cabeça antes de acharem que há uma razão divina para que nós não saibamos gerir o nosso dinheiro tão bem como os outros europeus.
P.S.: Olha, parece que afinal era tudo mesmo especulativo. Tudo não passou de um susto e parece que já voltou mais ao normal.
P.S.2: Olha, parece que há uma contra-maçonaria internacionalista a funcionar em pleno. Vamos ter de ser o repositório nuclear da Europa para nos safarmos das dívidas...
Parece que as pessoas reivindicam um prémio qualquer, não necessariamente patrimonial, de cada vez que as suas profecias apocalípticas sobre as finanças públicas se materializam. São pessoas que vivem numa constante indefinição angustiante: por um lado, querem ver as suas profecias validadas e confirmadas pelo tempo; por outro lado, não querem sofrer na pele os efeitos negativos que as suas previsões descabidas querem fazer crer.
Já toda a gente sabe que as finanças portuguesas estão degradadas; já toda a gente sabe que o Estado gere mal o dinheiro; já toda a gente sabe que há muita corrupção e desvios de dinheiros públicos e privados; mas também já toda a gente sabe que estamos em transição de modelo de especialização económica; que estamos em plena crise global. E não faria mal toda a gente ter noção de que ter casas grandes, carros ostentosos e estilos de vida luxuosos e acima da média (consigo lembrar-me de, pelo menos, uma pessoa com telhados de vidro que escusa de ser nomeada e que pode enfiar a carapuça) são muito mais prejudiciais para a dívida externa portuguesa do que aceitar que o Estado apoie os desempregados que não conseguem arranjar trabalho porque ... ele simplesmente não existe neste momento. E lá vai o patriotismo enfiado na gaveta.
A responsabilidade orçamental é como a palermice da profecia liberal: não basta clamar por ela e implementá-la nos moldes em que mais gostamos que vai fazer com que o simples estalar de dedos coloque as coisas em planos ideais. É preciso muito mais do que isso.
Já o disse e volto a dizer o mesmo: "os problemas de Portugal em competitividade, défice público e necessidade de financiamento externo de que [se] tanto fala resultam maioritariamente de um único factor: da paridade forte do Euro, que só beneficia os países grandes."
Quem defende o Euro, quem acha que temos de nos submeter ao BCE, quem pensa que temos de nos ajoelhar perante as agências de rating e os especuladores, quem julga que a Alemanha é que tem razão - em suma, quem sempre defendeu esta arquitectura monetária e quer mantê-la a todo o custo é que tem o ónus de mostrar a forma de ela funcionar correctamente. Não é possível coexistir num mesmo espaço monetário realidades tão distintas, mercados tão assimétricos, taxas de desemprego e mobilidades laborais tão afastadas e especializações produtivas tão desconectadas.
Metam isto na cabeça antes de acharem que há uma razão divina para que nós não saibamos gerir o nosso dinheiro tão bem como os outros europeus.
P.S.: Olha, parece que afinal era tudo mesmo especulativo. Tudo não passou de um susto e parece que já voltou mais ao normal.
P.S.2: Olha, parece que há uma contra-maçonaria internacionalista a funcionar em pleno. Vamos ter de ser o repositório nuclear da Europa para nos safarmos das dívidas...
Presumindo que te referes, no primeiro parágrafo, a mim ou ao João, não sei quem disse o óbvio. Os nossos posts foram contraditórios, parece-me.
ResponderEliminarE o meu não é com certeza óbvio, pois é dissonante da corrente de pensamento maioritária nos media portuguses.
Presumo também que o alvo da qualificação "pseudo-liberal" seja eu. Por acaso, em Portugal e no presente estado de coisas, defendo uma tendência "liberalizante" da economia. Mas não me considero um liberal na total acepção da palavra. Portanto, desde logo não sou pseudo-...
Depois vens com a angústia. De facto vivo angustiado. Não com esse dilema que encontras no meu pensamento, mas com o facto de achar que a classe dirigente do país não está com plena consciência da nossa situação ou então não quer que o povo tenha essa consciência. O que leva ao mesmo resultado: não toma as medidas necessárias.
Não anseio por nenhuma desgraça, obviamente. Nem sequer utilizei a técnica do "eu avisei". Mas quem disse isto fá-lo legitimamente. É perfeitamente normal que quem compreendeu a situação e previu as consequências use agora esse facto para convencer os outros da forma como vê as coisas actualmente.
Depois vem o parágrafo do "já toda a gente sabe". O problema é que ainda nem toda a gente sabe que a crise global está prestes a terminar e Portugal prestes a entrar num período de estagnação económica não justificável por pressões externas.
Também uma nota para a frase "E não faria mal toda a gente ter noção de que ter casas grandes, carros ostentosos e estilos de vida luxuosos e acima da média (consigo lembrar-me de, pelo menos, uma pessoa com telhados de vidro que escusa de ser nomeada e que pode enfiar a carapuça) são muito mais prejudiciais para a dívida externa portuguesa do que aceitar que o Estado apoie os desempregados que não conseguem arranjar trabalho porque ... ele simplesmente não existe neste momento. E lá vai o patriotismo enfiado na gaveta."
Não me parece uma perspectiva correcta. O problema não está nas casas, nos carros ou nos estilos de vida. Conheço países com casas bem maiores, carros bem mais ostentosos e estilos de vida mais luxuosos e que estão de boa saúde económica(atendendo às circunstâncias, claro).
O problema existe quando essas casas, carros e estilos de vida são pagos através de financiamento externo que não se sabe se se vai poder pagar. O problema não é o consumo, que até ajuda a economia. O problema é o consumismo artificialmente alimentado a que se tem assistido.
O meu patriotismo seria enfiado na gaveta, então sim, se eu permitisse que o meu país impedisse aqueles que ganham dinheiro com o seu trabalho de, com esse dinheiro, comprarem "casas grandes, carros ostentosos e estilos de vida luxuosos e acima da média".
Numa linha discursiva agora em voga, cito Godinho - "dai ao povo capacidade de produzir" - e acrescento: dai ao povo incentivo para produzir.
Tu presumes demasiado.
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