quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

A Tragédia Grega (2)

A Grécia é um país tão ou mais euro-sulista do que o nosso. Tem imensas manipulações políticas em áreas em que tal não deveria existir, nomeadamente a Estatística Nacional. Tem um sistema municipalista e de administração local corrupto, promíscuo e recheado de nepotismo. Tem finanças públicas desorganizadas, um modelo económico completamente fordista e tem dos mais baixos e negligenciáveis investimentos em I&D e inovação tecnológica, para além de uma das mais baixas taxas de actividade feminina e uma escolaridade que só inveja a países de fora da UE.

Será então a Grécia estruturalmente igual a Portugal? As indicações a olho nu e os economistas apocalípticos parecem indicar que sim, embora a comparação tenha de contemplar o grau dessas afinidades. Mas há também razões pelas quais a comparação entre a situação pública da Grécia e a de Portugal não faça sentido. Veja-se o panorama da contabilidades Grega e Portuguesa dos últimos 10 anos, com dados que recolhi num relatório da Comissão Europeia do ano passado (e onde incluí o ano de 2009, agora que se sabem os números):


Quer-me parecer a mim que estes dados sugerem que a última década foi, em matéria de Finanças Públicas, muito pior para a Grécia do que para Portugal (lembram-se das revoltas populares de 2008 e 2009?). Argumentarão que o crescimento económico foi diferente. Certamente, mas a esse respeito há uma questão ainda mais grave: a Grécia ficou famosa por adulterar sistematicamente dados estatísticos das contas públicas e do crescimento económico, seja propositadamente seja por deficiências nos seus sistemas de informação, tal como se pode ver pelos dados que retirei de uma publicação do Eurostat feito por encomenda para aquele país:


Em que medida isto é diferente da nossa situação? Em Portugal, os políticos prometem o que acabam por não fazer, e costumam enganar-se nas previsões macroeconómicas. Mas isto é prévio ao acontecimento. Na Grécia, para além de tudo isso (que também existe), há a tradição mais grave de mentir e de esconder a veracidade das contas a posteriori, sendo que tal engodo é logo descoberto a partir do momento em que o instituto nacional de estatística grego e o Eurostat revêm as contas de um ponto de vista científico e mais exacto. Estamos a falar de manha política pura.

É por isto que a situação da Grécia é delicada e completamente diferente da Portuguesa, da Espanhola ou da Italiana. A Grécia está neste momento à parte de todo o olho financeiro mundial porque os seus anúncios políticos dos últimos anos não têm tido credibilidade nenhuma e porque o Governo anterior aplicou, sucessiva e recorrentemente, uma táctica de cosmética nas finanças públicas cuja veracidade era absurdamente capotada. É impossível confiar em anúncios políticos num sistema destes, daí a instabilidade.

E as contas públicas portuguesas, estão mesmo mal? Claro que estão. Mas a causa tem um nome: estabilizadores automáticos. Entretanto, o Prémio Cínico do dia de hoje vai para o Joaquín Almunia, da Comissão Europeia, que não admite o óbvio: que os problemas de Portugal em competitividade, défice público e necessidade de financiamento externo de que ele tanto fala resultam maioritariamente de um único factor: da paridade forte do Euro, que só beneficia os países grandes. De resto, a ele apenas temos de agradecer a sua conferência de imprensa de hoje, cuja visão apocalíptica nos causou um aumento ainda maior dos juros.

Aqui têm DUAS fortes razões para saber separar o trigo do joio: a finança mundial está mais preocupada com a Grécia do que com Portugal porque (1) eles estão de facto muito pior do que nós e (2) porque eles são uns mentirosos de primeira. A única coisa em que eles levam vantagem é que o Sócrates deles era um filósofo; o nosso é um pelintra.

2 comentários:

  1. Uma boa síntese, que vai contra as analogias efectuadas entre Portugal e Grécia. No entanto, não nos podemos esquecer da questão essencial... Estamos efectivamente mal e temos um orçamento que não se coaduna com as necessidades do país. O Governo recusa-se a admitir situação de gravidade, continuando a vender uma falsa ideia de que tudo está bem. Não podemos continuar a negar um problema tão evidente, sob pena de não serem tomadas as medidas urgentes e mais adequadas. É mesmo uma questão de responsabilidade, perante os actuais contribuintes e os futuros, pois é a estes últimos que se está a negar o futuro....

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  2. A propósito; o perfil do PM grego: http://www.ft.com/cms/s/0/5bdb412c-180d-11df-91d2-00144feab49a.html

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