O ministro Luís Amado veio trazer de novo à discussão pública a ideia de uma coligação governamental ao estilo Bloco Central.
Tenho este ministro em boa conta, desde que o ouvi numa conferência. Aliás, talvez seja o único deste governo que eu tenho em boa conta.
Mas desta vez, parece-me que revela fraca capacidade de análise política.
Porque a questão que me assola é: com estes políticos?
Quem iria representar o PSD nesta coligação? Quem iria representar o PS nesta coligação? Mesmo que se encontrasse pessoas "compatíveis", as bases destes partidos, sempre obcecadas pelo poder, iriam permitir a estabilidade necessária a uma coligação destas?

O sistema político de hoje, infelizmente, é dominado pela obsessão do poder, da obtenção do poder a curto prazo. É o problema da profissionalização da política, que nos levaria a uma discussão bem mais longa e abrangente.
Mas é claro nos dias de hoje que as bases do PSD, à frente nas sondagens, não tolerariam desbaratar esta vantagem numa coligação com o PS, que significaria assumir responsabilidade pelos sacrifícios que se vão fazer sentir de ora em diante. Por outro lado, as bases do PS, hoje bem instaladas nos organismos do Estado, não aceitariam dividir este poder com o PSD.
Acresce que, se os nossos partidos políticos não tivessem estes defeitos, não seria necessária qualquer coligação de Bloco Central. Os partidos, responsavelmente, entender-se-iam no parlamento para deixar passar as reformas necessárias e dar garantias de que o Governo não cai em breve.
Tudo isto revela a gravidade da situação portuguesa, que a nossa classe política não está em condições de resolver. Mas não se pense que é só por culpa própria! O problema é do povo português: um povo que não é exigente com os seus políticos, que tem memória curta, que gosta de joguinhos políticos e, pior, que não condena a luta pelo tacho político mas, quando surje a oportunidadezinha, corre logo atrás dele ou tenta tirar proveito.
Portanto, aquela questão acima deve antes ser: neste país?

1) Sou descrente em relação a Governos de "Salvação Nacional", que era o que, certamente, se referia o Ministro Leal Amado.
ResponderEliminarA formação de um novo governo, sem a desejável legitimidade democrática, com a justificação na urgência da solução, é, quanto a mim, uma falácia. Até porque, dificilmente haverá um consenso quanto aos eventuais "salvadores". E, por isso, não acredito que um Governo deste tipo, nas actuais condições, sobrevivesse durante muito tempo...
2) Mesmo não existindo as objecções constantes do primeiro ponto, haverá sempre um Sócrates que se mostrará sempre irredutível a deixar, pelo seu pé, o poder. E, convenhamos, um Governo de "Salvação Nacional" não se coaduna com a permanência do actual primeiro-ministro!
P.S: É claro que esta solução até conviria ao PS, pois obrigava o PSD a responder solidariamente pelas políticas deste Governo. Mas, como bem disse Nogueira Leite, José Sócrates terá mesmo que beber o cálice até ao fim.