domingo, 7 de março de 2010

PEC 2010-2013 - Os Benefícios Fiscais

Os boatos e pré-anúncios do PEC que o Governo está a tentar implementar em conluio com parte da Oposição parecem contemplar, entre outras coisas, a redução ou mesmo extinção de alguns benefícios fiscais, em especial na saúde e na educação.

Sobre os benefícios fiscais, convém ter uma análise muito crítica. O benefício fiscal não é mais do que um subsídio invertido que é atribuído a todos aqueles que apresentem documento comprovativo de um comportamento positivo que o Estado quer promover ou de abandono de um comportamento negativo que não se quer colectivamente apoiar. A verdade é que o benefício fiscal tem sido mais do que isso; cresceu muito em abrangência e inclui muita coisa em que não faz sentido a sua existência.

Vejam-se, a título de exemplo, os PPR’s. Quando alguém subscreve um plano de poupança, é certo que está a contribuir para um hábito saudável colectivo de que o país precisa como de pão para a boca. Ainda assim, o benefício principal é estritamente privado, dado que os ganhos daí decorrentes revertem apenas para o subscritor (excluindo o imposto sobre os juros, naturalmente). Pode-se afirmar que isto ajuda a resolver parte do problema da SS, mas não fará muito sentido premiar fiscalmente quem poupa para a reforma quando esse benefício será eminentemente privado.

O mesmo se passa com o material informático. Será certamente verdade que o país avança com o incremento tecnológico e com o maior acesso à informação e conhecimento, mas será a compra desse material que potenciará ganhos colectivos suficientes que justifiquem esse “desconto fiscal” ao adquirente? Aqui também não me parece justificável.

Na saúde, quer-me parecer que o caso é ainda mais gritante. Seria preferível manter e melhorar a estrutura pública de saúde, em vez de reduzir a colecta a quem recorre a esses serviços no privado. Partindo do pressuposto de que o serviço público é de qualidade e acessível a todos, prefiro muito mais pagar taxa moderadora de 25 euros no hospital público do que pagar 100 no privado e pedir reembolso de metade. É essa a via. Trabalhar neste âmbito é essencial para fazer com que as despesas privadas com saúde sejam uma escolha e não uma necessidade, e para que o benefício fiscal possa ser extinto sem penalizar quem precisa dele.

A educação é um caso mais bicudo. Os ganhos colectivos com a educação podem justificar o apoio fiscal, dado que todos acabamos por lucrar com uma sociedade mais conhecedora e bem formada, mas a realidade é que parte significativa dos beneficiários escolhem esse serviço no privado por opção livre. Só faria sentido manter o benefício se ele se aplicasse a quem escolheu o privado por necessidade, o que não aconteceria (lá está) se o público fosse real alternativa.

E a lista poderia continuar. Os juros de empréstimos bancários também não deveriam estar incluídos, exceptuando pelo facto de se permitir um alívio importante nas finanças familiares de muitos, muito embora o método devesse ser outro que não o “abate fiscal”.

É por abusos políticos desta índole que depois surgem grupos de doentes que, pelo simples facto de o serem, reivindicam abates fiscais. O Estado não pode ser uma teta de onde todos tentam sacar algum na altura de pagar a sua quota-parte. A este ritmo, o benefício fiscal ainda vai acabar por sair como brinde no Chocapic.

Eu contra mim falo, já que trabalho e desconto IRS e serei certamente negativamente afectado por ideias destas. Mas se há coisa que me caracteriza é o meu apoio da ideia de que os benefícios fiscais já extravasaram em larga medida o âmbito em que se deveriam inserir. Parecem-me positivas, portanto, as medidas pensadas neste sentido. Veremos o que se anuncia.

6 comentários:

  1. Andas durinho com os subsídios! Concordo que os subsídios, naturalmente, terão que ser revistos visto não estarmos em tempo de "vacas gordas".
    No entanto, penso que a análise em relação aos PPR's e aos juros de empréstimos bancários não é justa...

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  2. A minha visão não é circunstancial. De visões circunstanciais e conjunturais está o país farto e cheio. É uma opinião para qualquer altura, seja ela vacas gordas ou vacas magras. É um princípio, chamemos-lhe assim.

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  3. LOL. A história já nos ensinou que não existem princípios universais. A política é isto mesmo; a adopção das medidas mais indicadas para situações concretas e historicamente situadas, com vista ao bem público. Portanto, as coisas têm que ser vistas de acordo com as suas circunstâncias e, por isso,não devemos levar a coerência lógica como objectivo último de qualquer política. O político tem que ser umas vezes raposa, outras leão. É essa uma das lições d'O Príncipe de Maquiavel. P.S:Não é só o Rangel que lê "O Príncipe"! lol

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  4. Adenda: E eu a pensar que era mais liberal que tu... Afinal, tu é que és um Liberal!

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  5. Antes fosse lol! Na verdade esta é uma matéria em que alguma esquerda e a direita liberal convergem.

    Na medida em que os benefícios fiscais são sobretudo úteis para quem tem mais recursos (já que pressupõem que se tenha capacidade de fazer um gasto prévio para ser deduzido), introduzem alguma regressividade no imposto e prejudicam os cidadãos com menor poder de consumo.

    O "rico", ao deduzir as suas despesas de saúde, está a "retirar" receita fiscal ao Estado, que assim não a pode utilizar na melhoria do serviço público.

    Por isso, esta esquerda tende a advogar a prestação directa de serviços em detrimento de um sistema de deduções/BFs.

    Neste sentido, alguns links para as opiniões de:

    Francisco Louçã:
    http://www.esquerda.net/index.php?option=com_content&task=view&id=13405&Itemid=130

    Vital Moreira:
    http://causa-nossa.blogspot.com/2006/04/para-reduzir-o-dfice-das-contas_22.html
    http://causa-nossa.blogspot.com/2005/09/repor-benefcios-fiscais.html

    E mais ao centro, o Saldanha Sanches está entre os que defendem que "o mais lógico era eliminar todos os benefícios fiscais"

    No fundo, é a ideia de que as despesas que devem ter ajudas do Estado devem ser subsidiadas directamente, e não através de benefícios, para evitar distorções.

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  6. Obrigado, Manel. É isso.

    No limite, a eliminação do benefício fiscal até pode ser encarada como uma redução de despesa pública. Basta ver o problema de um outro prisma.

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