segunda-feira, 8 de março de 2010

PEC 2010-2013 - As Privatizações

As privatizações são sempre temas quentes, e devem ser vistas caso a caso. A minha opinião, um pouco à pressa, sobre a carteira do Estado, incluindo a ParPública:

- A RTP poderia perfeitamente ser desmembrada e vendida parcial ou integralmente. O seu valor nominal é de cerca de 950 milhões de euros, mas duvido que alguém pague mais do que o valor simbólico de 1 euro por uma empresa que, ano após ano, vive à custa do dinheiro estatal para ficar à tona. Se não for privatizada (e não o será), poderia perfeitamente ser proibida de transmitir publicidade em todo o Grupo, quer na TV quer na rádio, e de beneficiar de taxas do audiovisual, para que se pudesse dessa forma aumentar a concorrência nos generalistas com um novo canal e simultaneamente acabar com o buraco financeiro em que se encontra, recheado de risco moral e de gastos abusivos.

- A TAP também poderia ser privatizada, ainda que corressemos o risco de deixar de ter a transportadora a falar português a prazo. A TAP está a perder a corrida do mercado sul-americano para a parceria British Airways-Iberia e, à semelhança de muitas empresas com participação estatal, só dá prejuízos e é mal gerida. Muitos contribuintes desconhecem que a TAP só ainda não foi ao fundo porque todos os anos beneficia de injecções de capital das Finanças Públicas. Este caminho é insustentável e pode deitar muito a perder para a transportadora em termos de estratégia de sobrevivência. Mais vale vender enquanto vale alguma coisa.

- Pelo contrário, a ANA não deverá ser privatizada uma vez que se trata de uma organização que gere infraestruturas que não existem em qualquer esquina. A solução second-best (e a melhor de todas) é a regionalização da gestão aeroportuária. No caso concreto, o aeroporto Francisco Sá Carneiro tem perdido imenso devido, precisamente, à gestão centralista, interesseira e servilista da ANA. Já que se corre o risco de ser constantemente instrumentalizada, mais vale ser desmembrada, extinta e dividida em sectores regionais autonómicos. Quanto mais não seja, vale pela concorrência.

- As participações na EDP (20%), Galp (7%) e REN (49,9%) são demasiado pequenas para fazer influência seja do que for. O erro já foi feito aquando da privatização do sector energético nos últimos anos, mas talvez por isso devam permanecer na alçada do Estado, já que permitem encaixes de alguns milhões em dividendos. Daí que a venda destas tem de ser ponderada porque tem cheiro de ser mau negócio. Depois de vender, não há volta atrás.

- Privatizar os CTT é asneira, quanto mais não seja pela ideia absurda de tornar privado um mercado que, por enquanto, é monopólio natural. Pior do que um monopólio público é um monopólio privado. Mesmo que dê muito dinheiro.

- Privatizar qualquer parte da CGD, mesmo que apenas a área seguradora, é ridiculamente despropositado. Para além de possibilitar dividendos interessantes a cada ano, o mecanismo actual da CGD (quer na banca, quer nos seguros) é um que agrada a socialistas e a liberais. Ter um banco público a disciplinar e a actuar sobre a concorrência é bem mais eficaz e seguro do que deixar a banca privada e bem solta para que precisemos de andar atrás dela a qualquer asneira que aconteça (vide BCP, BPN, BPP, etc...).

A venda de todas aquelas participações secundárias existentes na carteira acessória do Estado, fruto das entregas em dação em pagamento de dívidas fiscais, pode não dar muito dinheiro mas certamente que simplifica e desresponsabiliza participações completamente desnecessárias.

Tudo isto são questões sensíveis, mas devem ser ponderadas. Ainda assim, não deverão ser o principal: as privatizações resolvem no momento uma situação de aperto e de necessidade de receita, mas perdem em participações estratégicas, sustentabilidade de certos sectores, monopólios privados e eventuais dividendos financeiros. O importante não parece estar na receita, mas sim na despesa. Não é a privatização que traz o equilíbrio pretendido, mas pode ajudar nesse sentido.

7 comentários:

  1. Estou assustado :/ Ou o Luís Oliveira realmente está a guinar pró lado liberal ou sou eu que me estou a tornar esquerdalho sem notar lol

    Subscrevo a 100% tudo o que foi dito nestes 2 últimos posts. Bravo!

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  2. A responsabilidade orçamental não deve (não pode!) ser um desejo único de certo eleitorado. Tem de ser de todos e não é incompatível com nenhum deles.

    Por isso, não cantem vitória, caros amigos da JSD. Ainda não foi desta que fiquei evangelizado!

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  3. Essa é boa lol. Ainda que estejas em processo de conversão, dificilmente isso seria "vitória" da jota laranja ;p

    De facto, em termos de responsabilidade orçamental e liberalismo as laranjas têm de ser elas próprias evangelizadas muito antes de irem pregar a outras frutas ;P

    Acho que os estudos do Professor Ricardo Reis exemplificaram bem o que foram verdadeiramente os "anos dourados" da "responsabilidade orçamental" de governos PSD.

    E de resto basta ver os 3 actuais candidatos, para perceber que no partido haverá poucas ideias consensuais e identitárias, e, havendo-as, dificilmente serão essas.

    Vejam-se os factos: o gordo comicieiro é centralista e estatista; o Ken já em várias ocasiões deixou passar a ideia de liberal "ma non troppo" e o aristocrata tripeiro, em termos programáticos, soube manter-se magistralmente num sebastiânico nevoeiro.

    Essencialmente, em Portugal, liberalismo é coisa de blogues. E a "responsabilidade orçamental" só vai além do jargão de soundbyte nos programas e artigos da nova Brigada do Reumático (Silva Lopes, Medina Carreira, Ernani Lopes e outros velhotes dessa estirpe rara).

    A grande vantagem é que sobra sempre espaço para mais um ;p

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  4. Bem vindo de volta à racionalidade, Luís André! :p (se bem te conheço, esta afirmação vai ter efeitos contra-producentes lol)
    Também tenho que apluadir os 2 últimos posts.
    Quanto a este último, só tenho opinião diferente quanto à REN e à CGD.
    Não sou grande conhecedor do nosso sistema energético, mas parece-me que ainda é cedo para ceder a posição do Estado na empresa que gere a rede eléctrica. Devíamos esperar pelo amadurecimento da concorrência entre as empresas que usam os serviços da REN: EDP, Iberdrola, Endesa (não sei se há mais).
    Quanto à CGD, o seu sempre mencionado papel regulador também tem um verso da medalha: é que essa função de regulação é feita de forma pouco transparente. A CGD não é uma instituição destinada a regular coisa nenhum. O papel regulador da CGD advém mais do seu poder de mercado do que de qualquer legitimidade democrática. Nomeadamente, não está sujeito a quaisquer princípios de Direito Público e Administrativo.
    Poderão dizer que os administradores são nomeados pelo Governo e daí advirá alguma legitimidade democrática indirecta, mas o estatuto deles não tem nada a ver com o dos titulares das entidades reguladoras. Esses administradores estão obrigados a seguir o interesse da empresa e não o do povo português. E depois estão à mercê do poder político, que tanto os pode nomear como destituir livremente.
    Em resumo, parece-me muito poder com poucas garantias de controlo para se ver a CGD como a guardiã do nosso sistema financeiro.

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  5. Pelo contrário, Luís.

    Os casos BPN e BCP vieram a demonstrar que, para o bem e para o mal, a CGD é efectivamente "guardiã do sistema financeiro" lol. E esse papel é possível precisamente pela sua natureza empresarial: não está sujeita aos limites, procedimentos e controlos que dificultam intervenções directas do MFinanças ou do BdP, por exemplo.

    Isto tem aliás permitido escudar o "Banco do Estado" da ânsia privatizadora de todos menos os mais convictos liberais. O PPC por exemplo parece ter posto este assunto na gaveta lol. E é precisamente pelo facto de a Caixa ser um poderoso instrumento de intervenção para "casos de necessidade".

    Os dividendos da Caixa nem são propriamente entusiasmantes; vejam-se os números:

    Em 2008, a CGD entregou mais de 300 milhões de euros em dividendos ao Estado; em 2009, com lucros de 278,9 milhões, entregou 250 milhões aos cofres públicos.

    Isso é a "cara"; esta é a "coroa":

    Só em Fevereiro deste ano, foi anunciado um (mais um) aumento de capital da Caixa, estando prevista no Orçamento uma dotação de até 1.585,8 milhões de €. Aconteceu algo de semelhante em anos anteriores.

    E num interessante artigo no Diário Económico de há algum tempo, está sucintamente explicada a natureza destes valores:

    "Porquê tirar com uma mão (os dividendos) e dar com a outra (através de um aumento de capital)? Em termos corriqueiros há quem lhe chame maquilhar ou varrer o défice para debaixo do tapete. Em termos técnicos, a transferência de dividendos da Caixa para o Estado faz engordar as receitas do Orçamento e, logo, baixar o défice. Já um aumento de capital da CGD, embora financiado pelo Estado (dono e senhor da Caixa, com 100% do capital) não entra para as despesas, e conta apenas para efeitos de endividamento do Estado. Conclusão: o governo consegue baixar o défice e transfere os encargos (os juros da dívida) para mais tarde."

    in: http://economico.sapo.pt/noticias/querida-encolhi-o-defice_82095.html

    A CGD é no fundo a pedra de toque na desorçamentação e engenharia financeira do Governo!

    PS: esta frase "Esses administradores estão obrigados a seguir o interesse da empresa e não o do povo português. E depois estão à mercê do poder político, que tanto os pode nomear como destituir livremente",

    Depois de tudo o que sabemos sobre a actuação da CGD e do que acontece em empresas supostamente muito mais independentes, como a PT do Rui Pedro Soares, o BCP do Armando Vara, a Mota Engil do Jorge Coelho, a Ongoing, a Controlinveste, etc... pah a frase é exageradamente ingénua xD

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  6. A CGD não é o único meio de salvar bancos em apuros. Os EUA não têm nenhuma CGD e salvaram bancos e seguradoras. Com a diferença de que o fizeram através das entidades correctas, instituições públicas.
    Quanto à ingenuidade da minha afirmação, não misturemos as coisas. Se o Governo tem influência no BCP, Mota-Engil etc e usa essa influência de forma censurável, está a agir mal. Já o Governo que designa e destitui livremente administradores da CGD não está a fazer nada de mal, a partir do momento em que se reconheça que a CGD é essencialmente uma extensão do poder regulador do Estado no sistema financeiro; o que torna o cargo de administrador dessa "empresa" um cargo político, sob a confiança do Governo.

    Note-se que a tua afirmação de que a CGD é um instrumento de desorçamentação e engenharia financeira do Governo, um fenómeno já conhecido, só me vem dar razão. Muito poder, sem garantias da sua correcta utilização.

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  7. Eu acho que percebeste mal, Luís. Eu NÃO quero que a posição na REN seja vendida. Olha lê lá outra vez. Aliás, continuo a achar que a energia deveria estar toda nas mãos do Estado, mas o erro já está feito, né?

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