terça-feira, 26 de janeiro de 2010

A agridoce lição que tardou em chegar

Se há coisa que me deixou extremamente contente nos últimos anos foi a ascensão da China como potência comercial e financeira, pois foi tal facto que iniciou um processo (ainda em decurso) de exonerar os EUA do papel de "máximo poder mundial".

O porco imperialista anda com a conversa da "freedom para aqui" e "freedom para acolá" como se de uma estratégia universal e unidimensional se tratasse, desde que o seu ego cresceu na queda do Muro de Berlim. Tem sido apanágio dos EUA seguir um caminho de delinear um caminho global que o Mundo terá de seguir, ajoelhado a seus pés, como única solução para o progresso da Humanidade. É, de resto, o maior problema norte-americano: a ideia de que detêm o conhecimento e a autoridade para impôr ao resto do Mundo o que bem lhes apetece e o que mais os caracteriza, ignorando as idiossincrasias culturais e os diferentes caminhos que os diversos países desejam percorrer, achando-se como reis auto-nomeados.


Talvez por isso tenha adorado o ar choramingas da Google quando ameaçou a saída do mercado chinês se a censura estatal e os [supostos] ataques cibernéticos não parassem. Fez-me lembrar aqueles miúdos mal habituados que partem uma jarra valiosa em casa das outras pessoas, mas que têm o poder de pedir aos papás e às mamãs (Obama e Clinton) para lançarem achas para a fogueira e estarem ao seu lado na defesa dos seus interesses pessoais, e contra os donos da jarra partida. É comicamente curiosa esta inversão do conceito de soberania e de propriedade privada por parte dos EUA: desde cedo, fizeram-nos crer que na casa dos outros manda quem lá está, mas algures a meio do caminho a coisa deu volta de 180º e só serve para o que lhes interessa. Bill Gates concorda comigo, ainda que possa ter o seu interesse pessoal nesta tramóia toda.

Os EUA advogam um modelo político-económico-social de sol na eira e chuva no nabal. Advogam para os outros o que nem eles sabem respeitar, e usam depois conceitos de "freedom" como hipocrisias dantescas mascaradas pela sua avidez de lucro e pelo saudosismo das eras da sua dominação agora esgotadas. Não é por isso estranho que toda esta questão levante azia em muita gente.

A coisa vai ainda mais longe. Se fossemos realmente a avaliar a "freedom" que os EUA tanto advogam, ficaríamos chocados com os atentados à "freedom" que os EUA fazem dia após dia, não só aos seus cidadãos mas também ao resto do Mundo. Aqui, Guantanamo é o exemplo-mor, mas a chachina indígena que ocorreu aquando da ocupação daquele território é bem capaz de ser a melhor referência. Quem tem telhados de vidro não deve arremessar pedras, sob pena de ficar sucessivamente mais descredibilizado.

É por isso que eu gosto tanto da República Popular da China. A República Popular da China usou o modelo mercantilista que os países anglo-saxónicos utilizaram como modo de enriquecer à custa dos outros de uma forma puramente selvagem e desregrada. E é aqui que nasce a genialidade do seu modelo: a ironia de o Governo da China se instituir numa estrutura estatizante e autoritária, de cariz comunista ortodoxo, mas com adesão ao capitalismo mais selvagem, mais clássico-industrial e mais beggar-thy-neighbour que o Mundo viu desde a Era Vitoriana. A China virou o feitiço contra os feiticeiros, dando aos anglo-saxónicos o sabor de ser dominado, de acatar ordens e de se ajoelharem perante quem tem a faca e o queijo na mão. Reino Unido e EUA estão a saborear os dissabores do capitalismo que nunca sofreram mas que sempre impuseram aos outros. Foi preciso chegar a este ponto, mas felizmente aconteceu.

As voltas que o Mundo dá são, de facto, brilhantes. A acção dos EUA pelo mundo fora, no seu imperialismo nojento, não são mais do que a versão antípoda do Trotskismo e da sua tese da "Revolução Permanente" instaurada numa espécie de contínua dominação e disseminação de uma mensagem internacionalista de submissão e de respeito pelos valores capitalistas, auxiliada pela propaganda hollywoodesca do sonho americano, da guerra santa ao terrorismo e da submissão cega à bandeira em gestos e obsessões patriotas que fazem lembrar os regimes ditatoriais da 2ª Guerra Mundial contra quem eles combateram e em quem depositam tanto insulto e repúdio.

Por isso, digo: China, cresce, cresce, cresce e impõe respeito a quem precisa de baixar a bolinha. Imponham-se, pois ninguém manda em vocês.


"We urge the U.S. side to respect facts and stop using the so-called freedom of the Internet to make unjustified accusations against China", do porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China

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