domingo, 31 de janeiro de 2010

A Tragédia Grega (1)

Na passada terça-feira, a Grécia lançou 5 mil milhões de euros em obrigações do Tesouro para fazer face aos seus compromissos de passivo, postecipando parte da sua dívida nesse montante. A procura excedeu a oferta em 4 vezes. (!) Afinal de contas, toda a gente tem fé na Grécia e na sua capacidade de fazer face aos seus compromissos financeiros. Então, para quê tanto circo em torno da “tragédia grega”?

As agências de rating, os abutres do sistema financeiro mundial, têm feito anúncios decadentes sobre a perigosidade da dívida grega, e agora já se percebe porquê: as notícias apocalípticas por parte dos “especialistas” não servem mais do que alimentar a pressão dos juros dos Estados Soberanos, remunerando ainda mais aqueles que lhes emprestam dinheiro. A prova disso mesmo está na enorme adesão aos títulos da dívida grega, não obstante os tais anúncios de gravidade. Claramente, alguém está a lucrar obscenamente com tudo isto.

Vem isto a propósito da Moeda Única. Desde sempre me opus ao Euro porque me parece construído num sistema ridículo, que ignora os choques e tendências assimétricos dentro da União, e age como se não houvesse fronteiras institucionais que demarcassem a soberania dos Estados. O Euro está construído para beneficiar a Alemanha, a Holanda e a França, na medida em que foi desenhado para lhes potenciar as exportações e os correspondentes superavits à custa de uma paridade única que prejudica sistematicamente os países mediterrânicos e periféricos.

A posição da UE é, mais uma vez, terrorista. Primeiro, constrói-se um sistema neomonetarista completamente errado e desajustado da realidade, à revelia de todas as concepções macroeconómicas vigentes, beneficiando filhos e prejudicando enteados. Depois, proíbem-se os défices orçamentais que são espontâneos, naturais e consequentes dessa mesma paridade estabelecida. Por fim, proíbem-se também os bailouts a qualquer estado soberano. É um autêntico casaco-de-forças. E o pior de tudo, é voluntário. Acontece é que, hipocritamente, já se está a pensar seriamente em fazer um bailout à Grécia, destruindo a já tão baixa credibilidade que o sistema europeu já tem.

São alturas como estas em que sabemos que este Euro e esta União Europeia são autênticos atentados à nossa soberania e só nos prejudicam seriamente.

7 comentários:

  1. Uma pergunta crucial é: que juro aceitou a Grécia pagar para aceitar esses empréstimos?

    A resposta é: 350 pontos base acima da taxa de referência!

    Ou seja, a Grécia encontrou de facto muita gente disposta a emprestar-lhe muito dinheiro - mas apenas porque aceitou pagar um juro extravagantemente elevado por esse empréstimo.

    E sobre a UE: tens ideia de como estariam hoje os ratings dos PIIGS se as Chancelarias europeias não andassem a apregoar aos 4 ventos que iriam "provide whatever assistance is appropriate"?

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  2. Não, não é.

    A resposta crucial é: a Grécia pagou aquilo que a obrigaram a pagar. Primeiro, fazem anúncios para disparar o juro; depois emprestam o dinheiro. A prova de que tudo isto são movimentos especulativos privados está no facto de que na 5ª feira o diferencial face aos títulos alemães já ia em 395 pontos base e a subir para os 400. Não te parece lógico que, perante tanta procura na 3ª feira, o diferencial teria tendência a esbater-se?

    Ainda não consigo perceber a dificuldade em admitir que este sistema actual é demasiado óbvio em roubos desta natureza. Se eu meti dois links sobre os pontos base não foi porque ficavam bem no texto. Foi porque a ligação natural que se pensa existir ... não existe.

    Se o sistema funcionasse como deve ser, ou seja, se a "Chanchelaria Europeia providenciasse a assistência necessária", em adição ao desajustamento oferta-procura que existiu, então o juro e o rating baixariam imediatamente, por via da redução do risco. Viste isso? É que eu vi o contrário.

    De resto, a tua última frase nem sequer faz sentido. Em primeiro lugar, essa expressão era proibida na UE até à semana passada. E depois, foi a própria UE e o seu SME que levaram à degeneração do rating dos PIGS na última década. E agora vêm-me eles com uma promessa de bailout a um Estado, numa tentativa ridícula de salvar uma moeda que não tem salvação possível, pelo menos nestes termos. Estes rumores, para além de destruírem a credibilidade dos anúncios de não-bailout para sempre, prejudicam seriamente o futuro da União Monetária.

    E quanto aos PIIGS, sabes que mais? Os PIIGS só o são porque as pessoas não sabem distinguir o que é distinto. A prova disso é que, antes de serem PIIGS, eles eram apenas PIGS, e antes disso mesmo nem se colocavam todos no mesmo saco porque não é tudo a mesma farinha.
    Agora é a minha vez: tens ideia de como o Euro se está a desmembrar aos poucos com estas patetices todas, desde o início até hoje?

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  3. 1: Claro que não. O diferencial só tenderia a esbater-se se os mercados interpretassem essa alta procura como um reconhecimento de credibilidade à Grécia. Não foi. Houve muita procura só porque eles estão dispostos a pagar muito.

    2: Quando se avalia se alguém está em risco de contrair doença, avalia-se esse risco independentemente de haver um médico na vizinhança. Quando muito isso conta para medir a dimensão da gravidade que pode atingir.

    3: Expressão proibida na UE? O BCE é que veio dizer que os mercados estavam iludidos se achavam que a UE ia ajudar a Grécia e que esta estava "por sua conta". Mas logo a Merkel veio dizer que na moeda única há uma responsabilidade comum. E no final os políticos puseram os contabilistas no seu devido lugar: a UE promete apoio total a Atenas.

    4: Foi a UE que levou à degeneração do rating dos PIGS? Essa é boa, parece um discurso de Sócrates: a culpa não é nossa, não fomos irresponsáveis com as contas, foram os estrangeiros! lol

    5: Sim o euro está a cair por causa disto. Mas sabes porquê? Porque é uma moeda que tem mais de política que economia. Se se seguisse a visão económica, mandava o BCE: deixava-se a Grécia à sua sorte, se aquilo rebentasse tiravam-na do euro e a moeda iria feliz cantando. Felizmente o espírito da União não se mede em números. Os contabilistas que voltem às continhas e deixem as decisões políticas para os representantes eleitos dos Povos da União.

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  4. Olá João :) Às vezes dá-me pra vir chatear lol

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  5. Oh Manel, francamente. Continuas com o mesmo hábito de escrever sobre aquilo que não sabes, sem medo das imprecisões atrás de imprecisões? Pronto, eu explico-te tudo outra vez, pontinho por pontinho, tal como tu organizaste.

    1) Errado. O diferencial esbater-se-ia a partir do momento em que a procura de títulos fosse muito muito muito maior do que a oferta. Foi o caso. Nestas circunstâncias, o juro baixaria logo de seguida. Não aconteceu.
    Nas condições da titularização pública, a Grécia poderia ter pago um juro mais baixo, de 3, 4 ou 5% e teria conseguido investidores.
    Por que razão então a Grécia pagou um juro mais alto? Porque queria atraír investidores e pensou que haveria pouca adesão graças aos avisos de rating e graças ao sensacionalismo apocalíptico dos media. Mas claramente não precisava de o fazer. Um preço/juro/prémio mais baixo chegaria perfeitamente e contagiaria imediatamente os restantes mercados. Com tanta palhaçada, perderam todos, menos os capitalistas que conseguiram um negócio da China.

    2) Impreciso. O risco que se avalia não é o de contrair uma doença, mas sim o de degenerar a saúde no seguimento do agravamento da doença, eventualmente com a morte. Doenças todos temos, tal é a quantidade de ameaças externas ao organismo. O que conta não é as vezes que ficas doente ou as doenças que te atingem, mas os recursos disponíveis para os tratamentos e o modo de enfrentar essas doenças. Ter um médico por perto ajuda a probabilidade de sobrevivência. Nunca to disseram? Em que estavas a pensar quando meteste essa comparação?

    3) Desconhecimento. Claramente, não conheces o documento público sobre Política Monetária na UE, caso contrário não terias dito o disparate que escreveste neste ponto. Se quiseres discutir os bailouts internos, a proibição de monetização da dívida, a suposta "responsabilidade comum", o apoio aos Estados-Membros e por aí fora, tens de saber do que falas. (dica: site do BCE)
    E, já agora, a decisão de "cada um por si" tem muito menos de contabilístico ou de BCE do que tu pensas.

    4) Desconhecimento(x2). Não tenho culpa que não percebas de política económica. Se queres que te explique para não teres de ir à wikipédia como costumavas fazer das outras vezes que aqui comentavas, então vais ter de esperar que faça um post sobre isso, ou fazer uma pesquisa no Google. You might feel lucky.

    5) Desconhecimento(x3)/Ignorância/Pequenez mental. É muito triste não saber a diferença entre um Contabilista, um Economista ou um especialista em Finanças. Nada posso fazer quanto a isso. Lamento.
    Sabes uma coisa? De boas intenções está o Inferno cheio. É muito bonito dizer que a Política se sobrepõe à Economia e que a União não se mede em números; mas se tiveres um sistema que não funciona, podes ter a melhor intenção do mundo e terás a certeza de que não te serve de nada. Sinceramente, que raio de parágrafo hippie que aí meteste.

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  6. "Oh Manel, francamente. Continuas com o mesmo hábito de escrever sobre aquilo que não sabes, sem medo das imprecisões atrás de imprecisões?"

    Ad hominem. Não traz nada de útil à discussão.

    1 - http://www.businessweek.com/news/2010-01-27/greece-wooing-china-to-buy-eu25-bln-of-bonds-ft-says-update1-.html

    "Papandreou’s government sold 8 billion euros of five-year notes this week, attracting orders worth 25 billion euros. International investors bought almost 75 percent of the securities, the nation’s debt-management agency said today (...) The structural problems in the country are still in place and investors are looking for more confidence,” said Axel Blase, a fund manager in Frankfurt at Invesco Ltd., which oversees about $423 billion in assets. “It takes time for confidence to build up.”

    Olha-me só estes imprecisos da Businessweek que dizem que lá porque a Grécia consegue financiar-se a preços astronómicos isso não implica automaticamente um aumento estável da confiança nos Mercados.

    2- Óbvio. A Grécia vai sobreviver, nem que a UE/o médico tenha de intervir. Mas isso não a vai impedir de precisar de "internamento hospitalar", o que, decerto reconhecerás, sempre é mais nocivo do que só precisar de aspirinas.

    3 - O apoio aos Estados-Membros decide-se politicamente assim: http://uk.news.yahoo.com/22/20100129/tbs-uk-greece-7318940.html e tem os seguintes impactos:

    "Assurances by EU officials over Greece initially calmed markets on Friday, but uncertainty later returned.The cost of insuring Greek government debt against default fell to 396,000 euros per 10 million of exposure from a record high of 422,500 on Thursday, according to the five-year credit default swap prices from CMA DataVision (...) Media reports that the EU was studying ways of helping Greece have fuelled market speculation that the euro zone would step in eventually if Athens was unable to service its debt, which has risen to about 120 percent of GDP"


    4 - ad hominem e não rebate o ponto. Mantenho-o. Wikipedia lol? Só para estruturação de ideias. Para a sua formação gosto de ir aqui: http://www.cato.org/ e aqui http://mises.org/. Mas admito que sejam sites que para ti, que confundes saber com opinião, nada percebem de economia lol.

    5 - ad hominem e incapacidade de perceber a ironia de exagero ao chamar "mero contabilista" ao Jurgen Stark nesta matéria. Um conselho: tira por breves momentos os olhos das folhas excel do BCE e vai ler a Declaração de Schuman e talvez percebas o que quero dizer com a importância política da união, coisa a que chamas "hippie".

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