
De cada vez que Cavaco abre a boca, há sempre um risco significativo que tal corra mal. Seja ao comer bolo-rei, seja a evidenciar a sua imensa e aparente infindável falta de cultura geral e conhecimento. Ainda hoje não consigo perceber como é que um homem destes consegue chegar a Presidente seja do que for, mas avante... essa é outra conversa.
Acho que há demasiada desinformação sobre a questão da dívida e um Presidente digno desse nome deveria, no mínimo, contribuir para diluir a mentira e repôr verdade no debate.
Comecemos assim: a posição de Dívida Externa Portuguesa não é muito diferente da dos restantes países europeus. Se isto não é argumento para justificar despesismo (e eu não o disse que era), há dois pontos que convém reter.
O primeiro é o de que a dívida externa é, grosso modo, o montante total de financiamento contraído por um país relativamente ao exterior. Portugal, pela sua dimensão e pelo seu carácter pouco propenso a poupanças, é um devedor por excelência.
O segundo é o de que (atente-se) há dois tipos de dívida externa: a líquida e a bruta. De um ponto de vista bruto, a dívida externa portuguesa anda pelos 367.483 milhões de Euros (Banco de Portugal, 31 de Dezembro 2009), o que equivale a cerca de 220% do PIB. No entanto, uma visão contabilística correcta obriga sempre a contrastar o passivo (dívidas) com o activo (haver). Nesta matéria, a dívida externa líquida obtém-se subtraindo a dívida bruta (os tais 367 mil milhões) aos activos que Portugal tem perante o exterior. Feitas as contas, a dívida externa líquida tem o mesmo valor do PIB, essencialmente ela por ela - 165 mil milhões de Euros.
Conclusões?
Bom, em primeiro lugar, ter uma dívida externa 100% do PIB não é convidativo nem agradável, é verdade. Mas também não é um descalabro, especialmente se estamos num contexto recessivo em que qualquer posição devedora nacional tem tendência para piorar.
Por outro lado, o facto de termos uma dívida externa igual ao PIB não é assustador - não é verdade que tenhamos de pagar, no espaço de um ano, o que devemos ao exterior.
Os 100% de dívida externa líquida são apenas um referencial usado pelas instituições internacionais como benchmark para avaliação das contas públicas. É um nível que pretende ser mais um alerta de nível disciplinador do que um anúncio de catástrofe.
Se 200% de dívida bruta fosse preocupante, o que seria da Irlanda, que tem 1267%? E do Reino Unido, que tem 400%? E da Suíça, que tem quase 500% graças à sua especialização em alojar e manobrar capitais exteriores? Esses são o TOP3. Ide ver os restantes. Não é por acaso que estão lá os países da OCDE. Notarão coincidências, certamente: a culpa da dívida é da nossa teimosia em ter hábitos de consumo e de padrão de vida que estão acima do nosso rendimento/produção; pouco ou nada tem a ver com este Governo, este PM ou o apoio social público.
A questão em torno da dívida é esta: se querem mesmo baixá-la, estão a olhar para o responsável errado. O Estado é o suporte social na crise. Para baixar a dívida, é fácil: basta parar de dar créditos à habitação e ao consumo, pedir (=exigir) aos portugueses que abdiquem dos seus ímpetos consumistas e cedo começamos a reverter a situação. Se cada um de nós poupasse mais e se o crédito fosse canalizado para investimento à produção, a dívida existiria na mesma, o destino dos capitais é que seria diferente (e, diga-se, mais adequado).
Esse é que é o cerne da questão. Subam-se os salários, valorize-se o trabalho tal qual ele merece e cedo veremos os hábitos de poupança a se restabelecerem, para que não precisemos de ir lá fora buscar o dinheiro que não poupamos cá dentro.
Triste, triste é termos um PR chamado Cavaco que tem todas as condições para cascar no PM, seja pela tristeza dos Magalhães, pelos negócios ilícitos, pela licenciatura duvidosa, pelo favorecimento ao grande capital ou pelo centralismo excessivo. E em vez de criticá-lo e discipliná-lo por tudo isso, opta pela via demagógica que excita os liberais e culpa-o por coisas da qual nem ele nem ninguém em particular tem responsabilidade.
Haja juízo.
Acho que há demasiada desinformação sobre a questão da dívida e um Presidente digno desse nome deveria, no mínimo, contribuir para diluir a mentira e repôr verdade no debate.
Comecemos assim: a posição de Dívida Externa Portuguesa não é muito diferente da dos restantes países europeus. Se isto não é argumento para justificar despesismo (e eu não o disse que era), há dois pontos que convém reter.
O primeiro é o de que a dívida externa é, grosso modo, o montante total de financiamento contraído por um país relativamente ao exterior. Portugal, pela sua dimensão e pelo seu carácter pouco propenso a poupanças, é um devedor por excelência.
O segundo é o de que (atente-se) há dois tipos de dívida externa: a líquida e a bruta. De um ponto de vista bruto, a dívida externa portuguesa anda pelos 367.483 milhões de Euros (Banco de Portugal, 31 de Dezembro 2009), o que equivale a cerca de 220% do PIB. No entanto, uma visão contabilística correcta obriga sempre a contrastar o passivo (dívidas) com o activo (haver). Nesta matéria, a dívida externa líquida obtém-se subtraindo a dívida bruta (os tais 367 mil milhões) aos activos que Portugal tem perante o exterior. Feitas as contas, a dívida externa líquida tem o mesmo valor do PIB, essencialmente ela por ela - 165 mil milhões de Euros.
Conclusões?
Bom, em primeiro lugar, ter uma dívida externa 100% do PIB não é convidativo nem agradável, é verdade. Mas também não é um descalabro, especialmente se estamos num contexto recessivo em que qualquer posição devedora nacional tem tendência para piorar.
Por outro lado, o facto de termos uma dívida externa igual ao PIB não é assustador - não é verdade que tenhamos de pagar, no espaço de um ano, o que devemos ao exterior.
Os 100% de dívida externa líquida são apenas um referencial usado pelas instituições internacionais como benchmark para avaliação das contas públicas. É um nível que pretende ser mais um alerta de nível disciplinador do que um anúncio de catástrofe.
Se 200% de dívida bruta fosse preocupante, o que seria da Irlanda, que tem 1267%? E do Reino Unido, que tem 400%? E da Suíça, que tem quase 500% graças à sua especialização em alojar e manobrar capitais exteriores? Esses são o TOP3. Ide ver os restantes. Não é por acaso que estão lá os países da OCDE. Notarão coincidências, certamente: a culpa da dívida é da nossa teimosia em ter hábitos de consumo e de padrão de vida que estão acima do nosso rendimento/produção; pouco ou nada tem a ver com este Governo, este PM ou o apoio social público.
A questão em torno da dívida é esta: se querem mesmo baixá-la, estão a olhar para o responsável errado. O Estado é o suporte social na crise. Para baixar a dívida, é fácil: basta parar de dar créditos à habitação e ao consumo, pedir (=exigir) aos portugueses que abdiquem dos seus ímpetos consumistas e cedo começamos a reverter a situação. Se cada um de nós poupasse mais e se o crédito fosse canalizado para investimento à produção, a dívida existiria na mesma, o destino dos capitais é que seria diferente (e, diga-se, mais adequado).
Esse é que é o cerne da questão. Subam-se os salários, valorize-se o trabalho tal qual ele merece e cedo veremos os hábitos de poupança a se restabelecerem, para que não precisemos de ir lá fora buscar o dinheiro que não poupamos cá dentro.
Triste, triste é termos um PR chamado Cavaco que tem todas as condições para cascar no PM, seja pela tristeza dos Magalhães, pelos negócios ilícitos, pela licenciatura duvidosa, pelo favorecimento ao grande capital ou pelo centralismo excessivo. E em vez de criticá-lo e discipliná-lo por tudo isso, opta pela via demagógica que excita os liberais e culpa-o por coisas da qual nem ele nem ninguém em particular tem responsabilidade.
Haja juízo.
Que foto de mau gosto!
ResponderEliminarAgora que li o texto, vou comentá-lo.
ResponderEliminarDesde logo noto que começa o seu primeiro parágrafo na mesma linha inaugurada pela fotografia. Considerações motivadas por um sentimento de ódio exacerbado, resultando num ataque ad hominem.
Em segundo lugar, no que diz respeito à comparação da nossa dívida com a de outros países, cabe dizer que não interessa só a dimensão actual da dívida, mas também a sua evolução recente, que tem sido de acentuada subida. É uma subida que vem desde o tempo das "vacas gordas"; não pode ter como desculpa apenas a crise internacional.
Noto em 3º lugar uma clara contradição em que cais, na ânsia de mostrar conclusões que corroboram a tua opinião pessoal. Começas por dizer que uma visão contabilística correcta tem em conta a dívida externa líquida e não a bruta. Parece-me correcto, apesar da minha ignorância do ponto de vista técnico.
Mas depois pegas nos números de dívida externa bruta do top3 deste índice para concluíres que os nossos 200% até são bem razoáveis; quando sabes perfeitamente que os valores aparentemente astronómicos do top3 são compensados pelos activos que esses países têm no exterior, ou são explicados por circunstâncias extraordinárias. Além disso, "com o mal dos outros posso eu bem!"; ou seja, dizer-me que há países tão mal ou pior que nós não deve ser argumento que nos conforte.
Um último comentário para o papel do Estado nisto. O Estado não é assim tão impotente. Tem capacidade para influenciar o comportamento dos agentes económicos. E o PM também! Do ponto de vista político, o seu discurso tem muita influência na atitude do povo, é mesmo capaz de alterar a sua postura em relação à questão do consumo vs poupança/investimento.
Dizer que os portugueses podem estar descansados, porque o Estado vai recuperar a economia com investimento público não me parece um discurso minimamente adequado a inverter a tendência dos portugueses nesta questão.
Respondendo ao que é "respondível":
ResponderEliminarNão é assim tão fácil saber a dívida externa líquida dos países. Não é algo que seja "publicado". É a dívida bruta que é sempre publicada. O que eu fiz para Portugal foi analisar detalhadamente os valores da sua PII (Posição de Investimento Internacional). Daí ter chegado aos 100%.
A PII dos outros países:
Irlanda: deficit de 106.207 mil milhões de euros
Reino Unido: deficit de 107.700 mil milhões de libras (aprox. 120.000 mil milhões de euros)
Suíça: superavit de 697.900 mil milhões de francos (aprox. 462.000 mil milhões de euros)
Fonte: sites dos respectivos Bancos Centrais
Portugal: 165.000 mil milhões de euros
Não anda muito longe.
A Suiça tem valores positivos devido ao facto de possuir muitos e elevadíssimos activos estrangeiros detidos por residentes e pelo facto de muitos lucros empresariais e pessoais serem reencaminhados para lá, o que empola o valor das "equity". A Suíça tem um PIB per capita o dobro do Português, à PPC. Mas tem dívida externa bruta muito maior.
No final de contas, o que fica claro é a ideia que eu deixei: a dívida externa bruta é elevada para todos os países da OCDE. Sem excepção.