sábado, 8 de agosto de 2009

As Listas

Umas notas quanto às listas do PSD para a Assembleia da República.
Em primeiro lugar, noto que foram e estão a ser muito mais faladas do que as do PS. Talvez seja consequência da estratégia do PS de centralizar a imagem do partido no seu líder, estratégia que tem sido bem executada.
Também noto a importância que os media dão a Pedro Passos Coelho. A certa altura, passou a falar-se como se o normal, o natural, fosse ele ser integrado nas listas, o que é um disparate. Ele está completamente desalinhado com a linha actual que o partido quer seguir; no primeiro semestre deste ano andou hipocritamente a fazer oposição à líder, dizendo que não o fazia; e em acções de campanha do PSD para as europeias, achou por bem fazer declarações prejudiciais para o partido e claramente seguindo uma táctica para benefício pessoal. Demonstrou deslealdade e em nada contribuiu para o partido. Face a isto, porque se devería achar que ele tem um lugar natural nas listas para deputados? Acho muito bem que ele lá não esteja.
Também noto que uma das críticas é a de que houve um passo atrás, um regresso ao passado, com nomes do cavaquismo. Talvez assim seja. Mas isso não é necessariamente um aspecto negativo. Desde logo porque o caminho que o partido tem seguido nos últimos anos não é um caminho com futuro. Foi-se assistindo à ascensão de uma veia populista, suportada essencialmente por estruturas concelhias, que tem de ser travada. E ela trava-se com um grupo parlamentar coeso, que partilhe uma visão comum e que queira trabalhar com a direcção, não contra ela. Às vezes é preciso dar um passo atrás para seguir em frente.
Criticaram o facto de as listas terem sido aprovadas com apenas cerca de 60% dos votos no Conselho Nacional. Também não me parece que estejamos necessariamente perante um ponto negativo. Toda a gente sabe que as listas são produto de um longo e duro processo de negociações, em que muitas vezes alguns querem fazer valer interesses da sua vida particular, e outros querem garantir um lugar a partir do qual possam fazer a oposição interna. Parece-me que a falta de consenso revela que a líder não cedeu a esse tipo de interesses. É verdade que o PSD é um partido caracterizado pela sua pluralidade interna, e deve orgulhar-se disso, mas a construção de um grupo parlamentar coeso é mais importante. Dada a forma como as facções se distanciaram nos últimos tempos, dificilmente um grupo parlamentar consensual seria um grupo coeso, que possa trabalhar em conjunto.
Por fim, uma crítica. Não percebo a razão da inclusão de António Preto e Helena Lopes da Costa. De facto, permite pensar que estamos perante o pagamento de algum favor.

1 comentário:

  1. As críticas às listas do PSD estão a partir mais de sectores "laranja" do que "rosa". Achar que pode haver conivência com a estratégia do PS é tapar o sol com a peneira e ignorar que a crítica aqui é sobretudo interna, de gente que não quer Sócrates, com certeza, mas que também não se revê num certo estilo de fazer política. Depois, continuar a dizer que a centralização ocorre com Sócrates e não com Ferreira Leite é já querer não ver como a direcção nacional do Partido compôs estas listas. A palavra de ordem foi centralizar toda a decisão no núcleo duro em Lisboa, desautorizando as estruturas locais e abrindo brechas entre a São Caetano à Lapa e as concelhias e distritais. Não, o centralismo já não é um ponto que MFL possa invocar para se afirmar como diferente do Pinócrates!

    Sobre PPC estar desalinhado com a linha do partido, também Marques Mendes e Santana Lopes estavam "desalinhados" de Durão durante o Congresso de Viseu em que este último chegou ao poder. Afastamento? Nenhum! Mendes foi cabeça de lista por Aveiro, Santana candidato a Lisboa. Chama-se a isso liderança, visão de futuro, compreensão de que após a vitória, como nos diz Maquiavel, o líder deve ser magnânimo. Facciosismo foi o que nos deu Ferreira Leite e as consequências dessa escolha estão aí para quem quer ver: hoje em vez de ter o partido unido em trono da sua candidatura estando os holofotes centrados na luta ao PS, o que se releva são as demissões, ameaças de demissões, críticas de todos os quadrantes social-democratas... Aguardem o comentário dominical de Marcelo para mais um pouco de briga interna que era totalmente desnecessária nesta altura e perfeitamente evitável com simples bom senso.

    Quanto ao cavaquismo, o problema não é o regresso ao passado em si, mas sim o facto de ser o regresso à faceta mais sinistra desse período. Couto dos Santos e João de Deus Pinheiro são tudo aquilo que não se quer quando há necessidade de transmitir uma imagem de verdade, trabalho, competência, progresso. Podiam ter ido buscar figuras de referência da sociedade civil mas onde estão elas? Podiam ter recorrido a sangue novo, mais 2 ou 3 Paulos Rangel, mais jovens, ainda não manchados por um passado sombrio ou duvidoso, representativos de toda uma geração que não se revê nos políticos de sempre, mas não. O país clamava por mudança, queria acender as torchas da esperança. Deram-nos somente a desilusão. Um passo atrás para dar dois à frente? Atrás havia um precipício. Esse 1.º passo pode bem ter sido fatal.

    Grupo parlamentar coeso? Nas democracias-referência do Mundo, nos EUA e no RU, há mecanismos de primárias, candidaturas unipessoais, deputados que vâo buscar a sua legitimidade não ao partido mas aos seus constituintes. O que se vê? Uma pluralidade sem paralelo, uma constante necessidade de negociar e encontrar compromissos, porque não há cá favas contadas nem votos de deputados-rebanho. E ao que consta funciona bem! Porque o constante diálogo e debate são marcas de uma democracia que se quer viril e se vê madura. Tivemos 4 anos de uma maioria seguidista na AR, com Alberto Martins a ser a figura de proa de um Parlamento fraco, morto, repleto de yes-men e por isso desprestigiado. Entre a boa liderança e a cega prepotência num Governo, a distância é curta e reside principalmente na composição do Grupo Parlamentar. Quando este se resume a acenar com a cabeça, o resultado é óbvio: o marasmo e insignificância para o Grupo, o autismo e arrogãncia cega para o Governo. A "coesão" é em si um conceito salazarista de unidade podre, de quem não conseguindo afirmar uma liderança em contexto plural, se vê obrigado a impôr uma chefia. É algo bem característico de países e partidos que não sabem ainda conviver com a diferença e não conseguem aproveitar as vantagens do pluralismo e da conciliação. O que o PSD mostrou aqui não anuncia nada de bom como vento de mudança. Aguarde-se o programa do partido para definir melhor as expectativas. Mas para já? O benefício da dúvida está de momento suspenso.

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