sábado, 22 de agosto de 2009

Da desigualdade de rendimentos (5)

Sistematização das observações

As conclusões das observações regionais e mundial da desigualdade de rendimentos pode ser sistematizada em dois factos estilizados que emergem com a literatura recente afecta a este tema:
(1) uma desigualdade acima de um determinado nível afecta o crescimento;
(2) a desigualdade elevada afecta mais o crescimento nos países subdesenvolvidos no que nos países desenvolvidos.

A primeira ideia (1) baseia-se na evidência de que a desigualdade tende a ser menos prejudicial para o crescimento quando aumenta de níveis bastante baixos (como 0,15) para níveis mais moderados (0,30). Esta ideia é consistente com a teoria económica: em primeiro lugar, porque um certo grau de desigualdade pode ser necessário para estimular a inovação e a cultura de risco empresarial; por outro lado, algum grau de desigualdade gerado pela concentração de rendimento numa pequena parte da população pode gerar os mecanismos conducentes a maior investimento devido à maior propensão marginal à poupança por parte dos segmentos mais ricos da sociedade.

A desigualdade pode, por isso, crescer até um determinado nível, pois tal lança vários incentivos para o desempenho económico. E tal é verídico. A ideia dos incentivos funciona pela chamada “desigualdade construtiva” (Birdsall, 2007), na medida em que faz com que os indivíduos sejam incentivados a responder pelas diferenças de oportunidades. A desigualdade passa a ser considerada “destrutiva” quando se ultrapassa aquele limiar a partir do qual a concentração de riqueza nos mais ricos provoca ineficiência e discriminação.

O segundo facto estilizado (2), contudo, é bem mais complexo e necessita de teoria adicional para ser explicado. Os primeiros trabalhos de Barro, que separam as amostras de países desenvolvidos das de países menos desenvolvidos, evidenciam esta característica dicotómica: de facto, abaixo de um determinado nível de rendimento per capita e acima de um índice de Gini de 0,45, o impacto da desigualdade elevada é bastante mais nocivo para o crescimento económico em países pobres do que em países ricos. Esta é a grande evidência da análise dos dados sobre o fenómeno da desigualdade de rendimentos e a sua conjunção com a dinâmica do crescimento económico.


Mas, em concreto, que tipo de impactos nocivos pode ter a desigualdade no crescimento económico e no desenvolvimento de uma dada economia? E como se explica o fenómeno de que a desigualdade afecta muito mais os países menos desenvolvidos do que os países mais avançados? Resposta no próximo post.

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