Até ao final da Guerra Fria, pouca atenção era dada à desigualdade. A questão esteve sempre centrada no aparente trade-off entre eficiência e equidade que Adam Smith invocou e que desde sempre marcou a teoria económica. Com os anos 90, devido à conjunção de muitos factores, mas principalmente pelo surgimento de mais e melhores dados sobre a desigualdade, esta passou a sofrer maior atenção por parte da economia mainstream. Mais concretamente, tem crescido a atenção no efeito que certos níveis de desigualdade têm no crescimento económico.
A evidência actual é a de que a desigualdade não afecta directamente o crescimento. É antes a interacção da desigualdade com (1) mercados imperfeitos (em especial o de crédito), com (2) corrupção/governos incompetentes e sistemas políticos degenerados e com (3) instabilidade social que leva a que o crescimento seja menor – citando Nancy Birdsall. A desigualdade (no sentido da má distribuição de rendimentos e riqueza) exacerba o efeito negativo da debilidade institucional destes 3 factores, criando assim as condições para que o efeito negativo no crescimento seja mais sério. Quer isto dizer que a desigualdade é um factor institucional adicional e tão sério como os outros. Está aqui o cerne da compreensão da desigualdade como inibidora do crescimento. Para um país com índice de Gini de 0,5, não é indiferente ser avançado ou sub-desenvolvido: caso seja avançado, o efeito inibidor da desigualdade sobre o crescimento económico já não é tão grande, na medida em que a qualidade das instituições é plenamente melhor, o que indicia um trabalho prévio ao nível institucional e que não é propriamente “contabilizável”. Há, por isso, duas vertentes a considerar: a desigualdade em si (nível e tendência) e a qualidade institucional (respeito pela lei, solidez do sistema judicial, baixa corrupção, acesso a bens e serviços culturais, acesso a formação e educação, acesso ao crédito, disseminação de boa e completa informação, entre outros).
Martin Ravallion tem ido mais longe ao afirmar que a redução de pobreza (parte da resposta para a diminuição da desigualdade) depende não só da dinâmica de crescimento económico, mas também da elasticidade de redução de pobreza pelo crescimento, que é algo que depende também em si fortemente do esforço de redução da desigualdade e do seu nível. Países mais desiguais têm dificuldades acrescidas em reduzir a pobreza e enfrentam barreiras adicionais no crescimento económico devido à ineficiência na distribuição de riqueza.
As concepções são complementares, não substitutas. Urge uma vertente fortemente institucional no combate à desigualdade e uma visão acertada da evolução do fenómeno, de modo a garantir que se atinja mais progresso.
O truque está em compreender o fenómeno, ajustá-lo ao país/cultura em questão e aplicá-lo. Não há, como nunca houve, uma “one size fits all solution” – é imperativo adoptar uma perspectiva ciente da diversidade institucional das diferentes economias e das diferentes regiões do Mundo e apreender a forma como o combate à desigualdade pode ser levado a cabo em cada situação.
Referências (para a sequência de posts):
- Birdsall, Nancy (2007), “Income Distribution: Effects on Growth and Development”, Center for Global Development
- Human Development Indicators, United Nations Development Program, http://hdrstats.undp.org/indicators/147.html
- Milanovic, Branko (2006), “Global Income Inequality: What it is and Why it Matters”, World Bank Policy Research Working Paper 3865
- OECD (2008), “Growing Unequal? Income Distribution and Poverty in OECD countries”
- Ravallion, Martin (2007), “Inequality is Bad for the Poor”, Oxford University Press
- World Development Indicators, World Bank, http://devdata.worldbank.org/wdi2005/Table2_7.htm
A evidência actual é a de que a desigualdade não afecta directamente o crescimento. É antes a interacção da desigualdade com (1) mercados imperfeitos (em especial o de crédito), com (2) corrupção/governos incompetentes e sistemas políticos degenerados e com (3) instabilidade social que leva a que o crescimento seja menor – citando Nancy Birdsall. A desigualdade (no sentido da má distribuição de rendimentos e riqueza) exacerba o efeito negativo da debilidade institucional destes 3 factores, criando assim as condições para que o efeito negativo no crescimento seja mais sério. Quer isto dizer que a desigualdade é um factor institucional adicional e tão sério como os outros. Está aqui o cerne da compreensão da desigualdade como inibidora do crescimento. Para um país com índice de Gini de 0,5, não é indiferente ser avançado ou sub-desenvolvido: caso seja avançado, o efeito inibidor da desigualdade sobre o crescimento económico já não é tão grande, na medida em que a qualidade das instituições é plenamente melhor, o que indicia um trabalho prévio ao nível institucional e que não é propriamente “contabilizável”. Há, por isso, duas vertentes a considerar: a desigualdade em si (nível e tendência) e a qualidade institucional (respeito pela lei, solidez do sistema judicial, baixa corrupção, acesso a bens e serviços culturais, acesso a formação e educação, acesso ao crédito, disseminação de boa e completa informação, entre outros).
Martin Ravallion tem ido mais longe ao afirmar que a redução de pobreza (parte da resposta para a diminuição da desigualdade) depende não só da dinâmica de crescimento económico, mas também da elasticidade de redução de pobreza pelo crescimento, que é algo que depende também em si fortemente do esforço de redução da desigualdade e do seu nível. Países mais desiguais têm dificuldades acrescidas em reduzir a pobreza e enfrentam barreiras adicionais no crescimento económico devido à ineficiência na distribuição de riqueza.
As concepções são complementares, não substitutas. Urge uma vertente fortemente institucional no combate à desigualdade e uma visão acertada da evolução do fenómeno, de modo a garantir que se atinja mais progresso.
O truque está em compreender o fenómeno, ajustá-lo ao país/cultura em questão e aplicá-lo. Não há, como nunca houve, uma “one size fits all solution” – é imperativo adoptar uma perspectiva ciente da diversidade institucional das diferentes economias e das diferentes regiões do Mundo e apreender a forma como o combate à desigualdade pode ser levado a cabo em cada situação.
Referências (para a sequência de posts):
- Birdsall, Nancy (2007), “Income Distribution: Effects on Growth and Development”, Center for Global Development
- Human Development Indicators, United Nations Development Program, http://hdrstats.undp.org/indicators/147.html
- Milanovic, Branko (2006), “Global Income Inequality: What it is and Why it Matters”, World Bank Policy Research Working Paper 3865
- OECD (2008), “Growing Unequal? Income Distribution and Poverty in OECD countries”
- Ravallion, Martin (2007), “Inequality is Bad for the Poor”, Oxford University Press
- World Development Indicators, World Bank, http://devdata.worldbank.org/wdi2005/Table2_7.htm
Muito bem!
ResponderEliminarAinda bem que eu esperei pelo fim para comentar, porque no post (5) já tive vontade de fazer um reparo, que era precisamente o de avisar que a desigualdade em si não é causa directa de fraco crescimento.
A meu ver, a desigualdade é um sintoma de vários factores, que tu muito bem resumes em "qualidade institucional". Paralelamente à desigualdade, o fraco crescimento também é um sintoma da baixa qualidade institucional.
Entre fraco crescimento e desigualdade há essencialmente um relação de coincidência, não necessariamente de causalidade. Mas concordo, e tu fundamentas isso muito bem, que em certos casos há uma relação de causalidade, quando a desigualdade potencia os efeitos negativos da baixa qualidade institucional no crescimento.
Esta é a minha opinião, talvez não totalmente igual à tua.
Nota: A revista Visão n.º 859 (a mais recente) traz uma pequena análise de um gráfico muito interessante na sua página 14. Aconselho a quem ainda não tenha visto e se interesse por este tema. Traz ainda um artigo muito interessante sobre o regresso (já!) dos bónus milionários aos quadros superiores dos bancos.
O gráfico a que me refiro no último post é o da figura 1 deste texto: http://elsa.berkeley.edu/~saez/saez-UStopincomes-2007.pdf
ResponderEliminarA análise da Visão chama a atenção para o facto que se verifica de as crises de 1929 e 2008 serem antecedidas de picos de concentração da riqueza nas mãos dos 10% mais ricos.
Caro Luís,
ResponderEliminarAntes de mais, agradeço-te a referência, mas tenho a dizer que me antecipei a ti, pois já consultei esses dados sobre a desigualdade na semana passada, assim que saíram fresquinhos no site do homem e começaram a ser divulgados pela blogosfera. Não quis incorporá-los aqui, pois têm um âmbito muito específico - séries temporais nos EUA -, mas fico bastante contente que tenhas tido o trabalho e o interesse de os ver. E, já agora, aconselho-te a leres o documento na íntegra. O site do professor Saez é este:
http://elsa.berkeley.edu/~saez/
O ficheiro que aparece em primeiro lugar (updated) é o Artigo original; o ficheiro que linkaste no teu comment é o segundo que lá aparece, e parece-me ser uma versão resumida para o público. Se tiveres interesse e tempo para ver a explicação dos dados que ele dá, recomendo o ficheiro original!
Em relação ao comentário sobre os meus posts, penso que acabamos então por concordar. Tentei distanciar-me do perigo da causalidade (mesmo que se tente provar, é muito complicado fazê-lo). A escola institucionalista está a crescer e tem dado provas de que está atenta ao fenómeno da desigualdade, tendo a vir fornecendo boas respostas até hoje. E mesmo em termos metodológicos, é bastante mais acertado apontar na direcção da estrutura do que em certas relações empíricas que são por vezes difíceis de sustentar.
Ainda bem que leste tudo o que eu escrevi. Por momentos, pensei que ninguém se desse ao trabalho de o fazer, quanto mais responder!
P.S.: E já agora, em relação ao tal ficheiro do Saez e dos seus novos dados sobre a desigualdade nos EUA, repara (em todos os gráficos) na concentração a partir da década de 80. É uma clara tendência que tem uma explicação historicamente comprovada - a ascensão da liberalização dos movimentos de capitais e dos ganhos de capital especulativos que o neoliberalismo tanto promoveu, especialmente no lado de lá. Mas isso levar-nos-ia a outras discussões que não a deste post.