quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Da desigualdade de rendimentos (3)

Antes dos países menos desenvolvidos, importa analisar outra amostra de países. Refiro-me à distinção entre América Latina e Sudeste Asiático. Estas regiões têm sido relevadas pela literatura do desenvolvimento como o exemplo perfeito para argumentar da existência de dois blocos relativamente opostos e com níveis de sucesso bastante distintos. A literatura é vastíssima e interessantíssima, mas hoje vou apenas basear-me na questão da desigualdade.

Apesar de equacionar voltar a este assunto um dia mais tarde, gostaria de começar por frisar as diferenças fundamentais no processo de desenvolvimento dos países das duas regiões. Se há algo que marca definitivamente as duas regiões, são as diferenças entre ambas, em particular o perfil de especialização adoptado, o modelo de desenvolvimento escolhido, as políticas de estabilização seleccionadas e a predilecção pela atenção cuidada às questões institucionais, para além das óbvias distinções culturais que muito marcam, em especial, a América Latina. Em matéria de evolução da desigualdade, alguns dos dados para estes países falam por si:


A título de exemplo, Delfim Netto, um dos ministros da economia (ou similiar) do Brasil durante a ditadura militar, afirmava repetidamente que o “milagre económico brasileiro” estava a acontecer e que "a distribuição não era prioridade". E tem sido essa a história da América Latina desde então. Enquanto que a opção da América Latina foi o crescimento cego à situação social, o modelo asiático de leste provou não desprezar essa vertente e ainda conseguir um dos mais impressionantes registos em matéria de desempenho económico ao longo da segunda metade do século XX. Os dados na literatura evidenciam o melhor comportamento dos asiáticos em relação aos latino-americanos, correlaccionando-o com o estado da desigualdade.


Quero, apesar de tudo, ressalvar duas notas:
1) Qualquer economista que saiba ler econometria sabe que é necessário prever, nestes casos, a situação de variável relevante omitida – isto é, poderá ocorrer a situação de que a desigualdade não causa obstáculo ao desenvolvimento, mas sim uma outra variável qualquer que está directamente relacionada com a desigualdade e que leva a conclusões enviesadas. Bom, nada prevê que assim o seja; estas regressões apresentam sempre as mesmas conclusões, mesmo testadas com variáveis instrumentais e geográficas.
2) Da mesma forma, poderá haver ou não a hipótese de causalidade reversa? Ou seja, estando as variáveis correlacionadas, por que não se pode concluir o contrário – a ideia de que é o crescimento que leva a maior igualdade? A verdade é que, apesar de ser uma preocupação legítima, essa hipótese é rapidamente enfraquecida pela leitura estática da desigualdade promovida pelo gráfico e pela teoria económica (em especial a mais heterodoxa).

Mais uma vez, reitero que os argumentos de conclusões serão deixados para o derradeiro post.

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