segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Instrumentalizaçao das Estatísticas

Aqui está um recente exemplo de instrumentalização das estatísticas: "Governo salienta redução para metade do abandono e insucesso escolar" in Público.
Quem conhece minimamente a realidade do ensino público português não pode negar que estamos perante um dado estatístico que não reflecte nenhuma melhoria da sua qualidade.
O ensino público português degrada-se a olhos vistos, num processo assustador iniciado há uns bons anos e que deixa poucas perspectivas de melhoria.
As orientações do ensino público têm sido determinadas por uma prioridade dada à redução do abandono escolar. É um objectivo muito nobre, com certeza, mas foi obtido pelo caminho mais fácil, que ainda por cima produz resultados mais rápidos nas estatísticas. Sabendo-se que uma grande causa do abandono escolar é o insucesso, traduzido em reprovações, resolveu-se criar regras (burocracia) que desincentivam fortemente as reprovações.
Criou-se também a ideia de que o aluno tem direito ao sucesso escolar. Como que há uma presunção de que o aluno é bem sucedido. Se o professor quiser, que se dê ao trabalho (que é muito) de provar o insucesso do aluno; aliás, tem de o prever, avisar previamente os pais da má prestação do seu filho.
Resultado imediato? Desresponsabilização de alunos e pais e desincentivo ao rigor dos professores. Isto tem vindo a sentir-se desde há cerca de 10 ou mais anos.
Nos últimos cerca de 5 anos tem vindo ao de cima outro resultado de tal política, um resultado que transforma este processo num círculo vicioso. É o êxodo de estudantes provindos de famílias de classe média e superior para o ensino privado, pois que um ensino público pouco rigoroso, facilitista não convém a quem quer, e pode, garantir aos seus filhos melhores condições para uma entrada na vida profissional. Um ensino que tem como prioridades a diminuição do abandono e do insucesso sobre outros aspectos como a exigência e, em geral, uma boa preparação do aluno não oferece garantias de qualidade a uma classe cada vez mais exigente neste campo.
3.º resultado, que se adivinha como consequência deste que acabei de referir? Mais facilitismo. Os pais preocupados com a preparação dos filhos, os pais que procuram um ensino exigente para os filhos vão começar a ser poucos nas escolas públicas. Vão começar a prevalecer os pais que querem é que o filho despache o ensino obrigatório para ir trabalhar, e os professores não serão imunes às constantes pressões neste sentido, por muito que a ministra diga que são profissionais zelosos do seu trabalho.
Se isto não for invertido, dentro de uns anos a escola pública será a escola dos pobres (no espírito ou na carteira), a escola daqueles cujos pais não querem ou não podem oferecer um ensino melhor aos filhos. E, como já ouvi dizer Paulo Rangel, isto é o caminho para uma escola pública de exclusão, uma escola pública que acentua as diferenças na formação entre as classes sociais superiores e as inferiores, afastando a sociedade de qualquer sonho de igualdade de oportunidades.

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