terça-feira, 18 de agosto de 2009

Da desigualdade de rendimentos (2)

A desigualdade é um fenómeno social complexo. Tal como afirmei no post anterior, importa analisar a sua magnitude bem como a sua tendência de evolução ao longo do tempo no sentido de apurar o que tal pode implicar em matéria de estabilização social e de efeitos de médio e longo prazo ao nível do desempenho económico, numa determinada economia. Deixarei, contudo, as principais conclusões para o post derradeiro. Neste momento, limitar-me-ei a deixar alguns indicadores do fenómeno.

Começo com Portugal e com o respectivo contexto ocidental. É difícil avaliar a evolução do Gini em Portugal devido à debilidade estatística para dados históricos com mais de 20 anos: só para o período 1980-1990, uma rápida pesquisa levou-me a três evoluções distintas, fruto certamente das tais questões metodológicas de análise.

Neste contexto ocidental, e em termos quasi-estáticos, é possível resumir um padrão. Este conjunto de países tende a harmonizar-se mais em termos de distribuição de rendimento (ou de consumo) do que o mundo menos desenvolvido, pelo que as diferenças são eminentemente sub-culturais. Os países nórdico-europeus apresentam, por motivos culturais e por razões de path-dependency, um panorama de baixa desigualdade, quando comparados com outras zonas geográficas. Aqui os índices de Gini apresentam valores que oscilam entre os 0,25 e os 0,3. Em contraponto, a zona meridional europeia apresenta uma tendência para maior desigualdade, em especial na Grécia, em Portugal e na Itália, onde os índices já quase roçaram (sem ter tocado) por várias vezes a barreira dos 0,4. O Leste Europeu apresentou durante muito tempo alguma estabilidade de baixa dispersão, mas as acções de privatização e liberalização mal pensadas no pós-1989 levaram a um maior custo sem o benefício directo e consistente de crescimento económico (algo que daria para um novo post daqui a uns tempos).

Modelos económicos podem explicar parcialmente estes resultados. A aplicação da social democracia na Suécia e Dinamarca distingue-as da tendência política tresmalhada e alternada dos governos Italianos e Portugueses das últimas décadas. Da mesma forma, o modelo liberal norte-americano, pouco dado a redistribuições e fortemente indutor da lógica do mérito por trabalho e por empreendedorismo, leva a que o seu coeficiente atinja os 0,45, tendo inclusivamente estado bastante perto dos 0,5 há coisa de uma década atrás. A vertente institucional que analisa estas tendências tem ido inclusivamente mais longe, com Dani Rodrik (por exemplo) a justificar os maiores colapsos pós-1975 nos países mais desiguais de então devido à prioridade que foi dada à redistribuição em detrimento das políticas de estabilização macroeconómica, sob pena da eventual crescente instabilidade social.


Apesar das diferenças entre os diversos países, os países ocidentais apresentam um padrão relativamente sólido no que diz respeito à relação entre desigualdade e as variáveis culturais, institucionais e geográficas. Já o mesmo não se poderá dizer do mundo sub-desenvolvido, nem se poderá incluir estes na mesma análise, como mostrarei num dos próximos posts.

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