
José Nuno Santos (JNS) é de direita. Gosta de mostrar isso e aplica-o em tudo o que diz. É um orgulho próprio, portanto. O que JNS acaba por fazer e, muito provavelmente não repara, é a tendência que tem para fazer da ideologia, mais do que clubismo agudo, religião. Diga-se que é algo muito próprio do segmento político onde se encontra e que muito se faz para o manter actualmente.
JNS apresenta simultaneamente um sintoma e um problema. O sintoma é a falta de pensamento crítico – não se consegue abster da retórica dos que partilham o seu grupo ideológico e repete-os até à exaustão. O problema é o de que não faz nada para inverter isso ao longo das suas explicações. JNS não se atreve a abandonar a ideologia em prol de elementos mais científicos, prefere manter-se na visão dogmática da economia que diz perceber. Far-lhe-ia bastante bem ler este livro, este livro ou até este artigo.
A prova deste dogmatismo está na sua abordagem perante a desigualdade de rendimentos neste post, em que, para ele, a questão não se resume à atenuação da desigualdade; o importante é que ela exista. Não é uma questão de grau, portanto; é sobretudo, uma natureza que tem de existir. Este tipo de ideias pré-elaboradas não conseguem ser mais do que meras teses subjectivas, despojadas de qualquer critério rigoroso. Aqui JNS tomou uma opção clara: deitou a ciência ao caixote do lixo e apoiou-se no Livro Sagrado dos ensinamentos liberais. Caro José, a desigualdade não tem de existir; a desigualdade existe porque é impossível manter a igualdade. Talvez o que nos separe seja o diferente ponto de vista – eu prefiro chamar “igualdade relativa” àquilo a que o José apelida “desigualdade relativa” – mas a ideia de que uns auferem e possuem mais do que outros é incontornável. Ninguém o pode negar ou impedir, já eu o tinha dito anteriormente. Já o defender isso como cavalo de batalha, suportado por ideais de grupo como o JNS o faz, é pegar numa inevitabilidade negativa e tomá-la como vitória. Nisto e noutras coisas que tem dito, JNS é mestre em fazer das desgraças vitórias.
O que JNS tenta fazer não está longe daquilo que Hayek andava a pregar há umas belas décadas atrás, com a pequena nuance de que o autor supracitado já foi testado pelo tempo e já deu para comprovar que o seu maior erro foi aplicar o dedutivismo cego à economia, coisa que metodologicamente não se deve fazer mas que JNS insiste em apoiar. O texto de JNS está repleto de axiomas pretensamente verdadeiros, cujo alcance morre a partir do momento em que se chega à conclusão de que nenhuma sociedade é igual a outra e que regras iguais para todos não as há. Mas para JNS, há uma regra de ouro em matéria de desigualdade: ela tem de existir e tem de ser significativa. Só assim se consegue ser próspero. É o bom comportamento até à Salvação.
Mas JNS consegue ir ainda mais longe no absurdo quando cita Adam Smith e a sua famosa “mão invisível”, uma expressão que aparece apenas 3 vezes nas suas 8 centenas de páginas da Riqueza das Nações e cujo sentido é radicalmente diferente do termo em que JNS e os seus colegas políticos gostam de se apoiar. Das duas uma: ou JNS ignora do que fala, ou então não percebe do que lê. A “mão invisível” que JNS apela é bem capaz de ser a mão divina de Deus a pôr tudo no sítio e a funcionar. Eu gostava de acreditar nessa boa profecia, pois é bonita; mas não consigo. Seja ela qual for, JNS deverá ignorar também aquilo que serviu de base à Riqueza das Nações – a Teoria dos Sentimentos Morais e as Sebentas de Jurisprudência publicadas postumamente pelos alunos de Adam Smith – e que certamente chocariam alguns dos princípios que JNS tanto gosta de enumerar. Chocaria ao ponto de deixar de citar Adam Smith, arriscaria eu.
JNS consegue bater todo e qualquer fundamentalismo de mercado ao defender, ainda que timidamente, um ataque despótico a todos aqueles desgraçados que recebem rendimento social de inserção e que não cabem na sua definição de “gente que quer trabalhar”. É aqui que JNS faz a apologia do “Vai trabalhar, malandro!” e assume o papel de pai – o tradicional e salazarento pai – que se arroga no direito de estabelecer o conceito de trabalho e o mérito daí decorrente. Caro JNS, um dia hei-de lhe apresentar alguns amigos meus e uns membros da minha família e mostrar-lhe-ei que esforço não equivale a retribuição. Eu sei: é reconfortante pensar que vivemos numa meritocracia. Mas não é o nosso caso. Não sonhe muito com isso, JNS, pois pode acabar desapontado.
A ideia de que o rendimento social de inserção ou toda e qualquer transferência social deve estar sujeita a critérios de exclusão com base na predisposição cega para trabalhar, mesmo que o trabalho não exista a não ser nos sonhos de muitos idealistas, é tão manifestamente neoliberal que quase excede a heresia de ignorar que as transferências sociais, essa bela conquista do Estado Social, têm o mérito de reduzir a taxa de pobreza em cerca de dez pontos percentuais em vários países europeus, incluindo o nosso. Já vi muita gente a defender a desigualdade; nunca havia visto ninguém [supostamente credível] a favor da pobreza. Caro JNS, é o primeiro.
JNS acha que o capitalismo se encarregará de fazer com que as coisas vão pelo lado certo. Os indivíduos respondem livremente pelas oportunidades e o Estado não é para lá chamado. Nesse Paraíso que invoca, faltam duas restrições que desabam tudo: em primeiro lugar, não podemos exigir mais do que a participação de qualquer um de nós na actividade produtiva – obrigar todos a ser empreendedores é autoritário (nem todos o querem ser) e nunca resultaria (pense num simples snack-bar que não pode funcionar com apenas uma pessoa). Em segundo lugar, a redistribuição de rendimentos não é uma solução, é apenas um remendo necessário para que não se entre numa espiral de concentração de rendimentos, cujo resultado deixa antever a auto-destruição do sistema. Caro JNS, conhece o jogo “Monopólio”?
Mas JNS está optimista e parece entusiasmado com a ideia de que o combate à desigualdade é uma quimera que nem deveria estar na agenda do dia. Pois bem, a melhor prova é o dar a provar. Caro JNS, monte uma empresa e seja empreendedor. Não seja choramingas ao ponto de clamar pelos impostos que perdeu, e atire-se aos leões, lute pelas oportunidades! Quando e se a sua sociedade chegar ao paraíso da desigualdade que tanto sonha, em que a concentração é mais regra do que excepção e o Estado se abstém de redistribuir, olhe à sua volta e pense a quem vai vender o que produz. Deixo já uma sugestão: faça como a outra disse e monte uma empresa de iates – os seus clientes terão sempre dinheiro, e pode ser que o salvem da falta de “procura agregada”. Olhe, caro JNS, se isso acontecer, eu darei razão à senhora: serão definitivamente os ricos que ajudarão a economia!
A continuação do meu post poderá tardar mas não falhará. Mas certamente que se limitará há minha exposição de ideias e opiniões que sustento com a humildade de uma pessoa sem formação especifica na área económica, mas ainda assim, uma pessoa informada e com uma opinião válida e direito á mesma.Ao mesmo tempo humildade para reconhecer o direito á opinião dos outros, e por isso mesmo o meu post não se irá propor ao ataque pessoal nem tentará deturpar a informação dos teus post ou reproduzir jucosa e deturpadamente as tuas opiniões.
ResponderEliminarAceito sempre a discórdia e ataque ás opiniões e posições políticas mas nunca o ataque pessoal despropositado.
Se estiveres interessado em consultador a bibliografia onde apoio a minha opinião:
ResponderEliminarDireita e Esquerda, divisões ideológicas do século XXI, trabalho coordenado por João Carlos Espada, Marc F. Plattner e Adam wolfson, pag 103 á cerca do conservadoreismo solidário.
Caro JNS, foi só isso que conseguiste sacar do meu texto? O ataque pessoal e a suposta superioridade na área? Eu tentei ser cortês na crítica, mas não era possível fazê-lo sem te citar directamente. E esse argumento do "não ter formação específica na área" diz pouco, pois a desigualdade não é nem nunca será um problema estritamente económico.
ResponderEliminarO que eu gostava - e este é o meu ponto principal - era que houvesse algum critério rigoroso para sustentar o dogma de que tem de haver desigualdade, pois na vossa opinião "isso é o capitalismo". O teu erro e o de todos os que acham piada às Universidades de Verão do PSD é que todos vós acham que os axiomas são bonitos e explicam os fenómenos sociais.
A desigualdade é um indicador que pode e deve servir como instrumento de política social, económica, demográfica e cultural; não é um fim ou objectivo a que nos devemos propôr para uma sociedade. E vocês, todos aqueles que defendem o que tu dizes, fazem isso constantemente: a desigualdade tem de existir, o Estado tem de ser mínimo, as contas do Estado têm de ser superavitárias, o policiamento tem de ser forte, etc... É por isso que é tão fácil criticar-vos, pois não se baseiam em nada credível, excepto a crença religiosa e a fé inabalável no mercado para resolver tudo.
Isso é terrorismo ideológico. É perfeito fundamentalismo baseado em conceitos pré-concebidos, cuja sustentação é estrita e exclusivamente ideológica. Não é preciso ter formação na área para discernir as duas coisas, ciência e ideologia.
Permitam-me intrometer na discussão.
ResponderEliminarE desta vez para concordar com o JNS. De facto, é um post com traços de ataque pessoal. Acho que as ideias podem ser discutidas num tom mais cordial. A agressividade que acompanha o texto dá-lhe uma inegável conotação pessoal, bem além da mera troca de ideias.
Depois, Luís, não me parece que possas afirmar com tal superioridade que o JNS e "todos os que acham piada às Universidades de Verão do PSD" baseiam as suas ideias em dogmas não questionados. Lá porque muita gente partilha de uma mesma ideia, isso não significa necessariamente que não tenham questionado a validade dessa ideia. Generalizas um menosprezo infundado acerca dessas pessoas das quais discordas.
Acresce que ter uma ideologia, seguir uma ideologia, não deve ser confundido com ter um pensamento baseado em dogmas não questionados.
Também não sei a que proposito caiu aqui de paraquedas a universidade de verão do PSD. A opinião dos diferentes oradores não é nada dogmática e até é bem diversificada veja o exemplo da temática Política vs ètica e a opinião de Paula Teixeira Cruz e Paulo Rangel. Até digo mais, a Uninversidade de Verão é das poucas iniciativas para jovens, de louvar nos partidos portugueses. É pena é as presenças serem tão restritas sobretudo para independentes...
ResponderEliminarEu nada tenho contra o projecto em si, até porque é apoiado de perto pelo Instituto Sá Carneiro, que até me parece uma coisa com pés e cabeça. Tenho contra as pessoas que a frequentam e que transformam aquilo num jornal tendencioso, nomeadamente a JSD e afins. Pessoas do tipo Pedro Passos Coelho.
ResponderEliminarAcontece que a Universidade de Verão do PSD é um refúgio para a ala liberal mandar e ouvir uns bitaites para o ar, como quem atira merda à parede a ver se cola. Dizem aquele tipo de coisas que sabe bem ouvir - porque, em Portugal, é diferente e original ser-se liberal - e que sabe bem defender-se - é o símbolo da elite e assemelha-se à Boa Nova à qual ainda não tinhamos chegado porque somos um pouco atrasados [por culpa do socialismo, dizem].
No fundo, no fundo, é na Universidade de Verão do PSD que muitos aprendem a decorar coisas para mais tarde as colar nos sítios em que se lhes pede a opinião. Mas é só decorado, não é problematizado. Vão lá, tiram uns apontamentos avulso e está a opinião feita. Daí o dogma. Se é para isso que serve, então ...
Isso acontece em todo o lado... Desde a Universidade de Verão do PSD aos foruns do PCP, BE,PS,CDS...e é mau que aconteça porque o percurso mais natural é descubrir-se o grupo ideológico antes da filiação partidária. Também há socialistas dogmáticos, ou não??
ResponderEliminarAh, certamente que os há. Mas nem eu sou socialista nem estamos aqui a falar de socialismo. Estavamos a falar de algo que, por sinal, é mais do que evidente na Universidade de Verão do PSD e em muita gente que diz bem daquilo.
ResponderEliminarNão importa aqui saber quem é mais dogmático do que quem. A verdade é que muitos o são; e enquanto os forem, a crítica mantém-se.
Luís,
ResponderEliminarMas que visão tens da Universidade de Verão! Parece que não viste na comunicação social as discussões, divergências de ideias... Parece-me que foram temas para reflectir, não para decorar.
Mas claro que não ponho a mão no fogo por todos o ouvintes daquelas "aulas".