terça-feira, 30 de junho de 2009

O estado das coisas

Muita gente se tem insurgido à custa dos recentes projectos de investimento público que os governos nacionais (entre os quais, o nosso) têm levado a cabo ou projectam fazer num futuro próximo. Custa-me ver que grande parte da discussão seja essencialmente ideológica, em doses de mesquinhice pura.

Digam o que disserem, não há dúvida alguma da dimensão abissal desta crise que é, antes de tudo, global e não sectorial ou regional. Todos sofrem. A China vai abrandar dos dois dígitos do ano passado (até agora, conseguiu sempre mais do que 10% anual desde o 1º trimestre de 2004) para 6,7% em 2009 (previsão do FMI), mas este ano ainda nem se sabe o que pode acontecer; a Índia "só" vai crescer 5,1% e a Rússia estagnou (mesma fonte). Entretanto, já se lançou a iniciativa “Buy China” logo após a “Buy America”. Resquícios de proteccionismo roçam por todo o Mundo; só os governos nacionais os podem evitar e aqui reside a importância do investimento público.

Curioso que ainda há aqueles cépticos (liberais e conservadores, na sua maioria) que não acreditam na dimensão deste momento recessivo e fazem a apologia da contenção orçamental e da reduzida dívida pública. Para esses, nada mais se pode fazer do que esbater nas suas caras os factos, esperando que os percebam. E os factos são esses: só em Portugal, o consumo deve descer 2,4%, o investimento cai 18,4% (!), as exportações reduzem-se em 21,5% e as importações apresentam redução de 21,1%. Os dados são da OCDE e foram divulgados a semana passada.

Nem assim funciona. Manuela Ferreira Leite, uma figura política com méritos duvidosos no que à Economia diz respeito, não entende ou teima em não querer entender uma realidade assaz evidente. Ainda se fez um tal “Manifesto dos 28”, preenchido por gente que considera a inércia a melhor posição nesta altura. Felizmente, ainda houve um contra-manifesto, composto por académicos bastante mais respeitados e credíveis, a defender uma posição oposta, mais activa.

Nos EUA, isto já quase nem se discute. Dois prémios Nobel da Economia (Stiglitz e Krugman) alertaram para a necessidade da actuação do Estado nesta altura. O ultimo desses, Krugman, foi o laureado do ano passado e tem pregado constantemente na necessidade de expandir o investimento e consumo público porque o aparente megalómano plano de Obama não é suficiente e não tem chegado a todos. Numa de muitas das suas crónicas, denominada “What to Do” (Novembro 2008), ele reitera que ainda havia muito a fazer. Ainda anteontem esteve na CNN a discutir com um conservador e disse isso mesmo.

O próprio Kenneth Rogoff, um dos mais fervorosos liberais americanos, ex-economista-chefe do FMI e crítico de Stiglitz, libertou um artigo chamado “The Aftermath of Financial Crises” (2008) em que diz que o aumento da dívida pública é perfeitamente normal num ambiente como este, recorrendo a diversos casos de crises financeiras no passado, defendendo também que esta crise, por ser especialmente grave, tem de ser combatida de forma muito forte e que a lenta recuperação é inevitável numa situação destas, pelo que devemos aprender com as experiências do passado (especialmente a japonesa dos últimos 17 anos).

Até a revista “The Economist”, uma publicação de forte pendor liberal, sofreu enormes mudanças editoriais entre Setembro 2008 e Fevereiro 2009, reiterando que a enorme prioridade neste momento é chamar a intervenção estatal de modo a retomar o processo de globalização o mais rapidamente possível, sob pena de se parar o crescimento mundial que, o ano passado, estava a ser alimentado pelos BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China, os emergentes).

Estas são as evidências. Todos os que têm mantido o bom senso têm repousado na necessidade de pegar no Estado e usá-lo como motor de crescimento: numa situação de ausência de política cambial e monetária, a “armadilha de liquidez” em que nos encontramos só pode ser resolvida através do recurso à política orçamental. Quem não o fizer, estagna.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Que Conveniente

Acabei de ler no site do Público uma notícia com o seguinte título: Teixeira dos Santos: "A crise aproxima-se do fim".
Alguém acredita num ministro que diz isto? Numa crise como a que vivemos hoje, no momento em que nos encontramos agora, esta afirmação do Ministro da Finanças soa-me a afirmação política, mais do que económica ou financeira.
Sim, é verdade que aparecem alguns sinais positivos e que um dos papeis do Governo durante esta crise deve ser o de animar a economia. Mas uma afirmação destas é manifesto exagero e vai ser muito mal vista por quem ainda sente na sua vida os fortes efeitos da crise.
Não é uma afirmação realista, tem fins claramente políticos e, consequentemente, perde toda a sua credibilidade. Ninguém que viva na economia real vai levar esta afirmação a sério e, como tal, não anima economia nenhuma.
Pelo contrário, causa o receio de estarmos a ser governados por pessoas sem qualquer conhecimento da realidade e sem sensatez.
O que o ministro quer fazer, como bem se vê, é preparar o caminho para decretar o fim da crise ali por altura das eleições. A meu ver, está a fazer muito mal e pode virar-se contra ele e Sócrates.
Não estou a exigir um rigor técnico académico, mas tem que ser uma afirmação a que os portugueses dêem crédito.
"Há sinais positivos e é de prever que a retoma da economia deverá iniciar-se no prazo de um ano. Sabemos que a retoma não vai ser fácil nem surtir efeitos imediatos, mas podemos estar optimistas." Era isto, mais palavra menos palavra, que o ministro devia dizer e repetir. Não garanto o rigor técnico desta minha afirmação, até porque não estudo nem estudei economia, mas parece-me o mais correcto a dizer agora. Isto, sim, é uma afirmação que os portugueses podem ver como real, e não como uma espécie de promessa política fantasiosa.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

O desespero leva ao erro

Na sua última aparição na sic notícias (entrevista com Ana Lourenço), José Sócrates surge como um admirável homem novo. Meigo como um cordeiro, dialogante, bem falante, o oposto do estilo que sempre cultivou ou que terá sido genuinamente seu.
Mas parece que já não é! Porque há saída do parlamento (pasme-se) reconheceu que poderia ter feito ao longo do seu mandato outras coisas de forma diferente. Quanto lhe pedem para concretizar a sugestão, Sócrates desencanta no emproviso a falta de investimento na cultura. Ou seja, o tipo de erro que se pode apontar a qualquer governo. Já que tinha de dizer alguma coisa que fosse algo que não o diminuísse em relação aos outros, de preferência que o facto de o admitir fosse o mais inconsequente possível. E lá nos cai em cima um cliché dos antigos, o tipo de coisa de que só as artes mal sucedidas se queixam, aquelas da subsídio-dependência. E lá estiveram os jornalistas e a raça dos comentadores políticos o dia inteiro a tentar espremer sumo de futos secos...
Malditos acessores de imagem, lembram-se de cada uma... Tranformar o mal disposto, rezingão e autista Sócrates na mãe do Bambi de um dia para o outro! A esquerda bem pode gostar de homens fofinhos e dialogantes. Mas sócrates não se pode esquecer de uma coisa muito importante. Não pode ser o que não é. Nunca vai ganhar nada em sê-lo.
Sócrates não ganhou a sua maioria absoluta com a esquerda. Ganhou-a do centro-esquerda ao centro-direta. Começou a perdê-la quando se começou a procupar com a birra adolescente de Alegre. E isto fê-lo desesperar porque não quer ser a esquerda sem esquerda.
Não parece, no entanto, que possa fruir com a estratégia. A esquerda está forte e impenetrável. Já a direita precisa do seu líder forte e responsável de novo. Sócrates deixa-te de esquerdelhices e volta que a gente perdoa!
Por valar em desesperos.... O Vital começou assim. Deixou de ser o Sr. Professor de direito, de grande arcaboiço intelectual e começou a malhar na direita. O resto da história já se sabe...

quinta-feira, 25 de junho de 2009

O Conteúdo

A nova moda no contra-ataque à oposição é a afirmação de falta de conteúdo em tudo o que diz.
Se Ferreira Leite diz que o TGV deve ficar suspenso por enquanto, é falta de conteúdo!
Se diz que o aeroporto não tem de ser necessariamente suspenso porque pode ser feito por módulos e, portanto, não acarreta obrigatoriamente um dispêndio exagerado de uma só vez, é falta de conteúdo!
Se diz que não se deve avançar para a construção de tantas auto-estradas por enquanto, é falta de conteúdo!
Se diz que o Governo não está a ceder a informação necessária para se pronunciar caso a caso quanto às autoestradas, mas abrindo a possibilidade de umas deverem seguir em frente e outras não, é falta de conteúdo!
Se diz que o concurso para a recuperação das escolas devia ter sido aberto de outra forma, para permitir a adjudicação de obras a PME's, é falta de conteúdo!
Se ainda especifica que, se fosse ela a estar no Governo, preteria as linhas de crédito em favor de pequenas, mas muitas, obras de reabilitação urbana e recuperação de património do Estado, é falta de conteúdo!
Se diz concordar com o investimento em energias renováveis que tem sido feito pelo Governo, é falta de conteúdo!
Se diz que a sua grande preocupação na área da economia é o endividamento, há falta de conteúdo!
Se diz que não concorda com o casamento homossexual, é falta de conteúdo!
Se propõe que o IVA seja cobrado às empresas no momento da emissão do recibo e não da factura, mas que falta de conteúdo!!
Se diz que não é altura para subir impostos, falta de conteúdo!
Se afirma que, por ter como accionistas o Estado, em golden share, e a Caixa Geral de Depósitos, a PT não deve adquirir 30% da Media Capital, é falta de conteúdo!

Que eu me lembre assim de repente, há pelo menos este conteúdo que foi afirmado pela própria Ferreira Leite. Acresce que um partido também não se pronuncia apenas através do líder e o conteúdo da sua política não se revela apenas em afirmações categóricas e detalhadas.

É imperativo lembrar as pessoas que a forma como um partido da oposição expressa a sua política não pode ser medida pela mesma bitola com que se mede a expressão da política do partido do Governo. As ideias de um partido da oposição revelam-se também ao longo do tempo através das tomadas de posição face às medidas do Governo. Sempre foi assim e sempre será.

Quando, a cada momento em que se coloca um problema perante o país, o partido da oposição afirma a sua posição face a esse problema, está a exprimir as suas ideias. Está a concretizar a sua ideia de governação.

Com esta nova moda trazida pelo argumentário do PS pretende-se relegar toda a crítica que é feita ao Governo para o campo da demagogia política. Demagogia é uma coisa, crítica é outra. A crítica, mesmo que não acompanhada de uma contra-proposta bem definida, não deixa de ter conteúdo.

O Governo tem gabinetes e gabinetes de consultores a trabalharem para si para fazerem propostas e tomarem decisões. E têm a máxima informação sobre o que quiserem. É esta a sua natureza.

Um partido de oposição é um conjunto de pessoas, políticos, que olhando para os problemas do país, exprimem as suas ideias, apresentam as suas propostas. Mas não se pode pedir o mesmo nível de detalhe e concretização que se pede ao Governo.

Sim, o PSD afirma-se como um partido de poder e as pessoas estão habituadas a vê-lo como um partido que faz coisas. Mas, neste momento, não está no poder, não pode fazer coisas, e tem de se afirmar, em parte, também por comparação com o partido do Governo, fazendo a crítica que lhe compete, que é legítima e saudável à democracia.

Insinuação

Em palavras muito breves, quero referir-me à recente polémica sobre a negociação de compra de 30% da Media Capital pela PT.

Em primeiro lugar, é um negócio que não deve ir para a frente. Na composição accionista da PT há uma forte presença do Estado - directamente com golden share e "indirectamente" com a Caixa Geral de Depósitos - e a Media Capital detém um dos 2 canais privados generalistas portugueses. Acho que não preciso de explicar mais.

Em segundo lugar, não acredito que Sócrates não soubesse das negociações. Dada a posição relevante que o Estado tem na PT, o Governo terá certamente sido informado das negociações, antes de estas terem sido comunicadas à CMVM. Nos negócios a este nível, ninguém se atreve a realizar movimentos estratégicos sem consultar ou pelo menos sondar o Governo. Mesmo as empresas totalmente privadas o fazem, muito mais a PT! E a consulta faz-se, obviamente, antes do facto se tornar público.

Em terceiro lugar, Manuela Ferreira Leite não insinuou. Denunciou publicamente. Ou repetiu a denúncia já feita na AR, se quisermos ser rigorosos. O termo insinuação é caracterizado por uma carga de obscuridade, por vezes malícia e ainda certa cobardia, perfeito para integrar uma campanha negra. Razão pela qual os socialistas vieram logo denunciar e repudiar esta insinuação vil! Ora, eu repudio a utilização do termo "insinuação" neste caso.

Por último, e como não sou devedor de qualquer manutenção de sentido de estado e seriedade perante a opinião pública portuguesa, eu faço questão de declarar que é minha opinião pessoal que Sócrates não só sabia das negociações, como as incentivou, directa ou indirectamente. Isto, sim, era o tipo de afirmação que Manuela Ferreita Leite não podia fazer sem provas. Eu posso!

O Poder

Andam a dizer que o Sócrates quer controlar os media ao comprar a TVI através da PT. Confesso que o negócio é algo estranho. Mas, à beira do Ahmadinejad, o Socas é um menino. Isto e isto é que é verdadeira propaganda televisiva. Estes não bebem leitinho. Só cerveja. Directamente da garrafa. À homem.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Manuela Ferreira Leite

Acabo de ver a entrevista da líder do PSD.
Avaliação: muito bem. Não tem a fluência verbal nem a eficácia retórica de Sócrates, o que não é novidade. Mas creio que isso, neste momento, não a prejudica. Acaba por acentuar a contraposição dela face a Sócrates. Ferreira Leite assumiu-se como uma pessoa normal (não um produto de marketing), conhecedora dos problemas do país, com os pés assentes na terra e motivada para liderar uma recuperação do país. Além disso, revelou uma calma e serenidade que contrasta bem com a agressividade típica do primeiro-ministro.
Admito que esta postura não levante ondas de apoio imediato, mas é a postura a manter até às eleições. Com o tempo, dará frutos, como deu até agora.
Aguardo bitaites discordantes!

O Regresso dos "jotas"!

terça-feira, 23 de junho de 2009

AutoEuropa - Uma Questão tão Simples que até dói

Falar da AutoEuropa não se pode limitar ao arremesso de bitaites pró-Aurea Mediocritas. O caso é tão imediatamente compreensível que nem sequer há lugar ao equilíbrio harmónico que tantos procuram.

Pedir aos trabalhadores que comecem a trabalhar ao Sábado não é um acordo, é um abuso. Há quem chame isto "sacrifício pouco significativo". A verdade é que não é coisa que faça parte de um progresso civilizacional nem me parece que seja o tipo de que qualquer pessoa concorde, seja ela quem for. Há um limiar de responsabilidade adicional que vem com a crescente especialização do trabalho e que não se relaciona directamente com as exigências que neste momento se exigem.

Quando se diz, por outro lado, que os operários devem aceitar o acordo ou ser mais flexíveis dadas as condições árduas em encontrar emprego alternativo, tal equivale a dizer que eu não me posso queixar de comer só pão em casa, porque é melhor do que nada e a carne e o peixe não são para mim. É liminarmente absurdo e coloca a empresa num pedestal superior relativamente ao dos trabalhadores, quando na verdade a questão deveria, no máximo, ser colocada ao contrário: gostaria de relembrar que é no factor trabalho que reside o valor da produção final. No dia em que tudo estiver informatizado e robotizado, o sistema capitalista ruirá, porque o factor trabalho deixa de ser usado, e passaremos a buscar outro paradigma. Até lá, contentem-se com esta situação.

Culpar os sindicatos também não serve. Um sindicato existe para defender os trabalhadores que representa e é isso que tem sido feito neste caso. E ainda bem que assim o é. A renitência em aceitar este acordo significa a discordância relativamente a um acordo fantoche, que serviria unicamente para o agrado da Administração. O finca-pé estabelecido existiu em boa altura porque existem limites para o abuso. Não fossem eles rejeitar uma acordo deste género, e entraríamos numa espiral de pseudo-concordâncias que não beneficiaria ninguém.

Na AutoEuropa, tanto quanto sei, o trabalho é muito, muito duro, independentemente do montante salarial que lá é pago e ao contrário do que se vai dizendo por todo o lado. Pode-se argumentar o que se quiser, inclusivamente as vantagens do acordo proposto; mas não há ninguém que aceitasse, de bom grado, trabalhar aos Sábados apenas por uma questão de continuidade na empresa. Mau será o dia em que cheguemos a essa inevitabilidade. Esperemos não chegar a esse ponto.

O equilíbrio? É uma mera concordância da posição de forças. Se a empresa for embora, os trabalhadores terão de arranjar outro emprego; a empresa, por seu turno, terá de arranjar outro local de produção. Não é vantajoso para ninguém, de modo que mais vale compreender a posição dos trabalhadores do que lhes propôr contratos destes. O choradinho da Administração não cola, pelo menos para mim; é falso e é picuinhas. É, acima de tudo, o resultado de um conjunto de gestores que nada mais sabe fazer em relação ao valor da empresa; é simples: substituem-nos ou mandem-nos para layoff. Não é isso que se faz aos operários?

Ja é altura de se parar de exigir competitividade e produtividade aos trabalhadores portugueses. Os operários portugueses são tão ou até mais produtivos do que os operários alemães, franceses, chineses ou etíopes, e isto está provado. O nosso problema não é de produtividade, mas sim de valor acrescentado; mas esta responsabilidade já é corporativa e cabe à Administração resolver. Se apostassem em produção e inovação de elevado valor, conseguiriam atingir os objectivos propostos em matéria de rentabilidade dos capitais, permitindo manter a produtividade dos trabalhadores que, repito, já é elevada. O facto é que temos uma legislação laboral a cumprir e essa é a verdade incontornável que não pode, não pode mesmo, ser abalada por caprichos empresariais.

E uma última palavra para aqueles que consideram que os trabalhadores deveriam aceitar o acordo proposto pela Administração por motivos de importância nacional e de impacto colectivo no PIB: nem os trabalhadores são mártires de variáveis macroeconómicas nem devem nada a Portugal, quando muito o contrário. Haja respeito.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Autoeuropa - Uma Questão Complicada

Não gosto quando não sei de que lado está a razão.
Não está do lado da administração da Autoeuropa, com certeza. Ultrapassa os limites da ética empresarial esta constante ameaça de deslocalização. Sempre que querem mudar qualquer coisa, lá vêm com esta ameaça. Começo a deixar de acreditar que essa hipótese seja mesmo colocada em cima da mesa; parece-me cada vez mais uma utilização abusiva do medo do desemprego e da importância mediática que a Autoeuropa tem no tecido empresarial português. Eles sabem que a sua presença em Portugal convence os portugueses de que temos uma indústria hi-tech, e sabem que os portugueses vêem uma eventual deslocalização da Autoeuropa como um regresso à indústria de mão-de-obra intensiva. Na minha opinião, a Autoeuropa tem um significado muito mais simbólico do que real, e eles abusam do significado simbólico. Fazem uma espécie de chantagem.
Por outro lado, considero que uma empresa que esteja de boa saúde, como é o caso, desrespeita a ética também quando pretende fazer reflectir nos trabalhadores os efeitos negativos de uma crise conjuntural. Obviamente não defendo a proibição de despedimentos por parte de empresas lucrativas! Mas nem 8 nem 80. E é verdade que esta crise trouxe mudanças estruturais, mas no sector automóvel, e particularmente na VW, o abrandamento na procura é essencialmente conjuntural. A empresa tem de saber arcar com os riscos da actividade económica, e suas inevitáveis flutuações, não podendo querer sempre que sejam os trabalhadores a absorver os efeitos negativos dessas flutuações.
Também não concordo com a postura do Governo. Ciente da importância simbólica/mediática da Autoeuropa em Portugal, está claramente do lado da administração, ajudando a pressionar os trabalhadores. O que acaba até por prejudicar os objectivos da Autoeuropa, porque isto transforma-se também numa luta partidária, em que os partidos da esquerda pressionam os trabalhadores a recusar as propostas da administração.
Por fim, também me custa encontrar a razão do lado dos trabalhadores. Desde logo, porque recusam um acordo que os prejudicaria em valores pouco significativos, mas cuja recusa pode levar à perda de muitos empregos. Em segundo lugar, porque podem considerar-se uns trabalhadores privilegiados, tendo em conta o panorama nacional. Com efeito, auferem bons salários, têm boas condições de trabalho e a administração da Autoeuropa, apesar da postura errada, não deixa de os querer ouvir e mostrou-se disposta a negociar. E também se lhes pode aplicar o mesmo raciocínio que apliquei acima: não podem pretender passar por esta crise profunda sem ter de fazer um ou outro sacrifício.
A parte difícil disto tudo está em encontrar o equilíbrio, quer na repartição dos riscos da actividade económica, quer na utilização de posições negociais mais fortes.

domingo, 21 de junho de 2009

À direita, o caminho!


Para falar de direita, faz sentido em primeiro lugar acabar com um mito dos nossos dias. Faz sentido dividir o espectro ideológico entre direita e esquerda? Faz, pois claro que faz! Não descurando da existência de várias direitas e várias esquerdas, a forma de explicar o mundo e as soluções para os seus problemas políticos obedecem, ainda hoje, a convicções, sistemas e estratégias que se identificam com determinados grupos políticos. Podem dizer que o conceito está diluído, é certo que sim. O comportamento cíclico da economia leva a readaptações ideológicas. Note-se que a seguir ao colapso do socialismo a própria esquerda passou a ser adepta do mercado livre. Com a recente crise financeira a direita também ousou recorrer á nacionalização. Mas a esquerda e a direita justificaram as mesmas opções por motivos diferentes. A esquerda fez questão de condenar as fraquezas do capitalismo. A direita fez questão de recordar de que não há céu na terra e que nunca o ousaram prometer.


A política sem ideologia é um mito e os primeiros a defendê-la nestes modos são os primeiros a ser vítima dela. Daí que os partidos exclusivamente do centro nunca tenham vingado. Morrem quase antes de nascer porque não têm soluções e preocupações relevantes para discutir. Fecham-se em nichos do mercado eleitoral e esperam que a imagem light vingue no seio do eleitorado volátil.


A diferenciação ideológica é biologicamente intrínseca ao ser humano. A neurologia provou que o cérebro das pessoas de direita é fisicamente distinto do das pessoas de esquerda. As pessoas de direita, naturalmente mais conservadoras, são mais resistentes á adaptação a novos contextos e ambientes e as de esquerda têm nesse aspecto mais facilidade. Não fiquem os meus companheiros de blogue já entusiasmados porque tal pode ser uma virtude mas também um defeito. Os novos contextos podem não ser favoráveis e nesse caso a direita será a voz do inconformismo e da mudança, até porque ser conservador não é ser retrógrada. Ser conservador é gostar do presente, é gostar do que de bom se nos presenteia. È resistir a mudança daquilo o que causa estabilidade e bem-estar. Mas é também ambicionar a prosperidade e a riqueza e dividi-la pelo mérito.

sábado, 20 de junho de 2009

Sondagens

Agora que já passou algum tempo sobre o dia em que Portugal se indignou contra as sondagens, apetece-me fazer algumas observações. E faço-o com o privilégio de gozar de alguma autoridade (pouca!), uma vez que esporadicamente desempenho funções de inquiridor numa empresa de sondagens. Portanto, julgo que tenho algum conhecimento da situação, principalmente na perspectiva de quem trabalha "no terreno". Não sou eu que faço as contas, eu interrogo pessoas.
Em primeiro lugar, uma observação objectiva: de facto, as sondagens falharam sistematicamente, sempre no mesmo sentido e independentemente da empresa responsável e dos métodos utilizados. Isto é grave.
Em segundo lugar, a minha opinião quanto às causas: há uma causa principal, a abstenção. Havia uma pergunta nos inquéritos que interrogava precisamente sobre a intenção de ir votar no dia das eleições. Da minha experiência, relato que pouca gente afirma que não vai votar, alguns ainda não sabem, e a maior parte diz que vai votar. Aqui claramente as pessoas mentem, e isso influencia os resultados finais. E imagino que, depois, quando os meus superiores vão fazer as estatísticas, ainda se deparam com o problema de saber o que hão-de fazer a quem disse que não sabe se vai votar.
Noto ainda que há muitas pessoas que dizem que vão votar num determinado partido, mas na verdade sinto que estão indecisas. Outros estão como que a jogar ao totoloto - "deixe cá ver... Olhe, ponha aí o PS!", como quem diz para pôr o PSD. E como não posso interpretar subjectivamente os dados, mas apenas colocar a cruz onde as pessoas indicam, lá vai um voto possivelmente errado, porque no dia das eleições podem resolver tentar outra chave. Há lá um quadradinho para os indecisos, mas se não nos dizem que estão indecisos, não sou eu que o vou dizer, nem posso.
Uma terceira observação vai para a importância das sondagens. A comunicação social habituou-se a alimentar-se de sondagens. Uma sondagem pode dar notícias, análises do editor de política, tema de debate durante a próxima semana e ainda permite aos jornalistas "sentir o pulso" das campanhas, o que na minha opinião explica a cobertura muito crítica que foi feita à campanha do PSD, por exemplo. O homem andava sempre sozinho, não conseguia mobilizar as pessoas, não fazia arruadas porque ninguém gostava dele...
Ora, daqui decorre uma última observação, quanto às consequências. Em primeiro lugar, as empresas de sondagens vão ter de analisar muito bem os erros que cometeram, vão ter de elaborar inquéritos que permitam uma melhor transmissão da realidade e vão ter de estudar melhores métodos para o tratamento estatístico dos dados. É notório que as sondagens não estão a medir devidamente a capacidade de mobilização do eleitorado por parte de cada partido.
Em segundo lugar, a comunicação social tem de voltar à política real e dar menos importância à política virtual, parafraseando Pacheco Pereira.
Em terceiro lugar, felizmente todos tomaram consciência de que as sondagens são falíveis e a sua importância deverá voltar ao devido lugar. Têm o seu interesse, mas não substituem o conhecimento real e directo sobre a situação.
Por último, uma palavrinha quanto à ideia peregrina de proibir sondagens em período de campanha. É uma reacção radical e insensata. Viola a liberdade de imprensa sem haver um motivo suficientemente forte para isso. E além disso, parece-me que, pelo menos por uns tempos, já ninguém se vai atrever a declarar a morte de um partido baseando-se em meras sondagens.

Morreu Carlos Candal!

Foi com muita pena que soube da triste notícia ao ler o público no comboio; tinha falecido Carlos Candal!

Foi presidente da Associação Académica de Coimbra, deputado da Assembleia da Republica, deputado Europeu e um brilhante advogado. Era um homem eloquente mas também controverso. Contudo era esta sua última faceta que mais fascinava o seu auditório ficando célebres alguns despiques com José Miguel Júdice e Paulo Portas. Apesar de algumas rivalidades foi sempre um indivíduo bastante respeitado entre os seus opositores, prova disso é o testemunho de José Miguel Júdice no público de ontem em que lamenta a sua perda e relata alguns episódios vividos entre os dois, marcados pelas mútuas divergências ao longo dos anos, desde o tempo de estudantes em Coimbra.

Retenho na memória a intervenção de Carlos Candal na comemoração dos 120 anos da AAC na qualidade de sócio honorário e ex-presidente da mesma. O auditório bebeu avidamente as suas palavras e ficou deslumbrado com o belíssimo orador que ali estava narrando com precisão mas piada também, os acontecimentos que marcaram a luta estudantil no ano de ’62. Partilhou até com a plateia que recebera na altura o presidente da Associação Académica da Faculdade Direito de Lisboa(Jorge Sampaio, ex-presidente da Republica) em sua casa à boa maneira coimbrã, do alto das escadas que davam para o seu quarto, de toalha e chinelos exclamando que estaria pronto dentro de pouco tempo…

No final acabei ainda por ter a honra de ter tido dois dedos de conversa com o próprio em que me ia perguntando, entre as suas charutadas, acerca do que ia acontecendo na academia…

Foi sempre um republicano e um coimbrão convicto até aos seus últimos dias e por isso a democracia e em especial a academia de Coimbra estão hoje de luto!

Share |