Digam o que disserem, não há dúvida alguma da dimensão abissal desta crise que é, antes de tudo, global e não sectorial ou regional. Todos sofrem. A China vai abrandar dos dois dígitos do ano passado (até agora, conseguiu sempre mais do que 10% anual desde o 1º trimestre de 2004) para 6,7% em 2009 (previsão do FMI), mas este ano ainda nem se sabe o que pode acontecer; a Índia "só" vai crescer 5,1% e a Rússia estagnou (mesma fonte). Entretanto, já se lançou a iniciativa “Buy China” logo após a “Buy America”. Resquícios de proteccionismo roçam por todo o Mundo; só os governos nacionais os podem evitar e aqui reside a importância do investimento público.
Curioso que ainda há aqueles cépticos (liberais e conservadores, na sua maioria) que não acreditam na dimensão deste momento recessivo e fazem a apologia da contenção orçamental e da reduzida dívida pública. Para esses, nada mais se pode fazer do que esbater nas suas caras os factos, esperando que os percebam. E os factos são esses: só em Portugal, o consumo deve descer 2,4%, o investimento cai 18,4% (!), as exportações reduzem-se em 21,5% e as importações apresentam redução de 21,1%. Os dados são da OCDE e foram divulgados a semana passada.
Nem assim funciona. Manuela Ferreira Leite, uma figura política com méritos duvidosos no que à Economia diz respeito, não entende ou teima em não querer entender uma realidade assaz evidente. Ainda se fez um tal “Manifesto dos 28”, preenchido por gente que considera a inércia a melhor posição nesta altura. Felizmente, ainda houve um contra-manifesto, composto por académicos bastante mais respeitados e credíveis, a defender uma posição oposta, mais activa.
Nos EUA, isto já quase nem se discute. Dois prémios Nobel da Economia (Stiglitz e Krugman) alertaram para a necessidade da actuação do Estado nesta altura. O ultimo desses, Krugman, foi o laureado do ano passado e tem pregado constantemente na necessidade de expandir o investimento e consumo público porque o aparente megalómano plano de Obama não é suficiente e não tem chegado a todos. Numa de muitas das suas crónicas, denominada “What to Do” (Novembro 2008), ele reitera que ainda havia muito a fazer. Ainda anteontem esteve na CNN a discutir com um conservador e disse isso mesmo.
O próprio Kenneth Rogoff, um dos mais fervorosos liberais americanos, ex-economista-chefe do FMI e crítico de Stiglitz, libertou um artigo chamado “The Aftermath of Financial Crises” (2008) em que diz que o aumento da dívida pública é perfeitamente normal num ambiente como este, recorrendo a diversos casos de crises financeiras no passado, defendendo também que esta crise, por ser especialmente grave, tem de ser combatida de forma muito forte e que a lenta recuperação é inevitável numa situação destas, pelo que devemos aprender com as experiências do passado (especialmente a japonesa dos últimos 17 anos).
Até a revista “The Economist”, uma publicação de forte pendor liberal, sofreu enormes mudanças editoriais entre Setembro 2008 e Fevereiro 2009, reiterando que a enorme prioridade neste momento é chamar a intervenção estatal de modo a retomar o processo de globalização o mais rapidamente possível, sob pena de se parar o crescimento mundial que, o ano passado, estava a ser alimentado pelos BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China, os emergentes).
Estas são as evidências. Todos os que têm mantido o bom senso têm repousado na necessidade de pegar no Estado e usá-lo como motor de crescimento: numa situação de ausência de política cambial e monetária, a “armadilha de liquidez” em que nos encontramos só pode ser resolvida através do recurso à política orçamental. Quem não o fizer, estagna.

