sábado, 10 de outubro de 2009

Eu acho cá uma piada a certas pessoas...

Recapitulando: o Prémio Nobel descende da vontade de um gajo sueco chamado Nobel que morreu no fim do Século XIX e que deixou a sua fortuna entregue para premiar, monetária e simbolicamente, personalidades mundiais em diversas áreas. O próprio testamento diz isso mesmo:

"The whole of my remaining realizable estate shall be dealt with in the following way: the capital, invested in safe securities by my executors, shall constitute a fund, the interest on which shall be annually distributed in the form of prizes to those who, during the preceding year, shall have conferred the greatest benefit on mankind. The said interest shall be divided into five equal parts, which shall be apportioned as follows: (...)"

Mas há quem chore com os premiados na Literatura e na Paz ao longo do tempo, ignorando isto:

"(...)one part to the person who shall have produced in the field of literature the most outstanding work in an ideal direction; and one part to the person who shall have done the most or the best work for fraternity between nations, for the abolition or reduction of standing armies and for the holding and promotion of peace congresses".

Ao fim de muitos anos, com a fama, grandeza e universalidade que o prémio atingiu, aparecem sempre uns indivíduos a questionar as escolhas do Comité, como que se quisessem apropriar indevidamente dos seus critérios de escolha. Para quem advoga tanto a propriedade privada e a garantia segura da mesma, é bastante irónico que andem para aí a questionar o que é que certos júris, independentemente de quem eles sejam, estarem a desempenhar aquilo que o tal homem que morreu, chamado Nobel, quis que fizessem em nome dele.

É quase tão absurdo como achar que, de um momento para o outro, a SIC ou a TVI deveriam abdicar de parte da programação de baixo nível que têm, enviesada em prol das classes populares (e não digo que não a têm), para passarem a ser respeitadoras do universo dos espectadores portugueses de acordo com o que achamos correcto, só pela razão de que achamos que assim deveria ser.

É ridículo. Não estamos aqui a falar de coisas do domínio público colectivizado, como a RTP, em que tal se pode exigir de forma mecânica. Estamos a falar de escolhas decorrentes de uma instituição de carácter privado que solicita a instituições diversas (sob a forma de Comités) o destinatário do prémio. Querem dar a opinião sobre a concordância/discordância relativamente à escolha? Go ahead. Todos o podem e devem fazer. Questionar os critérios, choramingando pelo enviesamento ideológico de quem escolhe? Tenham dó.

5 comentários:

  1. Não vejo qual o problema de criticar, afirmando que desta forma o prémio Nobel vai perdendo o seu prestígio.
    Aliás, é o que tu fazes ao dizer que SIC e TVI se guiam por critérios editoriais com os quais não concordas. Estás, no fundo, a dizer que não têm credibilidade, ou que não têm tanta como poderiam ter se seguissem os critérios que preferes. E no entanto isso não significa que queiras que essas estações sejam obrigadas a mudar a sua programação.
    É o que se diz do prémio Nobel. Não se quer tornar a atribuição do prémio numa coisa pública, não se quer alterar a forma da sua atribuição. Simplesmente, face à importância que tem hoje no mundo, é legítimo dizer que perde credibilidade com as escolhas deste ano.
    Discordamos, mas não nos arrogamos a autoridade de decidir a quem entregar o prémio.

    Dizemos simplesmente que não nos parece que Obama seja "the person who shall have done the most or the best work for fraternity between nations, for the abolition or reduction of standing armies and for the holding and promotion of peace congresses".

    E, por fim, é perfeitamente legítimo informar os outros de que o comité que atribui os prémios não é de composição neutra. É legítimo contestar a ideia que se vinha a formar de que o Nobel é um reconhecimento concedido por alguma entidade superior, imparcial e de nível global. Pois, como dizes, "estamos a falar de escolhas decorrentes de uma instituição de carácter privado que solicita a instituições diversas (sob a forma de Comités) o destinatário do prémio"

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  2. O mais engraçado é que há ainda quem justifique a atribuição do prémio, não pelo que foi feito pela paz nas relações internacionais, mas pelo que supostamente ele fará.
    Ainda não foi desta que o Bono dos U2 levou o prémio!O problema é que não está tão na moda como o Obama...

    PS: Continuo sem perceber porque é que questionar uma decisão do Júri é ir contra o direito de propriedade privada. Este argumento é a pérola daquilo a que eu gosto de chamar "contorcionismo argumentativo".
    Por essa lógica não podemos questionar as decisões dos Júri nos ÍDOLOS mas podemos no DANÇA COMIGO porque já é televisão pública...

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  3. Eu não estava a falar de vocês, mas tudo bem.

    Não tem nada a ver com o concordar ou o deixar de concordar. Tem a ver com o se queixar de ser uma coisa enviesada ideologicamente em certas categorias.

    Há gajos na blogosfera que estão a dizer mal da escolha do Obama, não porque acham que ele seja má opção, mas [também] porque a Academia vira sempre para o "sítio" errado. E depois quase que choram por isso mesmo. É um prémio privado, for god's sake!, não têm de prestar contas a ninguém!...

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  4. Explicando devagar:

    - As pessoas têm todo o direito de discordar dos critérios e achar que é ideologicamente enviesado e consequentemente afirmar que o Prémio não deve ser olhado como um testemunho credível do mérito de alguém na área em causa;

    - O que não quer dizer que queiram que a Academia preste contas a ninguém! Porque é precisamente um prémio privado!

    É tão simples quanto isto: qualquer um tem o direito de classificar o Telejornal de MMG de lixo informativo, de dizer que os "Morangos com Açúcar" são produção rasca ou que o "A Bola" é um jornal propagandístico do SLB.

    O que não quer dizer que essas pessoas se arroguem do direito de ir até lá fechar o órgão informativo ou querer forçar uma mudança nas escolhas editoriais/de programação. Simplesmente podem não ver, ler ou comprar ou podem fazê-lo, nem que seja com o único intuito de dizer mal!

    Respeitar a propriedade privada não implica limitar a liberdade de expressão. Qualquer um pode opinar sobre o que quiser, desde que não queira impor a sua opinião aos outros.

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  5. Eu não coloquei em causa a liberdade de expressão. Acho que fui claro quanto a isso. Aliás, eu próprio opinei sobre a mesma questão.

    Falei mal, isso sim, daqueles que lamentam vitimizadamente o enviesamento como justificação dos premiados.

    "O Obama ganhou?? Buahhhh!!! A Academia é sempre a mesma coisa - aqueles gajos premeiam sempre gajos de esquerda!! Buahhhh!! A culpa é do sistema!! Buahhh!"

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