quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Enviesamento científico do Xavier

Saiu há dias um novo artigo de Xavier Sala-i-Martin que é uma salada de medição de pobreza, desigualdade e crescimento económico. Estive a ler o artigo e é o valha-me Deus... Diz ele que, desde 1970, os pobres abaixo da linha 1$/dia diminuíram drasticamente, com a taxa de pobreza para o nível de 1$/dia a se encontrar actualmente em cerca de 5% (desculpe?!), que o número de pobres diminui em mais de 600 milhões para esse nível de 1$/dia (para uns "meros" 300 milhões), que a desigualdade mundial baixou drasticamente (esta é de rir) e que a explicação para tal está nos quantis intermédios e não nos extremos das populações.

Ora bem, correndo o risco de ser muito técnico neste parágrafo, há certos critérios que convém ter em atenção na leitura destes dados. O Xavier é um pequeno feiticeiro. Ele pega numa varinha académica e faz uma maquilhagem estatística que é um mimo, conseguindo almejar os dados que mais lhe convêm. Só para listar alguma da criatividade: usa no denominador a população mundial toda, embora não haja pobres abaixo do 1$/dia nos desenvolvidos; não usa dados de inquéritos, prefere unicamente as contas nacionais, rejeitando os problemas associados; preenche os buracos estatísticos com recurso a estimativas em cima do joelho; assume demasiados pressupostos que, colectivamente, dão em desastre (nomeadamente a aplicação linear da evolução do rendimento e a distribuição "lognormal" do mesmo); não mede efectivamente a pobreza, prefere uma estimação paramétrica com critérios metodológicos altamente discutíveis; não tem em conta a desigualdade intra-países, pois usa o conceito 2 de desigualdade (no sentido de Milanovic); majora o rendimento dos pobres para explicar desvios estatísticos; e por aí fora etc etc etc. Este foi o senhor que, no último artigo, optou por não incluir a União Soviética porque "não valia a pena" (pois não, Xavier: eram "só" 20% dos 300 Milhões de pessoas que nos anos 90 ficaram pobres devido à liberalização repentina dos seus países...). É natural que, com isto, a pobreza saia subavaliada na sua análise.

Por que é que isto acontece, perguntais? Bom, a verdade é que o Xavier é um liberal (no sentido clássico e económico do termo) e os seus actos propagandistas têm sido apanágio nos seus artigos há já bastante tempo, principalmente naqueles que medem o progresso do esforço de redução de pobreza no período neoliberal ('80s, '90s).

Não é por acaso que os estudos da medição da pobreza abordem 1970-2005 como a benchmark de avaliação - pretende-se avaliar o desempenho do modelo económico escolhido na altura, de modo a retirar conclusões. E é talvez da realidade desse período que o Xavier quer fugir. Os autores deste tema de estudo divergem ligeiramente, mas quase todos são consensuais em duas coisas: não deve haver criatividade na medição da pobreza mundial e ela não tem sido combatida de forma suficiente. É reconfortante para o Xavier pensar que o neoliberalismo resolveu o problema de todos, qual panaceia desejada, tendo trazido um saldo mais-do-que positivo para o Mundo; mas se fizermos bem as contas da desigualdade e da pobreza mundiais, somos capazes de ser obrigados a refazer a estimativa da variação de "bem-estar" dos últimos 30 anos, pois entramos numa análise subjectiva na qual os cálculos passam a ser meros complementos. É mais fácil empolar estatísticas, mas quase nunca é a opção mais correcta.

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