terça-feira, 20 de outubro de 2009

Francisco Van Pó Caralho (perdooem-me a frontalidade)

O País Dele, por Manuel António Pina

Não faço ideia de quanto ganhará por mês o sr. Francisco Van Zeller, presidente da CIP. Mas suponho que ganhará um pouco mais de 450 euros (pelo menos o fato com que apareceu ontem na RR deverá ter custado o dobro disso). E suponho isso porque o sr. Van Zeller quer agora voltar atrás com o que acordou na Concertação Social e impedir que o salário mínimo nacional aumente, como previsto, 25 euros este ano.

Argumenta o patrão dos patrões que a inflação não subiu e, assim sendo, quem recebe salário mínimo… ganhou, o que é um escândalo. Os patrões estão muito tristes por a inflação não ter, como de costume, subido, rapando os salários, valorizando-lhes os "stocks", diminuindo-lhes o que pagam em juros e rendas e multiplicando-lhes os lucros. E pretendem ser "indemnizados" pelos trabalhadores pelo facto de todos aqueles que mandaram para o desemprego terem deixado de consumir-lhes o que produzem. É um bom e sólido argumento. Quanto menos o sr. Van Zeller pagar a quem trabalha, maiores serão os seus lucros e, logo, mais próspero será o país do sr. Van Zeller. O país dos outros? Esse não é problema seu.


Van Zeller, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa Confederação Industrial Portuguesa (CIP) continua a pregar os dogmas fundamentalistas daqueles com visão redutora e deficitária. Em qualquer outro país, o paradigma da evolução da especialização industrial é respeitado: os países sofrem fases, que recaem em escolhas do passado, e vão-se adaptando-se à evolução, transitando para a fase seguinte. Esse momento já chegou há muito em Portugal.

A visão de merceeiro que leva à contabilidade de ensino primário de van Zeller e dos seus apoiantes lóbbiistas (que, de resto, é partilhada por uma senhora que tentou ser primeira-ministra nas eleições passadas) consuma a apologia da política de salários baixos como método para enfrentar o entrave industrial português. Já lá vão muitos anos desde que essa opção foi escolhida, mas também há muito que carece de substituição. São as tais fases. Ainda assim, continua-se a pensar que a estratégia de atribuir todas as mais-valias ao capital em vez de ao factor trabalho é sustentável a longo prazo. Perdooa-lhes Senhor, pois não sabem o que dizem.

3 comentários:

  1. Mas que ataque ad hominem, pah! Isso não fica nada bem...

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  2. Além de tudo o que dizes (e bem), resta acrescentar que parece que o Quico se esquece que o salário mínimo não serve só para baixar o custo da "mão-de-obra". Grande parte do sistema fiscal e social público está construído à volta dele, quanto mais não seja como Benchmark invertida. Será que o Quiquinho pensou nos efeitos que uma teimosa e tacanha defesa do congelamento do salário mínimo tem a esse nível?

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  3. É certo. Na verdade, não há um único argumento a favor do salário mínimo baixo em termos de longo prazo. Os únicos argumentos pró-moderação do salário mínimo são de periodicidade uni-geracional (se tanto). Em Portugal já se passou esse limite há muito.

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