Esta figura mostra um exemplo daquilo que, estatisticamente, se pode designar pela distribuição normal do Teorema do Votante Mediano:
Esta distribuição é a que caracteriza mais fielmente, de um ponto de vista estatístico, a distribuição dos votantes num dado espaço eleitoral. Sem ir muito pelas especificações (qualquer manual de Economia Pública ou de Ciência Política tem isto), quer isto dizer que, se assumirmos uma linha unidimensional que disciplina a ideologia dos votantes (e, no nosso caso, a bipolarização esquerda-direita está bem vincada), temos que a concentração de votos ao centro faz sentido na medida em que, dadas as opções em cima da mesa, os votantes tendem a optar pela preferência que se encontra mais perto daquela com a qual se identificam. Não quer dizer que os Portugueses estão equi-distribuídos à esquerda e à direita, mas sim que há um votante mediano que disciplina a distribuição (este votante pode não ser, e geralmente não é, o centro da esfera esquerda-direita, mas sim o centro das preferências globais – o homem do meio).
No espaço político Português, no âmbito das legislativas, o apelo ao voto útil por parte do PS tinha por objectivo caçar o voto ao centro, desresponsabilizando e desvalorizando ao mesmo tempo a utilidade do voto no BE, ao classificá-lo como uma não-opção face à ameaça da direita. O PS deu apenas duas opções aos portugueses: PS ou PSD. Progresso ou Estagnação. Positivismo ou Pessimismo. Sócrates ou Manuela. Ao fazer esta conversa, ele aplicou este Teorema.
Talvez fosse indicado agora relembrar aquele conceito que os liberais tanto gostam de citar, mas que raramente aplicam adequadamente. A chamada “mão invisível” agiu a partir do momento em que o polvo-PS se deslocou para o centro, deixando um buraco eleitoral à sua esquerda que tinha de ser ocupado e que já mais não estava ao alcance dos seus tentáculos. E aqui está o cerne do problema: o BE não teve de se esforçar muito porque aquele eleitorado existe e iria certamente calhar a alguém, e a CDU é demasiado rígida para absorver esse excedente. Sócrates pensou que ia caçar a esquerda quase toda com a treta do voto útil, mas esqueceu-se que, à esquerda do PS, o eleitorado é residente e não se deixa enganar.
Ou seja:
É por isto mesmo que o PS não é a “esquerda responsável” ou a “esquerda moderada” que se auto-proclama, mas no limite a “esquerda possível” ou, como o João Rodrigues bem classifica, a “esquerda-mocambo”: podem querer e dizer-se de esquerda, mas não me lixem que aquilo não é esquerda alguma.
E é também por isso, já agora, que a CDU e o BE não são “extrema esquerda” ou “esquerda radical”, mas sim a “esquerda socialista” e a “esquerda moderna” que aproveitaram uma ala bem larga do antigo PS. Se querem chamar “radical de esquerda” a alguém, façam-no ao PCTP-MRPP ou ao POUS – este, inclusivamente, ainda tem o símbolo da Quarta Internacional no logótipo. Se os outros são radicais, o que são estes?

De facto, o Partido Socialista tem tido um percurso em que se nota uma progressiva tendência para se moderar e se tornar um partido social-democrata semelhante aos partidos sociais-democratas europeus como o SPD alemão ou o New Labour inglês. Ja la vão (felizmente) os anos 70 e inicios dos 80, em que o PS se afirmava como partido marxista.
ResponderEliminarRegrar geral todos os pertidos portugueses foram amadurecendo e se deslocando para a direita depois dos excessos do PREC, alguns programaticamente outros apenas na comunicação. Esta viragem do PS já é muito obvia no tempo do Guterrismo.
No entanto, o PS cresceu para o centro e até para a direita quando começou a fazer o discurso responsável do rigor orçamental no inicio da legislatura do governo sócrates. E foi perdendo progressivamente a sua ala esquerda por esso motivo.
O Bloco não moderou a sua constituição programática, não se alterou. O eleitorado do PS da esquerda "conservadora" é que deixou de se rever neste PS e por isso preferiu entregar o voto ao Bloco e á CDU em vez do PS ou da direita do PS.
O redicalismo de um partido não se mede pela quantidade do seu eleitorado, mas pelas suas propostas de governo. Nacionalizar os sectores energéticos, a banca e a grande industria como defende a CDU ou os sectores "estratégicos" como defende o bloco, não são outra coisa que não propostas radicais de uma esquerda radical.
Parece-me que estás a confundir 2 planos distintos.
ResponderEliminarHá, por um lado, as ideias de um partido; e por outro o seu eleitorado numa eleição pontual.
Na minha opinião, são as ideias consistentemente defendidas por um partido que definem a sua posição ideológica.
Não é o facto de nas últimas eleições legislativas estes partidos terem ido buscar votos ao centro-esquerda (ou esquerda moderada, como quiseres) que faz com que não sejam de esquerda radical.
E também não é pelo facto de os seus dirigentes preferirem não ser muito claros nos discursos quanto a certas ideias que muda as ideias em si.
A conclusão que o facto descrito por ti (e com o qual concordo) permitiria tirar seria que este eleitorado pode acabar por influenciar as ideias dos partidos em causa, puxando-os para o centro. Mas ainda não vi sinais dessa alteração.
Mas note-se também que o facto de se dizer que eles são "a esquerda" e não a esquerda possível é em si um sinal de que são esquerda radical. Não radical naquele sentido pejorativo em que recorreriam ao terrorismo para impor as suas ideias; mas radical no sentido em que as suas ideias decorrem dos pilares fundamentais da esquerda e não há cedências. Ou seja, as ideias que defendem decorrem da própria raiz do que é ser esquerda. Nisto se define o radicalismo, quando aplicado a PCP e BE.
Na prática, significa que não aceitam algumas das premissas essenciais da economia de mercado em que vivemos. Defendem um modelo de sociedade diferente, não apenas uma variação neste mesmo modelo que temos.
O PS, não se mantendo tão leal aos fundamentos da esquerda, é, de facto, uma esquerda moderada. Outra questão já é de saber se, neste momento, com este líder, não estará para lá da simples moderação, deixando de ser esquerda. Mas, como disse, isto é outra questão, e não tem a ver ainda com a identidade do próprio partido.
Ainda bem que focaram o mesmo argumento, pois assim já não tenho que individualizar e duplicar a minha resposta. ;)
ResponderEliminarEu também pensei nesse argumento antes de escrever. No entanto, também o ponderei bem e posso afirmar que discordo dele.
Os partidos são a imagem do seu eleitorado. Quando o BE consegue duplicar a sua votação, sabe que vai ter de usar a máxima do Homem-Aranha: "with great power comes great responsability". É que, de facto, a eleição de mais deputados leva a mais responsabilidades perante mais eleitores e mais campos de actuação. Não estou a ver o BE a abdicar de forma leviana a franja que capturou recentemente.
Já a CDU tem o eleitorado mais fixo, daí nunca crescer ou decrescer muito. A questão já não se coloca nesses termos.
Quer dizer, não sejamos ingénuos... O corolário daquilo que vocês me estão a dizer é o de que os partidos (quase) não vêem as preferências do seu eleitorado aquando da elaboração dos seus programas. Estão a dizer que os partidos são autonomamente responsáveis pelo que defendem e que o eleitorado se ajusta a essas alternativas propostas quando elas são apresentadas.
Huh... meus caros, estamos em Portugal. Poucos países europeus há com maior submissão dos políticos aos cidadãos do ponto de vista de "caça ao voto", caciquismo e demagogia. Não estamos na Alemanha ou na Dinamarca, onde a lealdade aos princípios do partido conta mais do que o voto conseguido. Aqui eles andam ao sabor da corrente, capturando votos aqui e ali.
Eu não digo que os partidos em causa não vêem as preferências do eleitorado. Claro que vêem e por isso adaptam os seus discursos a essas preferências. Mas também sabes que as ideias centrais continuam as mesmas. Sabes que ideias eles sempre defenderam e que nem Jerónimo nem Louçã são gajos de mudar de ideias só porque obtiveram votos de pessoas que defendem outras ideias. Pelo menos esta honra lhes seja feita!
ResponderEliminarEles vêem o aumento do eleitorado como algo instrumental para poderem afirmar as ideias que sempre defenderam. Não são tempos de as afirmar claramente, mas lá vão expondo os seus argumentos aqui e ali para ir convencendo a população.
Por outro lado, a máxima de que "with great power comes great responsability" não se lhes aplica porque eles não têm de prestar contas ao seu eleitorado enquanto não forem governo. Enquanto não forem governo (nunca serão, espero) não estarão perante o teste de decidir entre as suas próprias ideias e as do seu eleitorado. Apenas terão a função de tentar puxar a governação para a esquerda, que é o que agrada ao seu eleitorado. Prestar contas desta função é fácil e não obriga à tal coincidência de ideias.