No último post, ficou por responder a seguinte questão: "Tudo bem, concordo com todas essas verdades lapalicianas, mas quem disse que essas equipas de pessoas têm de se apresentar na forma de partidos? Os movimentos de cidadãos já não permitem preencher as condições referidas?"
E baixando para um nível ainda mais mundano, peguemos no exemplo da decisão de compra de umas bolachas. É o facto de uma bolacha ter uma marca reconhecida que necessariamente faz dela uma melhor bolacha? Não. Nada nos garante que a bolacha de marca é melhor do que a bolacha sem marca. Pode ser pior, pode ser melhor e pode ser igual.
A vantagem que a marca traz não está na bolacha em si, mas sim no conhecimento que nós, mesmo antes de a provarmos, podemos ter acerca das suas características. Tendo provado outras bolachas da mesma marca, podemos presumir que aquela vai apresentar um mínimo de homogeneidade face às anteriores.
Já a bolacha sem marca é, pelo menos à partida, uma verdadeira incógnita. Claro que podemos olhar para os dados que a acompanham, como os seus ingredientes, o seu processo de fabrico, etc, e isto dar-nos-á uma indicação das suas características. Mas também não sabemos bem se os dados apresentados serão fidedignos, e poderemos não saber o que são todos os seus ingredientes; ao passo que na bolacha de marca tivemos oportunidade de comprovar se os dados correspondiam à realidade e sabemos, pelo menos, que aqueles ingredientes que desconheciamos não nos provocaram nenhuma indigestão.
Acresce que quem produz a bolacha de marca tem mais incentivo para manter um nível mais constante e mais elevado de qualidade, uma vez que, se o comprador não gostar de algumas bolachas dessa marca, deixa de confiar nela; ou então se a má qualidade for constante, percebe que essa marca não oferece boas bolachas. E verifica-se ainda que o comprador não se importa de pagar um preço mais elevado por este acréscimo de informação e confiança.
Equiparando o comprador ao eleitor, a decisão de compra à decisão de voto, as bolachas às pessoas, as marcas aos partidos, os ingredientes às ideias defendidas e as características à competência, temos aqui uma bela alegoria.
Os partidos, porque são mais dignos, chamam-se instituições e não marcas. São as pessoas que os compõem que fazem a sua reputação, que levam os eleitores a formarem uma ideia sobre o partido com base na própria experiência. Assim, os partidos permitem que os eleitores, mais facilmente, possam conhecer as ideias de um determinado candidato sem terem uma conversa com ele. A pertença a um partido indica aos eleitores que tal pessoa partilha um mínimo de ideias e competências com as outras pessoas do partido que o eleitor teve oportunidade de conhecer. Se eu digo, por exemplo, "sou do CDS" estou a incluir aqui muita informação. Por outro lado, que informação dou ao dizer que me candidato a uma eleição pelo Movimento Cidadãos por Portugal, por exemplo? Questão diferente é se o movimento acaba por se institucionalizar, estabilizando-se, criando estruturas organizativas próprias, etc; passa assim a ser um partido.
Resumindo, a apresentação de uma equipa de pessoas na forma de um partido permite ao eleitor presumir que as pessoas dessa equipa partilham um mínimo de ideias e competências entre si e entre si e os seus antecessores, aquelas pessoas que já se apresentaram antes no âmbito do mesmo partido. O eleitor sabe que ideias são essas, sem ter de ir constantemente verificar cada linha do programa e sabe o grau de realização daquilo a que a equipa se propõe.
Já um movimento de cidadãos, na verdadeira acepção do termo, é o mesmo que um pacote de bolachas sem marca. Temos de ler todo o programa para conhecer as suas ideias e, mesmo assim, podemos ficar com sérias dúvidas quanto à sua honestidade e quanto a muitas outras características das pessoas em causa e, consequentemente, da equipa.
A questão do controlo da qualidade, outra dimensão importante da institucionalização, segue no próximo post.
Ou seja, estás a querer dizer que:
ResponderEliminar- O Jerónimo é uma bolacha de baunilha Triunfo, porque é nacional?
- o Francisco Louçã é uma bolacha sem sal?
- o Sócrates é a bolacha Maria?
- a Ferreira Leite é uma Oreo? (combina com leite lol)
- o Paulo Portas é uma Chipmix?
Tens de ter cuidado na análise. Afinal de contas, as marcas brancas estão a ganhar muito terreno sem necessidade de muita publicidade. Talvez seja altura da diversificação do produto. Algumas bolachas do PSD começam a ficar desenxabidas...
Gostas de Oreos Luis Oliveira?
ResponderEliminar:D
Marca branca não é exactamente o mesmo que "sem marca". Tens reparado com certeza que as cadeias de distribuição estão a tornar-se verdadeiras marcas, para dar uma marca conhecida (a sua) aos produtos supostamente sem marca.
ResponderEliminarTambém se pode aplicar aqui. Por muito apelativo que, num caso ou noutro, o produto sem marca possa parecer, em geral é sempre melhor ter marca.